localização atual: Novela Mágica Moderno A Dor Debaixo do Cobertor Azul Parte 1

《A Dor Debaixo do Cobertor Azul》Parte 1

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Mariana Oliveira estava grávida de sete meses quando praticamente parou de sair do quarto.

Nas primeiras semanas, Rafael Vasconcelos tentou não transformar aquilo em uma preocupação maior do que deveria. A gravidez tinha avançado, o corpo de Mariana estava mais pesado, e a médica já havia recomendado que ela diminuísse o ritmo.

Ainda assim, alguma coisa não parecia normal.

A casa onde viviam, em Jardim Europa, era ampla demais para aquele silêncio. Durante o dia, a luz entrava pelas enormes janelas da sala, refletia no mármore claro e atravessava o corredor até a porta do quarto.

Antes, Mariana gostava de caminhar pela casa descalça, abrir as janelas, escolher flores para a mesa e reclamar que Rafael trabalhava demais.

Agora, quase nunca saía da cama.

Todas as manhãs, antes de seguir para a Vasconcelos Materiais & Construções, Rafael entrava no quarto com uma bandeja.

Água fresca, frutas cortadas, biscoitos de água e sal e as vitaminas da gravidez.

Ele colocava tudo sobre o criado-mudo e se inclinava para beijar a testa da esposa.

"Tem certeza de que não quer que eu fique em casa hoje?"

Mariana sempre respondia com um sorriso pequeno demais.

"Eu estou bem. Vai trabalhar."

"Você disse isso ontem."

"E continuo bem."

Rafael tentava acreditar.

Mas havia uma coisa que ele já não conseguia ignorar.

Mariana mantinha uma manta azul grossa sobre as pernas o tempo inteiro.

Mesmo nos dias mais quentes de São Paulo, quando o ar-condicionado estava desligado e o quarto parecia abafado, ela não tirava aquela manta.

Rafael começou a reparar nisso sem querer.

Certa manhã, tentou ajudá-la a levantar.

"Vem. Só até a varanda. Você precisa tomar um pouco de sol."

Quando ele estendeu a mão em direção às pernas dela, Mariana se encolheu imediatamente.

"Não."

Rafael parou.

"Não?"

"Eu consigo sozinha."

"Mariana, você mal está levantando."

"Eu disse que consigo."

A resposta saiu mais dura do que ela pretendia.

Os dois ficaram em silêncio.

Mariana desviou o rosto, imediatamente arrependida.

"Desculpa."

Rafael se sentou na beirada da cama.

"Você não precisa pedir desculpa. Eu só estou tentando ajudar."

Ela apertou a manta contra o corpo.

"Eu sei."

Naquela noite, Rafael ofereceu ajuda para o banho.

Mariana recusou de novo.

"Eu posso chamar a cuidadora."

"Não."

"Então eu ajudo."

"Não precisa."

"Mariana..."

"Rafael, por favor."

Ele ficou parado na porta do banheiro, observando a esposa segurar a manta azul ao redor das pernas como se aquilo fosse a única coisa capaz de protegê-la.

Foi a primeira vez que sentiu medo de verdade.

Não medo pela gravidez.

Medo de que houvesse alguma coisa acontecendo dentro daquela casa sem que ele percebesse.

Dois dias depois, Teresa Montenegro Vasconcelos apareceu para o café da tarde.

A mãe de Rafael nunca precisava ser convidada.

Ela entrou pela porta principal usando um conjunto bege impecável, bolsa de couro no braço e a expressão rígida de quem ainda considerava aquela casa uma extensão da própria autoridade.

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"Mariana ainda está no quarto?"

Rafael nem tirou os olhos do celular.

"Está descansando."

"Descansando."

Teresa repetiu a palavra como se fosse uma provocação.

Rafael ergueu o olhar.

"Mãe."

"Estou apenas dizendo."

"Não. Você nunca está apenas dizendo."

Teresa cruzou as pernas no sofá.

"Você trabalha dez horas por dia enquanto sua mulher passa semanas deitada. Isso não parece estranho para você?"

"Ela está grávida."

"Eu também estive grávida."

"Isso foi há quase quarenta anos."

"E tive um filho sem transformar a casa inteira num hospital."

Rafael respirou fundo.

"Não começa."

Teresa apoiou a xícara sobre o pires.

"Uma mulher não se esconde assim do próprio marido sem ter alguma coisa para esconder."

Rafael encarou a mãe.

"Do que você está falando?"

"Da manta."

Ele ficou imóvel por um instante.

Teresa percebeu.

"Então você também reparou."

"Ela sente frio."

Teresa soltou uma risada curta.

"Em São Paulo, em pleno calor?"

"Ela está desconfortável."

"Então por que não deixa você tocar nela?"

Rafael não respondeu.

Teresa se inclinou um pouco para a frente.

"Eu conheço mulheres, Rafael."

"Não fale da minha esposa desse jeito."

"Eu estou tentando proteger você."

"Eu não preciso ser protegido da Mariana."

Teresa sorriu sem humor.

"Todo homem apaixonado diz isso antes de descobrir que estava sendo feito de idiota."

Rafael se levantou.

"Chega."

Teresa não insistiu.

Mas suas palavras ficaram.

Naquela noite, Rafael demorou a dormir.

Mariana estava deitada de lado, respirando devagar.

A manta azul cobria suas pernas até a cintura.

Rafael virou o rosto para observá-la.

Quase estendeu a mão.

Quase tocou a manta.

Então Mariana se mexeu e agarrou o tecido mesmo dormindo.

Rafael recolheu a mão imediatamente.

No dia seguinte, saiu cedo para a empresa.

Tentou mergulhar no trabalho.

Reuniões, fornecedores, pedidos atrasados, notas fiscais, telefonemas.

Nada conseguiu apagar da cabeça a frase da mãe.

No começo da tarde, uma queda de energia atingiu parte do prédio da empresa.

O gerador entrou em funcionamento, mas o sistema principal ficou fora do ar.

Depois de quase uma hora esperando, o diretor operacional dispensou parte da equipe.

Rafael olhou o relógio.

Ainda não eram três da tarde.

Decidiu ir para casa.

No caminho, parou numa padaria em Pinheiros e comprou pão de queijo, bolo de fubá e um suco de laranja que Mariana costumava gostar.

Pensou que talvez conseguisse convencê-la a comer.

Quando abriu a porta de casa, percebeu imediatamente que alguma coisa estava errada.

Silêncio.

Nenhuma televisão ligada.

Nenhuma música.

Nenhum som vindo do quarto.

"Mariana?"

Nada.

Rafael caminhou pelo corredor.

Na cozinha, encontrou o almoço que a funcionária havia deixado preparado.

Intocado.

O prato continuava coberto.

O copo de água estava cheio.

Rafael acelerou o passo.

"Mariana?"

Entrou no quarto.

Ela estava deitada de costas, olhando para o teto.

Os olhos estavam vermelhos.

O rosto molhado.

Rafael largou a sacola sobre uma poltrona.

"Você estava chorando?"

Mariana passou rapidamente a mão pelo rosto.

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"Não."

"Não mente para mim."

"Rafael..."

Ele se aproximou.

"Você não comeu."

"Não estava com fome."

"Seu copo de água está cheio desde cedo."

"Eu esqueci."

"Você não esquece água estando grávida de sete meses."

Mariana desviou o rosto.

Rafael se sentou ao lado dela.

"Olha para mim."

Ela não olhou.

"Mariana."

Os olhos dela finalmente encontraram os dele.

Rafael sentiu o peito apertar.

Não era apenas cansaço.

Era medo.

"Me diz o que está acontecendo."

"Nada."

"Você quase não anda."

"É o peso do bebê."

"Você não me deixa ajudar."

"Eu não preciso."

"Você chora escondida."

"Estou mais sensível."

"E não deixa ninguém chegar perto das suas pernas."

Mariana empalideceu.

A mão dela fechou imediatamente sobre a manta azul.

Rafael viu.

"É isso."

"Não."

"Tem alguma coisa aí."

"Rafael, não."

"Mariana, eu sou seu marido."

"Eu sei."

"Então me fala."

Ela começou a chorar.

"Por favor, não pergunta."

Rafael ficou sem reação.

Aquela resposta era pior do que qualquer explicação.

"Você está me assustando."

"Eu não quero."

"Então me conta."

Antes que Mariana respondesse, o som da porta principal abriu caminho pelo corredor.

Rafael franziu a testa.

Passos.

Firmes.

Conhecidos.

Poucos segundos depois, Teresa surgiu na porta do quarto.

"Que cena é essa?"

Rafael se levantou.

"Mãe? Como você entrou?"

"Tenho uma chave."

"Essa chave era para emergência."

Teresa ignorou o comentário.

Seus olhos foram diretamente para Mariana.

"E então?"

Mariana ficou tensa.

"Então o quê?"

"Vai continuar fingindo que está tudo bem?"

Rafael se colocou entre as duas.

"Não é hora para isso."

"É exatamente a hora."

"Mãe."

"Você está aqui no meio da tarde porque alguma coisa finalmente chamou sua atenção, não foi?"

Rafael apertou a mandíbula.

Teresa apontou para a cama.

"Pergunta para ela."

"Pare."

"Pergunta o que tem debaixo dessa manta."

Mariana começou a respirar mais rápido.

"Teresa..."

"Você acha que pode passar meses escondendo alguma coisa dentro da minha família?"

"Chega!"

A voz de Rafael ecoou pelo quarto.

Teresa ficou em silêncio.

Por um segundo.

Depois olhou diretamente para o filho.

"Se você sair daqui hoje sem descobrir a verdade, não venha dizer depois que ninguém tentou abrir seus olhos."

Rafael sentiu o sangue subir ao rosto.

Mariana estava chorando.

A mão dela tremia sobre a manta.

Ele se aproximou da cama.

"Mariana."

Ela balançou a cabeça.

"Não."

"Eu preciso entender."

"Não precisa."

"Preciso."

"Rafael..."

Ele estendeu a mão.

Mariana agarrou o pulso dele.

Com força.

"Por favor, Rafael… não levante."

A voz dela saiu quebrada.

Rafael parou.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Teresa estava na porta.

Mariana tremia na cama.

Rafael olhava para aquela manta azul como se ela escondesse uma resposta capaz de destruir tudo o que conhecia.

"Você está com medo de mim?"

Mariana começou a soluçar.

"Não."

"Então de quê?"

Ela não respondeu.

Rafael fechou os olhos por um instante.

Depois soltou delicadamente a mão da esposa.

"Me perdoa."

Mariana entendeu.

"Rafael, não!"

Ele puxou a manta.

O tecido azul escorregou pela cama e caiu parcialmente no chão.

Rafael ficou completamente imóvel.

O ar pareceu desaparecer do quarto.

As pernas de Mariana estavam cobertas por marcas profundas, áreas avermelhadas, manchas escuras e feridas que claramente não tinham surgido naquele dia.

Algumas regiões estavam inchadas.

Outras ainda pareciam inflamadas.

Rafael abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

"Meu Deus..."

Mariana cobriu o rosto.

"Eu sinto muito."

Rafael caiu de joelhos ao lado da cama.

"Mariana... o que fizeram com você?"

Ela chorava sem conseguir responder.

"Quem fez isso?"

Silêncio.

"Mariana, olha para mim."

Ela continuou chorando.

Rafael virou lentamente o rosto para a porta.

Teresa ainda estava ali.

Parada.

Imóvel.

O saco que carregava continuava firme em sua mão.

Rafael esperou ver choque.

Horror.

Desespero.

Qualquer reação de uma mãe ao descobrir que a esposa grávida do próprio filho estava gravemente ferida.

Mas Teresa não perguntou o que havia acontecido.

Não correu até Mariana.

Não levou a mão à boca.

Não demonstrou surpresa.

Ela apenas olhou para aquelas feridas em silêncio.

Como alguém que já sabia exatamente o que encontraria debaixo daquela manta.

Rafael se levantou devagar.

Seus olhos permaneceram presos ao rosto da mãe.

"Você já sabia."

Teresa não respondeu.

Rafael deu um passo em direção a ela.

A voz saiu baixa.

Quase irreconhecível.

"Mãe..."

Ele olhou novamente para as pernas de Mariana.

Depois voltou a encarar Teresa.

"Como você sabia?"

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