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《A Dor Debaixo do Cobertor Azul》Parte 3

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A frase de Teresa permaneceu no ar mesmo depois que a porta se fechou.

Rafael ficou parado no corredor, olhando para o vazio, enquanto aquelas palavras se repetiam dentro de sua cabeça.

"Pergunte à sua esposa se esse filho é realmente seu."

Por alguns segundos, ele sentiu a velha dúvida tentando voltar.

Era exatamente assim que Teresa sempre agia.

Ela lançava uma suspeita e deixava que os outros terminassem o trabalho por ela.

Rafael fechou os olhos.

Dessa vez, não.

Voltou para o quarto e encontrou Mariana tentando cobrir novamente as pernas.

Ela estava pálida.

Assustada.

E agora havia outro medo em seus olhos.

"Rafael..."

Ele se aproximou.

"Não precisa explicar nada agora."

Mariana pareceu surpresa.

"Mas o que sua mãe disse..."

"Minha mãe acabou de admitir, praticamente na minha frente, que sabia o que aconteceu com você."

Ele pegou o celular.

"Nós vamos para o hospital."

"Rafael, eu..."

"Não vou discutir isso."

A voz dele não foi agressiva.

Foi firme.

"Primeiro eu vou cuidar de você. Depois nós vamos descobrir cada mentira que ela contou."

Menos de quarenta minutos depois, o carro entrou pela região da Bela Vista.

Rafael havia ligado no caminho e conseguido atendimento imediato no Hospital Sírio-Libanês.

Mariana foi levada em uma cadeira de rodas.

Mesmo coberta por um lençol, ela parecia querer desaparecer quando os profissionais começaram a fazer perguntas.

"Há quanto tempo está assim?"

Mariana baixou os olhos.

"Algumas semanas."

A enfermeira parou de escrever.

"Sem atendimento médico?"

Mariana não respondeu.

Rafael sentiu a culpa atravessá-lo.

Dra. Camila Azevedo chegou pouco depois.

Era uma obstetra experiente, de fala tranquila e olhar atento.

Depois de examinar Mariana, pediu exames de sangue, avaliação dermatológica e monitoramento imediato do bebê.

Rafael esperou do lado de fora.

Cada minuto parecia uma hora.

Quando Camila finalmente saiu, sua expressão não tranquilizou ninguém.

"Sr. Rafael?"

Ele se levantou imediatamente.

"Como ela está?"

"Precisamos conversar."

O coração dele acelerou.

"E o bebê?"

"Os batimentos estão presentes e, neste momento, estáveis."

Rafael soltou o ar.

"Graças a Deus."

"Mas isso não significa que estamos fora de risco."

A médica cruzou os braços.

"As lesões nas pernas da Mariana são extensas. Há sinais claros de infecção e algumas áreas precisam de tratamento imediato."

Rafael empalideceu.

"Ela vai ficar bem?"

"Estamos fazendo tudo o que podemos."

"Eu quero saber a verdade."

Camila sustentou o olhar dele.

"Se ela tivesse continuado sem atendimento por mais alguns dias, poderíamos estar diante de uma situação muito mais grave."

"Quanto mais grave?"

A médica hesitou.

"Infecção generalizada."

Rafael sentiu o chão desaparecer.

Camila continuou.

"E, numa gestante de sete meses, qualquer deterioração importante do quadro da mãe pode comprometer também o bebê."

Rafael levou a mão à boca.

"Eu podia ter perdido os dois."

Camila não respondeu imediatamente.

Isso bastou.

Rafael se sentou.

Pela primeira vez desde que descobrira as feridas, começou a chorar.

"Eu dormia do lado dela."

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Camila permaneceu em silêncio.

"Todas as noites."

Ele passou as mãos pelo rosto.

"Eu perguntava se ela estava bem e aceitava quando ela dizia que sim."

"Ela estava com medo."

"Eu devia ter percebido."

"Agora o mais importante é que ela está aqui."

Rafael levantou os olhos.

"Ela vai precisar ficar internada?"

"Sim."

"Quanto tempo?"

"Ainda não posso dizer."

Camila olhou para a porta do quarto.

"Também quero mantê-la sob observação obstétrica. O corpo dela está submetido a muito estresse."

Rafael assentiu.

"Faça tudo o que for necessário."

Quando entrou no quarto, Mariana estava com acesso venoso no braço e monitores ao lado da cama.

Ela parecia pequena demais naquele ambiente.

Rafael puxou uma cadeira e sentou perto dela.

Mariana virou o rosto.

"Desculpa."

Ele franziu a testa.

"Por quê?"

"Por não ter contado."

Rafael segurou a mão dela.

"Não."

"Eu devia ter confiado em você."

"Eu devia ter feito você sentir que podia confiar."

Mariana começou a chorar.

Rafael beijou os dedos dela.

"Isso termina hoje."

O celular dele começou a vibrar.

Uma vez.

Duas.

Três.

Rafael ignorou.

Depois vieram mais mensagens.

Quando finalmente olhou, havia notificações de primos, tios e membros do conselho da empresa.

Uma mensagem chamou sua atenção.

Era de Otávio Vasconcelos, primo de seu pai.

"Rafael, precisamos conversar antes que isso vire um escândalo."

Outra veio de Carolina Montenegro.

"Não faça nenhuma denúncia antes de falar comigo."

Rafael franziu a testa.

Como eles já sabiam?

Saiu do quarto e ligou para Carolina.

Ela atendeu imediatamente.

"Finalmente."

"Quem contou?"

"Rafael..."

"Quem contou para a família?"

Silêncio.

Ele já sabia.

"Minha mãe."

Carolina suspirou.

"Teresa está muito nervosa."

"Ela deveria estar."

"Você precisa ouvir o lado dela."

"Eu vi o lado dela nas pernas da minha esposa."

"Não é tão simples."

"Então simplifica."

Carolina demorou alguns segundos.

"Teresa está dizendo que existem dúvidas sobre a gravidez."

Rafael apertou o celular.

"Que dúvidas?"

"Sobre a paternidade."

A raiva voltou imediatamente.

"Não repita isso."

"Eu não estou acusando ninguém."

"Então não repita."

"Existe um documento."

Rafael ficou em silêncio.

"Que documento?"

"Um relatório médico."

"Do quê?"

"Da primeira fase da gestação."

Rafael olhou pela janela do corredor.

Carolina continuou.

"As datas não fecham."

"Não fecham com o quê?"

"Com a viagem que você fez para Curitiba."

Rafael sentiu o estômago se contrair.

Meses antes, ele passara quase três semanas fora de São Paulo negociando a aquisição de uma distribuidora.

"Minha mãe te mostrou isso?"

"Ela mostrou para mais pessoas."

"Me manda."

"Rafael..."

"Agora."

O arquivo chegou menos de um minuto depois.

Rafael abriu.

Havia o nome de Mariana.

Data de nascimento.

Número de atendimento.

Informações clínicas.

E uma estimativa de idade gestacional.

Rafael fez as contas mentalmente.

Uma vez.

Depois outra.

O período indicado colocava a concepção justamente durante os dias em que ele estava em Curitiba.

Rafael sentiu um desconforto profundo.

Então olhou para a porta do quarto.

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A imagem de Mariana chorando voltou à sua mente.

Guardou o celular.

Não ligou para Teresa.

Não ligou para nenhum familiar.

Entrou no quarto.

Mariana percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido.

"O que foi?"

Rafael aproximou uma cadeira.

"Minha mãe mandou um documento para a família."

Mariana ficou tensa.

"Que documento?"

Ele colocou o celular diante dela.

"Um relatório médico."

Mariana começou a ler.

Sua expressão mudou.

Primeiro confusão.

Depois espanto.

"Isso está errado."

Rafael permaneceu em silêncio.

"Rafael, isso está errado."

"Você conhece esse documento?"

"Não."

"Tem seu nome."

"Eu sei ler."

Ela pegou o celular.

"Mas eu nunca vi isso."

"Tem dados do hospital."

"Eu nunca fiz esse exame nessa data."

Rafael observou o rosto dela.

"Tem certeza?"

Mariana olhou para ele, ferida.

"Você está perguntando se eu tenho certeza de quando fui ao médico?"

"Eu preciso entender."

"Eu também!"

Ela tentou se sentar e fez uma expressão de dor.

Rafael imediatamente a ajudou.

"Calma."

"Não me pede calma."

Mariana segurou o celular.

"Sua mãe machucou minhas pernas, me ameaçou, e agora aparece um documento dizendo que meu filho não é seu?"

"Eu não disse que acredito."

"Mas você pensou."

Rafael ficou calado.

Mariana começou a chorar.

"Esse filho é seu."

"Eu sei."

"Não. Você não sabe."

Ela colocou a mão sobre a barriga.

"Se soubesse, não estaria olhando para mim desse jeito."

Rafael respirou fundo.

"Você tem razão."

Pegou o celular.

"Então vamos descobrir de onde isso saiu."

Pouco depois, Dra. Camila retornou para verificar os monitores.

Rafael mostrou o documento.

A médica leu com atenção.

"Isso veio daqui?"

"Tem o nome do hospital."

Camila aproximou o celular.

Seu semblante mudou.

"Espere."

"O que foi?"

"Esse formato parece antigo."

"Isso significa que é falso?"

"Não posso afirmar sem verificar."

Mariana falou da cama.

"Doutora, eu nunca recebi esse relatório."

Camila olhou para ela.

"Você lembra quando fez sua primeira ultrassonografia aqui?"

"Sim."

Mariana disse a data.

Camila franziu a testa.

"Essa data não é a que aparece neste documento."

Rafael se levantou.

"Então alguém falsificou."

"Eu não disse isso."

Camila pegou o tablet.

"Vou acessar o histórico."

Ela entrou no sistema.

Digitou alguns dados.

Esperou.

Seu rosto ficou sério.

"Isso é estranho."

Rafael se aproximou.

"O quê?"

Camila não respondeu.

Abriu outra tela.

Depois outra.

Mariana observava da cama.

"Doutora?"

Camila chamou uma enfermeira.

"Paula, preciso que peça ao setor de prontuários o histórico completo de alterações deste cadastro."

A enfermeira saiu.

Rafael sentiu o coração acelerar novamente.

"Por quê?"

Camila continuou olhando para a tela.

"Porque existe uma divergência."

"Que tipo de divergência?"

"Algumas informações que aparecem hoje não correspondem às anotações médicas que eu esperaria encontrar."

Mariana empalideceu.

"Alguém mexeu no meu prontuário?"

Camila finalmente olhou para ela.

"Eu ainda preciso confirmar."

Vinte minutos depois, a enfermeira voltou.

Entregou uma folha impressa à médica.

Camila começou a ler.

Seu rosto mudou completamente.

Rafael percebeu.

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"Encontrou alguma coisa."

A médica não respondeu.

"Camila."

Ela ergueu os olhos.

"Sim."

Mariana apertou o lençol.

"O quê?"

Camila colocou a folha sobre a mesa.

"O sistema registra alterações feitas no prontuário da Mariana em mais de uma ocasião."

Rafael sentiu um arrepio.

"Alterações de quê?"

"Datas."

Camila deslizou o dedo pela folha.

"Informações sobre consultas."

Mais abaixo.

"E registros relacionados à idade gestacional."

Mariana levou a mão à boca.

"Meu Deus."

Rafael ficou imóvel.

"Quem fez isso?"

Camila olhou novamente para o relatório.

"Eu não consigo ver o nome daqui. Só aparece que foi utilizado um acesso administrativo."

"Então descubra."

"Rafael, existe um procedimento interno."

"Minha esposa foi ferida, ameaçada e agora alguém mexeu nos registros médicos dela."

A voz dele tremeu.

"Eu preciso saber quem."

Camila ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois pegou o telefone interno.

"Vou pedir uma auditoria completa."

Mariana olhou para Rafael.

"Isso começou antes das minhas pernas."

Ele entendeu imediatamente.

Se os registros tinham sido alterados meses antes, então aquilo não era uma reação ao acidente em Alto de Pinheiros.

Alguém já estava preparando alguma coisa muito antes.

O celular de Rafael vibrou.

Uma nova mensagem.

Número desconhecido.

Ele abriu.

Havia apenas uma frase.

"Pare de procurar respostas se quiser que Mariana saia desse hospital com o bebê nos braços."

Rafael perdeu a cor.

Mariana percebeu.

"Quem é?"

Ele não respondeu.

"Rafael, o que aconteceu?"

Antes que pudesse esconder a tela, Mariana viu a mensagem.

Os dois ficaram em silêncio.

Então o telefone interno do quarto tocou.

Camila atendeu.

Escutou por alguns segundos.

"Tem certeza?"

Sua expressão endureceu.

"Não deixem ninguém apagar nada. Estou indo."

Ela desligou.

Rafael se aproximou.

"O que descobriram?"

Camila olhou primeiro para Mariana.

Depois para ele.

"O setor de auditoria recuperou o primeiro acesso usado para alterar o prontuário."

Rafael prendeu a respiração.

"E?"

Camila fechou a porta do quarto.

"Esse acesso não veio de um médico."

Ela colocou o relatório sobre a mesa.

"Veio de uma autorização administrativa vinculada a alguém de fora da equipe que atendia Mariana."

Rafael olhou para o papel.

No topo havia um código.

E, ao lado dele, um nome ainda parcialmente oculto pelo carimbo da auditoria.

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