《O Telefonema da Minha Filha do Hospital》Parte 4

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Durante muitos anos, eu imaginei como seria o dia em que Marcelo voltaria.

Em todos os meus sonhos, ele aparecia na porta de casa.

Eu corria até ele.

Helena sorria.

Nós finalmente teríamos uma explicação para todos aqueles anos de sofrimento.

Mas a realidade era diferente.

Marcelo estava vivo.

Minha filha estava machucada.

E a primeira coisa que descobrimos foi que o homem que eu amava carregava segredos que mudavam tudo.

Naquela madrugada, permanecemos em uma sala reservada do Hospital Albert Einstein.

A Polícia Federal isolou o local.

Ninguém podia entrar.

Ninguém podia sair sem autorização.

Marcelo estava sentado diante de nós.

O homem que eu conhecia parecia estar ali.

Mas também parecia um estranho.

Helena permanecia ao meu lado.

Ela ainda não conseguia olhar para ele por muito tempo.

Daniel Ribeiro colocou alguns documentos sobre a mesa.

"Marcelo, precisamos entender tudo desde o começo."

Ele respirou fundo.

"Eu vou contar."

Por alguns segundos, ele ficou em silêncio.

Como se estivesse escolhendo quais memórias poderiam ser reveladas.

"Quatorze anos atrás, eu descobri algo enquanto trabalhava em alguns projetos de infraestrutura para órgãos públicos."

Eu franzi a testa.

"Você era arquiteto."

Marcelo olhou para mim.

"Sim."

Ele fez uma pausa.

"Mas alguns projetos escondiam coisas que não deveriam existir."

Camila Nogueira abriu o notebook.

"Que tipo de coisas?"

Marcelo respondeu:

"Alterações nos registros. Contratos diferentes dos documentos oficiais. Acesso a informações que deveriam ser protegidas."

Daniel ficou atento.

"Você está falando de corrupção?"

Marcelo balançou a cabeça lentamente.

"No começo, eu pensei que era apenas corrupção comum."

Ele olhou para a janela.

"Mas depois percebi que era algo muito maior."

O silêncio tomou conta da sala.

"Não era uma organização."

Camila levantou os olhos.

"Então o que era?"

Marcelo respondeu:

"Uma rede."

Ele pegou uma folha e desenhou algumas linhas.

"Empresas."

Outra linha.

"Políticos."

Mais uma.

"O sistema jurídico."

Outra.

"A mídia."

Todos observavam.

"Cada pessoa tinha uma função. Alguns davam dinheiro. Outros protegiam informações. Outros impediam investigações."

Daniel cruzou os braços.

"Northstar."

Marcelo confirmou.

"Esse era o nome usado para organizar essa rede."

Helena finalmente falou.

"Então eles controlavam tudo?"

Marcelo olhou para ela.

"Não tudo."

Ele respirou fundo.

"Mas o suficiente para fazer pessoas desaparecerem. Carreiras acabarem. Processos sumirem."

Senti um arrepio.

Porque eu conhecia aquele tipo de poder.

Não era o poder de uma arma.

Era o poder de controlar a verdade.

"Mas por que você morreu?"

A pergunta de Helena cortou a sala.

Marcelo abaixou o olhar.

"Porque eles descobriram que eu estava investigando."

"Quem?"

Ele demorou para responder.

"Ainda não sei exatamente."

Minha filha soltou uma risada triste.

"Você sempre tem uma resposta incompleta."

Aquelas palavras atingiram Marcelo.

Mas ele aceitou.

Porque sabia que ela tinha razão.

"Na noite do acidente, eu estava levando informações comigo."

Daniel perguntou:

"Quais informações?"

"Uma parte da estrutura da Northstar."

Camila interrompeu:

"Os arquivos que aparecem no cartão?"

Marcelo assentiu.

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"Uma versão inicial."

Eu olhei para ele.

"Você sabia que isso existia todos esses anos?"

"Sim."

"Então você sabia que nossa filha estava perto dessas pessoas?"

O rosto dele mudou.

"Eu descobri tarde demais."

Helena ficou em silêncio.

Mas seus olhos mostravam a dor.

"Você sabia que eu me casei com eles?"

Marcelo fechou os olhos por um instante.

"Sim."

A resposta destruiu qualquer tentativa de aproximação.

"Você sabia?"

Ele não conseguiu negar.

"Eu descobri antes do casamento."

Minha filha levantou.

"Então você observou."

"Helena..."

"Você viu minha vida acontecer."

Sua voz tremia.

"E ficou escondido."

Marcelo não respondeu.

Porque aquela era a verdade.

Ele havia protegido a família escondendo a verdade.

Mas para Helena, aquilo parecia abandono.

Eu toquei no braço dela.

"Filha..."

Ela respirou fundo.

"Não."

Ela olhou para o pai.

"Eu preciso ouvir."

Marcelo levantou os olhos.

"Eu sabia que Eduardo não era completamente livre."

Daniel perguntou:

"Explique."

"Eduardo Montenegro começou a perceber o que a família fazia."

Eu fiquei surpresa.

"Eduardo?"

Marcelo confirmou.

"Ele não era igual à mãe."

Helena ficou imóvel.

"Você está dizendo que Eduardo tentou me ajudar?"

"Estou dizendo que ele tentou sair do controle da família."

Camila digitava rapidamente.

"Mas ele continuou dentro da casa."

Marcelo concordou.

"Porque Beatriz nunca permitiu que ele saísse."

Daniel perguntou:

"Como?"

Marcelo respondeu:

"Controle."

A palavra ficou no ar.

"Beatriz construiu uma família onde todos dependiam dela."

Ele continuou:

"Eduardo tinha medo de perder tudo. O nome. O patrimônio. A posição."

Helena abaixou a cabeça.

"E eu?"

Marcelo olhou para ela.

"Você era a única coisa que ele realmente amava."

Ela não respondeu.

Porque ainda existia amor.

Mas também existia dor.

A investigação avançou durante a madrugada.

A Polícia Federal conseguiu acessar mais documentos do cartão.

E quanto mais descobríamos, mais a família Montenegro parecia menor.

Beatriz não era uma rainha.

Ela era uma peça.

Camila abriu uma nova pasta.

"Tem algo estranho aqui."

Daniel se aproximou.

"O quê?"

Ela mostrou alguns registros.

"Existem ordens enviadas para Beatriz."

Meu olhar ficou fixo na tela.

"Ordens?"

"Sim."

Camila apontou.

"Ela recebia instruções."

Daniel ficou sério.

"De quem?"

Camila procurou nos arquivos.

"Não aparece o nome."

Marcelo se levantou lentamente.

"Eu sabia."

Todos olharam para ele.

"Beatriz sempre pareceu estar no comando."

Ele respirou fundo.

"Mas ela também respondia a alguém."

Helena perguntou:

"Quem?"

Marcelo ficou em silêncio.

E naquele momento eu percebi que ele tinha medo.

Não de Beatriz.

Não de Eduardo.

Mas de uma pessoa que estava acima deles.

Daniel continuou analisando os arquivos.

Então parou.

Seu rosto mudou.

"Encontramos uma referência."

Todos se aproximaram.

Na tela apareceu um nome.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Eu li lentamente.

Augusto Ferraz Montenegro.

O sobrenome Montenegro.

Mas diferente.

Mais antigo.

Mais poderoso.

Marcelo ficou pálido.

"Ele ainda está vivo."

Daniel olhou para ele.

"Quem é Augusto Ferraz Montenegro?"

Marcelo encarou a tela.

"A pessoa que construiu o império antes de todos eles."

"Ele é o chefe da Northstar?"

Marcelo demorou a responder.

Então disse:

"Não."

O silêncio voltou.

"Ele é alguém pior."

Helena segurou minha mão.

"Quem é ele?"

Marcelo olhou para nós.

E respondeu:

"É o homem que ensinou a família Montenegro a controlar tudo."

Naquele momento, o nome de Augusto Ferraz Montenegro deixou de ser apenas um nome.

Era uma ameaça.

Porque, pela primeira vez, entendemos que havíamos derrubado apenas a primeira camada de uma história muito maior.

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