Dra. Camila manteve o relatório sobre a mesa e pediu que Rafael não tocasse em nada.
A auditoria ainda estava em andamento, e qualquer informação descoberta a partir daquele momento precisaria ser preservada.
"Se alguém alterou um prontuário sem autorização médica, isso é gravíssimo."
Rafael olhou para o código parcialmente visível.
"Quanto tempo vocês precisam para descobrir quem fez isso?"
"Talvez algumas horas."
"Algumas horas?"
"Precisamos recuperar registros antigos, cruzar acessos e confirmar de onde partiu cada alteração."
Rafael passou a mão pelos cabelos.
"E aquela ameaça que recebi?"
Camila olhou para o celular dele.
"Não apague."
"Não vou apagar."
"Faça uma captura e guarde tudo."
Mariana estava quieta na cama.
A mão repousava sobre a barriga.
Ela parecia mais assustada com a mensagem do que com a possibilidade de alguém ter alterado seus exames.
"Essa pessoa sabe que eu estou aqui."
Rafael se aproximou.
"Você está protegida."
"Ela sabe até que eu estou internada."
"Mariana..."
"E sabe que estamos investigando."
Rafael não encontrou resposta.
Camila fechou o tablet.
"Vou solicitar que nenhuma informação sobre o quarto da Mariana seja fornecida por telefone."
"Obrigada."
"Também vou avisar a segurança."
A médica saiu.
Poucos minutos depois, o celular de Mariana tocou.
Ela olhou para a tela.
"Mãe."
Rafael percebeu a tensão no rosto dela.
"Ela sabe?"
Mariana balançou a cabeça.
"Eu não contei."
"Atende."
Mariana respirou fundo.
"Oi, mãe."
A voz de Dona Lúcia veio alta o bastante para Rafael ouvir.
"Mariana, onde você está?"
Mariana fechou os olhos.
"Por quê?"
"Porque sua tia viu uma publicação de alguém da família do Rafael falando que você está internada."
Mariana olhou para o marido.
A notícia já estava circulando.
"Estou no Sírio-Libanês."
"Eu estou indo."
"Mãe, espera."
"Não."
"Mãe..."
"Você está internada e queria que eu descobrisse pela internet?"
A ligação terminou.
Mariana deixou o celular sobre a cama.
"Ela vai ficar desesperada."
Rafael abaixou a cabeça.
"Ela tem o direito de saber."
"Eu sei."
Pouco mais de uma hora depois, Dona Lúcia Oliveira apareceu no corredor.
Ela ainda usava a roupa com que trabalhava em seu pequeno ateliê na Mooca.
Trazia uma bolsa simples no ombro e os cabelos presos de qualquer jeito.
Quando viu Rafael, não perguntou nada.
"Cadê minha filha?"
"Está aqui."
Lúcia entrou.
Mariana tentou sorrir.
"Mãe."
Lúcia parou.
Por alguns segundos, apenas olhou para a filha.
O acesso no braço.
Os monitores.
O rosto pálido.
Os olhos cansados.
"Meu Deus, Mariana."
Ela correu até a cama.
"Por que você não me contou?"
Mariana começou a chorar.
"Eu não queria te preocupar."
"Eu sou sua mãe."
Lúcia segurou o rosto dela.
"Você pode me preocupar. Você pode me acordar de madrugada. Pode bater na minha porta chorando. Só não pode sofrer sozinha."
Mariana abraçou a mãe.
Rafael desviou os olhos.
Lúcia acariciou os cabelos da filha.
"Me disseram que você passou mal."
Mariana ficou tensa.
"Não foi só isso."
Lúcia percebeu.
"O que aconteceu?"
Mariana olhou para Rafael.
Ele se aproximou.
"Dona Lúcia..."
"Não."
Ela ergueu a mão.
"Quero ouvir da minha filha."
Mariana respirou fundo.
Então afastou lentamente o lençol.
Lúcia viu as pernas.
O rosto dela perdeu a cor.
"Meu Deus."
Levou as duas mãos à boca.
"Mariana..."
Ela se inclinou, mas parou antes de tocar nas feridas.
"Quem fez isso com você?"
Mariana chorou.
"Mãe..."
"Quem?"
"Teresa."
Lúcia fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu.
"Ela fez isso?"
Mariana contou apenas o necessário.
A casa em Alto de Pinheiros.
A porta trancada.
O produto industrial.
A ameaça envolvendo o bebê.
Lúcia ouviu tudo sem interromper.
Quando Mariana terminou, o quarto ficou em silêncio.
Rafael esperava que ela gritasse.
Que amaldiçoasse Teresa.
Que perguntasse onde aquela mulher estava.
Mas Lúcia se virou para ele.
E o olhar que recebeu foi pior.
"Você dormia ao lado da minha filha todas as noites. Como não percebeu que ela estava sofrendo?"
Rafael não respondeu.
"Ela estava na sua casa."
Lúcia apontou para Mariana.
"Na sua cama."
"Eu sei."
"Ela não conseguia andar direito."
"Eu sei."
"E você não viu?"
Rafael abaixou a cabeça.
"Não."
"Como?"
Mariana tentou intervir.
"Mãe..."
"Não, filha."
Lúcia continuou olhando para Rafael.
"Eu entreguei minha filha para um casamento acreditando que, se um dia eu não estivesse perto, o marido dela estaria."
Rafael engoliu em seco.
"Eu falhei."
Lúcia pareceu surpresa com a resposta.
Rafael não tentou se defender.
"Eu podia dizer que Mariana escondeu."
Ele respirou fundo.
"Podia dizer que minha mãe ameaçou. Podia inventar cem desculpas."
Mariana olhou para ele.
"Mas eu falhei."
Rafael passou as mãos pelo rosto.
"Minha mãe passou a vida inteira me ensinando que tudo que ela fazia era para me proteger."
Lúcia permaneceu em silêncio.
"Quando eu discordava, ela fazia eu me sentir ingrato."
Ele riu sem humor.
"Quando meu pai ainda era vivo, ele discutia com ela por causa disso."
Mariana franziu a testa.
"Augusto discutia com Teresa?"
"Muitas vezes."
Rafael assentiu.
"Eu sempre achava que meu pai exagerava."
Ele olhou para Mariana.
"Depois que ele morreu, ficou mais fácil deixar minha mãe decidir tudo."
"Empresa, investimentos, família."
Sua voz falhou.
"E até o que eu deveria pensar sobre minha própria esposa."
Mariana estendeu a mão.
Rafael segurou.
"Eu não vou permitir isso de novo."
Lúcia enxugou as lágrimas.
"Espero que não."
Nesse momento, alguém bateu à porta.
Uma mulher elegante apareceu no corredor.
Carolina Montenegro.
Usava um terninho escuro e carregava uma pasta de couro.
Rafael se levantou imediatamente.
"O que você está fazendo aqui?"
"Precisamos conversar."
"Eu não tenho nada para conversar com você."
"Tem, sim."
Carolina olhou para Mariana.
"É sobre o que aconteceu."
Lúcia ficou de pé.
"Quem é ela?"
"Prima da minha mãe."
Carolina corrigiu.
"Sobrinha."
Lúcia não pareceu impressionada.
"Outra Montenegro."
Carolina respirou fundo.
"Eu não vim discutir."
"Então por que veio?"
"Represento os interesses da família."
Mariana soltou uma risada amarga.
"Qual família?"
Carolina colocou a pasta sobre uma cadeira.
"Mariana, o que aconteceu foi terrível."
"Foi?"
"Foi."
"E Teresa sabe que você está aqui?"
Carolina hesitou.
Rafael percebeu.
"Foi ela que mandou você?"
"Eu vim porque isso pode sair do controle."
"Já saiu."
"Não precisa piorar."
Rafael cruzou os braços.
"Explique."
Carolina abriu a pasta.
"Todas as despesas médicas serão pagas."
Mariana ficou imóvel.
"Como?"
"Tratamento, internação, especialistas, fisioterapia, acompanhamento da gravidez."
Carolina retirou alguns documentos.
"Se for necessário atendimento particular depois da alta, também será coberto."
Lúcia encarou a mulher.
"Vocês acham que isso é uma conta de padaria?"
"Não foi o que eu disse."
"Minha filha quase perdeu o bebê."
Carolina manteve a voz baixa.
"Eu estou tentando encontrar uma solução."
Rafael olhou para os papéis.
"Qual é a condição?"
Carolina ficou em silêncio.
"Eu conheço minha família."
Ele apontou para os documentos.
"Qual é a condição?"
Carolina fechou a pasta.
"Não registrar ocorrência neste momento."
Mariana arregalou os olhos.
"E não envolver imprensa."
Rafael deu um passo.
"Você veio comprar o silêncio dela?"
"Não."
"Foi exatamente o que você fez."
"Estou tentando evitar que uma situação familiar vire uma guerra pública."
Mariana olhou para Carolina.
"Situação familiar?"
"Não use minhas palavras dessa maneira."
"Minha sogra me trancou numa casa."
Carolina ficou em silêncio.
"Eu fui ameaçada."
Mariana apontou para as próprias pernas.
"Olha para mim."
Carolina desviou o olhar.
"Olha."
Ela finalmente olhou.
"Isso não é uma situação familiar."
Mariana respirou fundo.
"Isso é o que sua família fez comigo."
"Mariana, ninguém está negando seu sofrimento."
"Então por que vocês estão oferecendo dinheiro?"
"Porque queremos ajudar."
Mariana soltou os documentos sobre a cama.
"Eu não quero o dinheiro de vocês. Quero saber a verdade."
Carolina ficou imóvel.
Rafael observou a reação dela.
"Você sabe alguma coisa."
"Não."
"Você ficou nervosa."
"Estou num hospital discutindo acusações graves."
"Não."
Rafael se aproximou.
"Você ficou nervosa quando Mariana falou em verdade."
Carolina pegou a pasta.
"Eu não vou participar de interrogatório."
Ela se virou.
Antes que alcançasse a porta, Dra. Camila entrou acompanhada por um homem do setor administrativo.
"Sr. Rafael, conseguimos recuperar os dados."
Carolina parou.
Rafael percebeu.
A mão dela apertou a alça da bolsa.
Camila viu a visitante.
"Desculpe, essa conversa envolve informações confidenciais da paciente."
Mariana falou imediatamente.
"Ela pode ficar."
Carolina virou.
"Mariana..."
"Você não veio representar a família?"
Mariana sustentou o olhar.
"Então escuta."
Camila colocou um relatório sobre a mesa.
"A auditoria confirmou três alterações relevantes."
Rafael se aproximou.
"Quando?"
"A primeira ocorreu ainda no início da gestação."
Camila apontou para uma linha.
"A segunda modificou a data de uma consulta."
Outra linha.
"A terceira alterou informações relacionadas à idade gestacional."
Mariana ficou pálida.
"Foi assim que fizeram aquele documento."
"É possível."
"Quem fez?"
Camila olhou para o administrador.
Ele respondeu.
"O acesso não foi realizado diretamente por um médico."
Rafael franziu a testa.
"Então como alguém entrou?"
"Foi utilizada uma credencial administrativa temporária."
Carolina começou a caminhar em direção à porta.
Rafael percebeu.
"Espera."
Ela parou.
"Eu tenho uma reunião."
"Você acabou de chegar."
"Isso não tem relação comigo."
O administrador continuou.
"Conseguimos recuperar o cadastro associado à autorização."
Carolina ficou completamente imóvel.
Mariana observou.
"Qual cadastro?"
O homem colocou outra folha sobre a mesa.
"Houve uma solicitação externa vinculada a um convênio corporativo."
Rafael pegou o documento.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Seu rosto mudou.
Carolina fechou os olhos por um instante.
Rafael levantou lentamente a cabeça.
"Não."
Lúcia se aproximou.
"Quem é?"
Rafael continuou olhando para Carolina.
"Você."
Mariana perdeu a cor.
Carolina não respondeu.
Rafael ergueu o papel.
No campo destinado à pessoa responsável pela autorização administrativa havia um nome completo.
Carolina Montenegro.