Depois daquela pergunta, eu senti que o mundo ficou em silêncio.
"Quem eu sou de verdade?"
Helena não estava perguntando apenas sobre um documento.
Ela estava perguntando sobre toda a vida dela.
Sobre cada lembrança.
Cada escolha.
Cada pessoa em quem ela confiou.
Eu segurei a mão da minha filha.
"Você é minha filha."
Ela olhou para mim com lágrimas nos olhos.
"Eu sei, mãe."
A voz dela tremeu.
"Mas eu preciso saber por que existem documentos sobre mim antes mesmo de eu entender quem eu era."
Eu não tinha resposta.
E talvez essa fosse a parte mais dolorosa.
Pela primeira vez na minha vida, eu não conseguia proteger minha filha com uma decisão rápida.
Eu precisava descobrir a verdade.
Naquela mesma tarde, Marcelo participou da investigação da Polícia Federal.
Mesmo depois de tudo que ele tinha feito.
Mesmo depois de quatorze anos escondido.
Ele ainda era a única pessoa que poderia explicar a origem dos documentos.
Daniel colocou uma pasta antiga sobre a mesa.
"Marcelo, encontramos registros relacionados ao nascimento de Helena."
Ele ficou imóvel.
Por alguns segundos, parecia que aquela informação também era uma surpresa para ele.
"Mostre."
Camila abriu o arquivo.
Eram documentos antigos.
Relatórios.
Anotações.
Registros internos da Northstar.
Marcelo passou os olhos pelas páginas.
Então sua expressão mudou.
"Não."
Eu percebi.
Ele sabia de alguma coisa.
"Marcelo."
Ele levantou o olhar.
"Quando Helena nasceu, alguém já sabia que ela existia."
O quarto ficou em silêncio.
Helena ficou pálida.
"Como assim?"
Marcelo respirou fundo.
"Quando comecei a investigar a Northstar, descobri que algumas famílias importantes mantinham registros sobre pessoas que poderiam afetar o futuro deles."
Daniel perguntou:
"E Helena era uma dessas pessoas?"
Marcelo assentiu.
"Sim."
Minha mão apertou a de minha filha.
"Por quê?"
Ele olhou para Helena.
"Porque você era minha filha."
Ela franziu a testa.
"Isso não faz sentido."
Marcelo continuou:
"Quando eu descobri como a rede funcionava, percebi que algumas pessoas eram acompanhadas desde o nascimento."
Camila perguntou:
"Por causa de herança? Dinheiro?"
Marcelo negou.
"Não."
Ele apontou para os documentos.
"Por causa de informações."
Daniel ficou sério.
"Que informações?"
Marcelo demorou a responder.
"Quando eu comecei a investigar a Northstar, encontrei registros que poderiam derrubar pessoas muito poderosas."
Ele olhou para mim.
"E algumas dessas informações estavam ligadas à minha família."
Meu coração acelerou.
"Você está dizendo que Helena herdou algo?"
Marcelo ficou em silêncio.
E aquele silêncio confirmou tudo.
"Não era dinheiro."
Ele falou baixo.
"Era uma prova."
Helena levantou.
"Eu tinha uma prova dentro de mim?"
Marcelo balançou a cabeça.
"Não você. Sua existência."
Ela ficou confusa.
"Explique."
"Algumas pessoas sabiam que eu estava investigando. Elas sabiam que eu tinha encontrado informações perigosas."
Ele respirou fundo.
"E quando perceberam que eu poderia desaparecer, começaram a procurar uma forma de garantir que meus arquivos nunca fossem perdidos."
Daniel entendeu primeiro.
"Eles criaram uma proteção."
Marcelo confirmou.
"Sim."
"Usando sua filha."
Marcelo fechou os olhos.
"Usando alguém que eles nunca imaginariam que seria capaz de proteger a verdade."
Olhei para Helena.
Minha filha.
A mulher que eles tentaram convencer de que era fraca.
A mulher que eles tentaram transformar em alguém instável.
Mas eles estavam errados.
Eles nunca entenderam quem ela era.
Naquela noite, uma nova informação apareceu.
O nome de Lúcia Ferreira surgiu nos arquivos.
A mulher que trabalhava há anos na mansão Montenegro.
A mulher que estava presente no dia em que Helena fugiu.
A mulher que todos consideravam apenas uma funcionária.
Camila abriu o relatório.
"Lúcia aparece em várias imagens antigas."
Daniel perguntou:
"Ela trabalhava para Beatriz?"
"Sim."
"Então por que o nome dela aparece nos arquivos da Northstar?"
Ninguém respondeu.
Decidimos encontrá-la.
Lúcia aceitou conversar em uma pequena cafeteria no bairro dos Jardins.
Quando chegou, parecia nervosa.
Ela olhou várias vezes para os lados.
Como alguém que passou anos esperando aquele momento.
Eu me sentei diante dela.
"Lúcia, precisamos saber a verdade."
Ela segurava uma xícara de café com as duas mãos.
"Eu sabia que esse dia chegaria."
Daniel colocou alguns documentos sobre a mesa.
"Seu nome aparece em registros confidenciais."
Ela fechou os olhos.
Depois respirou fundo.
"Porque eu nunca fui apenas uma funcionária."
Helena ficou surpresa.
"Como assim?"
Lúcia olhou para ela.
"Eu fui colocada dentro da mansão Montenegro há muitos anos."
"Por quem?"
Ela demorou.
"Pelo seu pai."
Helena ficou sem reação.
Marcelo também parecia surpreso.
"Eu nunca revelei isso."
Lúcia olhou para ele.
"Porque você pediu para ninguém saber."
O silêncio entre os dois revelou uma história antiga.
"Eu precisava de alguém perto dela."
Marcelo falou baixo.
"Alguém que pudesse observar sem levantar suspeitas."
Lúcia confirmou.
"Minha missão era proteger Helena."
Minha expressão mudou.
"Então você sabia de tudo?"
"Não de tudo."
Ela abaixou o olhar.
"Mas eu sabia que aquela família escondia coisas."
Helena perguntou:
"Por que você nunca me contou?"
A voz de Lúcia ficou triste.
"Porque toda vez que eu tentava me aproximar, alguém me lembrava que eu estava sendo observada."
"Quem?"
Ela olhou para mim.
E respondeu:
"Augusto Ferraz Montenegro."
O nome novamente.
A pessoa que parecia estar por trás de tudo.
Daniel ficou atento.
"Lúcia, o que você sabe sobre ele?"
Ela ficou em silêncio.
Depois disse:
"Augusto nunca precisou aparecer."
"Como assim?"
"Porque pessoas como ele não mandam diretamente."
Ela olhou para Helena.
"Elas fazem outras pessoas obedecerem."
Minha filha perguntou:
"Ele sabia quem eu era?"
Lúcia respirou fundo.
"Desde antes de você nascer."
O rosto de Helena perdeu a cor.
"Por quê?"
Lúcia abriu uma pequena bolsa.
De dentro, retirou um envelope antigo.
"Porque você era a única pessoa que eles não conseguiam controlar."
Helena olhou para o envelope.
"Isso é meu?"
Lúcia assentiu.
"Eu guardei durante anos."
Daniel perguntou:
"O que tem dentro?"
Lúcia não respondeu.
Ela apenas olhou para a janela.
Como se estivesse sentindo que algo estava errado.
Então seu celular vibrou.
Ela olhou a tela.
E seu rosto mudou.
"O que aconteceu?"
Ela não respondeu.
Apenas levantou rapidamente.
"Precisamos sair daqui."
Daniel ficou alerta.
"Por quê?"
Lúcia olhou para Helena.
O medo nos olhos dela era verdadeiro.
"Porque eles descobriram que eu falei."
Todos ficaram em silêncio.
Helena segurou o envelope.
"Lúcia, quem vai voltar?"
A mulher respirou fundo.
E respondeu:
"A pessoa que vocês achavam que nunca apareceria."
Ela olhou para a porta da cafeteria.
Depois voltou os olhos para nós.
"O verdadeiro perigo vai voltar esta noite."