Durante anos, o nome Augusto Ferraz Montenegro aparecia nas páginas dos jornais como sinônimo de sucesso.
Um homem respeitado.
Um empresário visionário.
Um dos maiores filantropos de São Paulo.
Seu rosto estava em eventos beneficentes.
Seu nome aparecia em projetos sociais.
Ele era o tipo de pessoa que todos cumprimentavam com admiração.
Mas naquela semana, descobrimos que algumas pessoas escondem seus monstros atrás de grandes gestos de bondade.
Augusto não construiu apenas uma fortuna.
Ele construiu uma rede.
Uma rede que controlava pessoas.
Empresas.
Informações.
E durante décadas, ninguém ousou perguntar quem realmente estava por trás dela.
Depois da ameaça que recebi, Daniel reforçou a segurança ao redor de Helena.
Minha filha ficou protegida em uma área reservada do Hospital Albert Einstein.
Mas eu sabia que não importava quantos agentes colocássemos ao redor dela.
Quando alguém controlava tanta coisa, sempre existia uma maneira de chegar perto.
Marcelo passou a noite analisando os arquivos antigos da Northstar.
Ele estava diferente.
Mais tenso.
Mais preocupado.
Eu percebi.
"Você sabe que ele vai aparecer."
Marcelo levantou os olhos.
"Quem?"
"Augusto."
Ele ficou em silêncio.
E aquele silêncio confirmou minha suspeita.
"Você conhece ele."
Marcelo fechou o arquivo.
"Eu conheci o homem que ele fingia ser."
A resposta me deixou desconfortável.
"Explique."
Ele respirou fundo.
"Quando comecei a investigar a Northstar, todos os caminhos levavam até empresas diferentes."
Ele apontou para os documentos.
"Pareciam grupos separados."
"Mas não eram."
Marcelo olhou para mim.
"Todos respondiam a uma pessoa."
"Augusto Ferraz Montenegro."
Na manhã seguinte, recebemos uma notícia inesperada.
Augusto faria uma aparição pública.
Um evento beneficente no centro de São Paulo.
A imprensa estava presente.
Empresários estavam presentes.
Políticos estavam presentes.
Era exatamente o tipo de ambiente onde ele sempre se sentiu protegido.
Daniel olhou para a tela.
"Ele está fazendo isso de propósito."
"Por quê?"
"Porque pessoas como Augusto não fogem quando são descobertas."
Ele fez uma pausa.
"Elas mostram que continuam no controle."
Marcelo decidiu ir.
Eu tentei impedir.
"Você sabe que ele pode estar esperando por você."
Ele me olhou.
"Ele passou quatorze anos acreditando que venceu."
"E agora?"
Marcelo respondeu:
"Agora ele precisa saber que eu voltei."
O evento acontecia em uma mansão histórica nos Jardins.
Tudo parecia perfeito.
Flores.
Câmeras.
Convidados importantes.
Augusto Ferraz Montenegro estava no centro de tudo.
Um homem de setenta anos.
Elegante.
Calmo.
Sorrindo para todos.
Quando o vi pessoalmente, entendi por que tantas pessoas acreditaram nele.
Ele não parecia perigoso.
Ele parecia gentil.
E talvez esse fosse o maior perigo.
Augusto percebeu nossa chegada.
Seu sorriso não desapareceu.
Pelo contrário.
Ele caminhou até nós.
"Coronel Vitória Almeida Duarte."
Sua voz era tranquila.
Como se estivéssemos em uma reunião comum.
"Finalmente nos conhecemos."
Eu fiquei séria.
"Eu preferia que nunca tivesse acontecido."
Ele sorriu levemente.
"Eu imagino."
Então olhou para Marcelo.
E pela primeira vez sua expressão mudou.
Apenas por um segundo.
Mas eu vi.
Ele estava surpreso.
"Você realmente voltou."
Marcelo respondeu:
"Você sabia que eu estava vivo."
Não era uma pergunta.
Augusto continuou sorrindo.
"Eu sabia que um dia você apareceria."
Daniel ficou atento.
"Então admite que conhecia Marcelo?"
Augusto olhou para ele.
"Eu conhecia muitas pessoas."
A resposta era elegante.
Mas vazia.
Ele sempre tinha uma maneira de escapar.
Mais tarde, em uma sala reservada da mansão, Augusto finalmente mostrou quem era.
Não havia jornalistas.
Não havia câmeras.
Não havia convidados.
Apenas nós.
Vitória.
Marcelo.
Daniel.
E o homem que controlou tudo durante décadas.
Augusto serviu uma bebida lentamente.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
"Vocês ainda acreditam que a família Montenegro era o centro de tudo."
Ninguém respondeu.
Ele sorriu.
"Esse foi o maior erro de vocês."
Marcelo deu um passo à frente.
"Você usou minha família."
Augusto olhou para ele.
"Não."
Ele respondeu calmamente.
"Eu construí sua família."
A frase causou silêncio.
Eduardo, que também estava presente, ficou pálido.
"Você quer dizer que tudo..."
Augusto interrompeu:
"Seu sobrenome sempre foi uma ferramenta."
Ele olhou para Eduardo.
"Assim como você."
Aquelas palavras destruíram qualquer ilusão que ainda existia.
Beatriz.
Eduardo.
Ricardo.
Todos eles.
Tinham sido peças.
Augusto continuou:
"Vocês achavam que tinham poder porque tinham dinheiro."
Ele sorriu.
"Mas dinheiro é apenas uma parte do jogo."
Daniel perguntou:
"E a Northstar?"
Augusto finalmente respondeu:
"Eu ajudei a criar."
O silêncio foi absoluto.
Marcelo ficou imóvel.
"Você admite?"
Augusto olhou para todos.
"Por quê eu negaria algo que eu construí?"
Ele caminhou lentamente pela sala.
"A Northstar nunca foi uma organização."
Ele repetiu a mesma frase que Marcelo havia dito.
"Era uma forma de controlar o mundo ao redor."
Empresas.
Política.
Justiça.
Informação.
Tudo.
Eu senti uma mistura de raiva e incredulidade.
"Quantas pessoas você destruiu?"
Augusto me olhou.
"Depende do ponto de vista."
Minha expressão mudou.
"Do meu ponto de vista, foram muitas."
Ele sorriu.
"É por isso que você sempre foi diferente de Beatriz."
Eu fiquei alerta.
"Você fala dela como se ela fosse apenas uma funcionária."
Augusto respondeu:
"Porque era."
Eduardo fechou os punhos.
Minha voz saiu baixa.
"Então Beatriz nunca esteve no comando."
Augusto negou.
"Beatriz tentou ser importante."
Ele caminhou até a janela.
"Mas ela sempre foi apenas uma peça."
Antes de sair, Augusto parou.
Ele olhou diretamente para mim.
"Existe algo que você ainda não sabe."
Eu fiquei imóvel.
"O quê?"
Ele abriu uma pasta que estava sobre a mesa.
Dentro havia documentos antigos.
Muito antigos.
Ele colocou na minha frente.
"Isso explica por que sua família sempre esteve ligada à Northstar."
Meu coração acelerou.
"Minha família?"
Augusto assentiu.
"Você achou que Helena era o único segredo?"
Eu não consegui responder.
Peguei o primeiro documento.
Meu nome estava escrito no topo.
Vitória Almeida Duarte.
Abaixo havia informações que eu nunca tinha visto.
Datas.
Registros.
Relatórios.
E uma observação que fez meu sangue gelar.
Augusto sorriu.
"Agora você vai descobrir quem realmente era sua família antes de conhecer Marcelo."
Eu olhei para aquela pasta.
E percebi que a guerra nunca foi apenas contra os Montenegro.
Porque talvez a maior mentira da minha vida tivesse começado muito antes deles.