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《A Dor Debaixo do Cobertor Azul》Parte 6

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Na manhã seguinte, Henrique Duarte já estava em seu escritório na Avenida Paulista antes das sete.

Sobre a mesa havia cópias de atas, procurações, alterações societárias e documentos assinados por Augusto Vasconcelos nos últimos meses de vida.

Quanto mais Henrique lia, menos aquilo parecia uma simples disputa por herança.

Às oito e vinte, Rafael entrou.

"Encontrou alguma coisa?"

Henrique empurrou uma pasta na direção dele.

"Seu pai estava preparando uma mudança muito maior do que imaginávamos."

Rafael sentou-se.

"Que mudança?"

"Augusto queria retirar parte dos poderes administrativos da Teresa."

Rafael ficou em silêncio.

Henrique abriu uma ata antiga.

"Quatro meses antes de morrer, seu pai convocou uma reunião extraordinária com dois diretores e um advogado externo."

"Eu não sabia disso."

"Você estava em Belo Horizonte naquele dia."

Rafael lembrava da viagem.

Augusto insistira para que ele visitasse uma unidade da empresa em Minas Gerais.

Na época, parecera apenas trabalho.

Agora, tudo ganhava outro significado.

"O que aconteceu na reunião?"

Henrique apontou para algumas linhas.

"Augusto questionou movimentações financeiras autorizadas pela sua mãe e pediu uma revisão completa das procurações dela."

Rafael franziu a testa.

"Meu pai nunca me falou sobre isso."

"Talvez estivesse tentando proteger você."

Henrique puxou outro documento.

"Duas semanas depois, houve outra reunião."

"E?"

"Dessa vez, Teresa estava presente."

Rafael começou a ler.

O texto era formal, mas algumas observações manuscritas mostravam que a discussão tinha sido intensa.

"Ela se recusou a assinar."

"Sim."

Henrique assentiu.

"Augusto queria limitar a autonomia dela sobre determinadas participações da família."

"Minha mãe controlava tudo depois que ele morreu."

"Exatamente."

Rafael levantou os olhos.

"Então ele não conseguiu terminar."

Henrique ficou sério.

"Seu pai morreu onze dias antes da reunião em que essas mudanças seriam apresentadas formalmente."

O silêncio pesou.

Rafael fechou a pasta.

"Ele teve um infarto."

"É o que consta."

"Você está insinuando alguma coisa?"

"Não."

Henrique respondeu imediatamente.

"Não temos qualquer elemento para transformar a morte de Augusto em outra coisa."

Rafael respirou fundo.

"Então não vamos inventar."

"Concordo."

Henrique recolheu os papéis.

"Mas existe um fato importante. Depois da morte dele, as mudanças não avançaram."

"E Teresa manteve o controle."

"Mais do que isso."

Henrique abriu outra pasta.

"Em menos de trinta dias, sua mãe consolidou novamente várias procurações."

Rafael recostou-se na cadeira.

Durante anos, acreditara que Teresa assumira tudo porque a família estava destruída pela morte de Augusto.

Agora começava a perceber que ela também havia aproveitado aquele vazio.

"Precisamos encontrar a gravação."

"Já pedi levantamento de tudo que saiu do escritório de Augusto."

"Computadores?"

"Dois."

"Celulares?"

"Um aparelho pessoal e um corporativo."

"Arquivos?"

"Parte foi levada para a sede do grupo."

Rafael se levantou.

"Então vamos até lá."

Henrique negou.

"Você não deveria aparecer na empresa hoje."

"Por quê?"

Henrique pegou o celular.

"Porque sua mãe resolveu mudar de estratégia."

Ele abriu uma notícia.

Rafael leu a manchete.

Seu rosto endureceu.

A matéria falava sobre uma crise dentro da família Vasconcelos.

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Mariana era descrita como uma mulher de origem humilde que havia se casado com um dos herdeiros do grupo.

Mais abaixo, aparecia a expressão que fez Rafael perder a calma.

"Dúvidas sobre a paternidade."

Henrique mostrou outra publicação.

Depois outra.

Em poucas horas, diferentes páginas reproduziam a mesma história.

"Isso veio dela."

"Não consigo provar ainda."

"Eu consigo."

Rafael pegou o celular.

"Minha mãe passou a vida inteira fazendo isso. Quando não consegue controlar alguém dentro de casa, controla o que os outros pensam dessa pessoa."

O telefone dele começou a tocar.

Era Mariana.

Rafael atendeu imediatamente.

"Oi."

A voz dela estava nervosa.

"Rafael, tem gente aqui embaixo."

"Quem?"

"Jornalistas."

Ele fechou os olhos.

"Não sai do quarto."

"Eu não vou sair."

"Estou indo para o hospital."

Henrique pegou a pasta.

"Eu vou com você."

Quando chegaram ao Sírio-Libanês, a entrada principal estava cercada por câmeras.

Repórteres se aproximaram assim que reconheceram Rafael.

"Rafael, o filho de Mariana é realmente seu?"

"Vocês vão fazer exame de DNA?"

"É verdade que sua esposa tentou obter participação na empresa?"

"Teresa Vasconcelos rompeu com o filho por causa de Mariana?"

Rafael não respondeu.

Seguiu até a entrada.

Um repórter gritou:

"Mariana mentiu sobre a data da gravidez?"

Rafael parou.

Henrique tocou em seu braço.

"Não."

Mas Rafael virou.

Olhou para as câmeras.

E caminhou de volta.

Os jornalistas imediatamente se aproximaram.

"Rafael!"

"Você vai falar?"

"Existe dúvida sobre a paternidade?"

Ele levantou a mão.

O barulho diminuiu.

"Vocês querem saber se eu tenho alguma dúvida?"

Microfones se aproximaram.

"Não."

Rafael olhou diretamente para as câmeras.

"Mariana é minha esposa. E ninguém vai usar meu filho para destruir essa mulher."

Os repórteres começaram a falar ao mesmo tempo.

Rafael continuou.

"Minha esposa está internada. Ela precisa de tranquilidade, não de pessoas espalhando acusações."

"Então você confirma que é o pai?"

"Eu confirmo que não vou permitir que transformem minha família em instrumento de uma disputa."

"Quem está por trás das acusações?"

Rafael hesitou.

Por um segundo, quase pronunciou o nome de Teresa.

Henrique observava.

"Essa resposta vai aparecer na hora certa."

Ele se virou e entrou no hospital.

Quando chegou ao quarto, Mariana estava sentada na cama.

Dona Lúcia permanecia ao lado dela.

"Você não precisava fazer isso."

Rafael aproximou-se.

"Precisava."

"Agora vão atacar você também."

"Que ataquem."

Mariana olhou para ele.

"Você sempre odiou exposição."

"Eu odiava desagradar minha mãe."

Ele sentou.

"Não é a mesma coisa."

Lúcia ficou em silêncio, observando os dois.

Mariana segurou a mão do marido.

"Você acredita mesmo em mim?"

Rafael não hesitou.

"Sim."

"Mesmo com aqueles documentos?"

"Principalmente depois daqueles documentos."

Mariana deixou escapar uma lágrima.

"Eu passei semanas achando que, se você descobrisse tudo, ia me abandonar."

Rafael abaixou a cabeça.

"Foi isso que ela queria."

"Eu sei."

"Ela precisava que você tivesse medo de mim."

Ele apertou a mão da esposa.

"E precisava que eu desconfiasse de você."

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Dona Lúcia se levantou.

"Então parem de dar a ela exatamente isso."

Os dois olharam para ela.

Lúcia pegou a bolsa.

"Vocês estão casados. Conversem."

Antes de sair, beijou a testa da filha.

"Eu volto à noite."

Depois que ficaram sozinhos, Rafael contou o que Henrique descobrira.

Falou das reuniões.

Das procurações.

Do plano de Augusto para limitar os poderes de Teresa.

Mariana ouviu com atenção.

"Onze dias."

"O quê?"

"Seu pai morreu onze dias antes da reunião."

Rafael endureceu.

"Não vamos por esse caminho."

"Eu não estou acusando ninguém."

"Henrique também deixou isso claro."

Mariana assentiu.

"Mas seu pai estava com medo dela."

Rafael ficou pensativo.

"Meu pai não tinha medo de quase ninguém."

"Então por que deixou aquela frase?"

Rafael sabia a qual frase ela se referia.

"Se Teresa tentar impedir o nascimento do meu primeiro neto..."

"Ele escreveu isso antes de morrer."

Mariana colocou a mão na barriga.

"Por quê?"

Rafael não tinha resposta.

Naquela tarde, Henrique continuou investigando os arquivos de Augusto.

Um ex-assistente do empresário lembrou que, poucas semanas antes da morte, Augusto começou a digitalizar documentos pessoais.

"Ele dizia que papel desaparecia."

Henrique anotou.

"E onde salvava?"

"Não sei."

"Usava nuvem?"

"Augusto mal conseguia lembrar a senha do e-mail."

O antigo funcionário pensou.

"Mas ele comprou alguns pendrives."

"Quantos?"

"Não lembro."

"Algum tinha uma aparência específica?"

"Talvez um preto, de metal."

Henrique agradeceu.

Às sete da noite, ele retornou ao escritório.

A secretária já havia ido embora.

O corredor estava vazio.

Quando chegou à porta, viu alguma coisa no chão.

Um pequeno pacote pardo.

Sem selo.

Sem etiqueta.

Sem nome de remetente.

Henrique parou.

Olhou para os dois lados do corredor.

Ninguém.

Colocou luvas descartáveis que mantinha na pasta e levou o pacote para dentro.

Abriu com cuidado.

Havia apenas um objeto.

Um pendrive antigo.

Preto.

De metal.

Henrique imediatamente ligou para Rafael.

"Preciso que venha para cá."

"Encontrou a gravação?"

"Talvez."

Quarenta minutos depois, Rafael chegou.

Henrique já havia preparado um computador sem conexão com a rede do escritório.

"Quem entregou?"

"Não sei."

"Tem câmera no corredor?"

"Já pedi as imagens."

Rafael olhou para o pendrive.

"Abre."

Henrique conectou.

Havia quatro pastas.

Documentos.

Fotos.

Contratos.

E uma pasta chamada "Rafael".

Os dois se entreolharam.

Henrique abriu.

Um único arquivo de vídeo.

A data era de poucos dias antes da morte de Augusto.

Rafael sentiu as mãos ficarem frias.

"Clica."

A tela ficou preta.

Depois apareceu um escritório.

O mesmo escritório da casa de Alto de Pinheiros.

Augusto estava sentado diante da câmera.

Mais magro do que Rafael lembrava.

Cansado.

Mas completamente lúcido.

Rafael levou a mão à boca.

"Pai..."

Durante alguns segundos, Augusto apenas olhou para a câmera.

Então começou a falar.

"Se você está assistindo a isso, provavelmente eu não consegui resolver tudo pessoalmente."

Rafael parou de respirar.

Augusto abaixou os olhos para alguns papéis.

"Eu passei muitos anos acreditando que manter uma família unida significava evitar conflitos."

Ele respirou fundo.

"Eu estava errado."

Rafael sentiu os olhos encherem de lágrimas.

"Há coisas que escondi de você porque achei que ainda teria tempo."

Augusto aproximou-se da câmera.

"Se não tive, então você precisa ouvir isso de mim."

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Quando voltou a falar, sua voz estava diferente.

Mais firme.

"Rafael… se você estiver vendo este vídeo, é porque sua mãe mentiu para você durante anos."

Rafael congelou.

Henrique não disse uma palavra.

Na tela, Augusto pegou uma pasta.

"Mas o que Teresa escondeu de você não começou com dinheiro."

Rafael se inclinou para a frente.

Augusto olhou diretamente para a câmera.

"Começou dentro da nossa própria casa."

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