A viagem de volta para São Paulo foi completamente diferente da primeira.
Quando Daniel deixou a mansão Monteiro pela primeira vez, ele era apenas um garoto confuso tentando entender por que sua vida tinha mudado de repente.
Mas agora ele voltava carregando algo que ninguém naquela família poderia ignorar.
A verdade.
Dentro de uma pequena mochila estavam o diário de Helena, a gravação deixada por Gabriel e o objeto encontrado junto ao lobo branco.
Provas de que seus pais não haviam morrido por acaso.
Provas de que alguém dentro da própria família havia destruído tudo.
Antônio estava sentado ao lado de Daniel no carro.
O velho observava o menino em silêncio.
Ele percebia que aquela viagem tinha transformado Daniel.
O garoto que antes procurava apenas respostas agora carregava uma responsabilidade enorme.
"Você sabe que depois disso nada vai ser igual."
Disse Antônio.
Daniel olhou pela janela.
As montanhas ficavam cada vez mais distantes.
"Eu sei."
"Mas minha mãe e meu pai perderam tudo porque alguém tentou esconder a verdade."
"Eu não posso fingir que nada aconteceu."
Antônio segurou sua mão.
"Então faça isso da maneira certa."
"Não deixe que a raiva escolha por você."
Daniel assentiu.
Ele sabia que Antônio estava certo.
Ele não queria vingança.
Queria justiça.
Quando chegaram à mansão Monteiro, o clima já era diferente.
Ricardo havia sido avisado que Daniel voltaria com novas informações.
Na sala principal, toda a família estava reunida.
Ricardo.
Beatriz.
Eduardo.
Alguns membros antigos do conselho do Grupo Monteiro.
Todos esperavam pelo que o garoto tinha encontrado.
Daniel entrou acompanhado de Antônio.
Pela primeira vez, ele não abaixou os olhos diante daquela casa.
Ele caminhou como alguém que sabia exatamente quem era.
Ricardo percebeu a mudança.
"Então você voltou."
Daniel colocou a mochila sobre a mesa.
"Voltei para contar a verdade."
Beatriz sorriu ironicamente.
"Você acha mesmo que uma criança vai chegar aqui e acusar uma família inteira?"
Antônio ficou irritado.
Mas Daniel levantou a mão.
Ele não queria que ninguém falasse por ele.
"Eu não vim acusar uma família."
"Eu vim mostrar o que aconteceu com a minha."
O silêncio tomou conta da sala.
Eduardo observava cada movimento.
Ele sabia que aquele momento poderia mudar tudo.
Daniel retirou o diário de Helena.
"Minha mãe escreveu isso antes de morrer."
Ricardo ficou imóvel.
"O diário dela não prova nada."
Daniel encarou o tio.
"Então por que você parece assustado?"
A pergunta atingiu Ricardo.
Por alguns segundos, ele perdeu a expressão de controle.
Mas rapidamente voltou a agir com calma.
"Daniel, você passou doze anos longe da sua verdadeira família."
"É normal que esteja confuso."
O garoto respirou fundo.
"Confuso é acreditar que meus pais morreram em um acidente."
"Quando eles estavam tentando fugir de alguém."
Ricardo ficou em silêncio.
Beatriz olhou para ele.
Daniel continuou.
"Minha mãe descobriu que alguém estava destruindo o Grupo Monteiro."
"Ela descobriu dívidas falsas."
"Desvios."
"Documentos escondidos."
Um dos membros do conselho ficou preocupado.
"Isso é verdade?"
Ricardo respondeu rapidamente.
"Claro que não."
"Esse garoto está repetindo coisas que encontrou em um diário antigo."
Daniel abriu a mochila novamente.
Então colocou o aparelho de gravação sobre a mesa.
O rosto de Ricardo mudou.
Ele reconheceu imediatamente.
"De onde você conseguiu isso?"
Daniel respondeu:
"Da mesma floresta onde meus pais morreram."
O silêncio ficou pesado.
Eduardo se aproximou.
"Ricardo, deixe ele explicar."
Daniel apertou o botão.
Por alguns segundos, apenas ruídos apareceram.
Então uma voz ecoou pela sala.
A voz de Gabriel Monteiro.
Todos ficaram imóveis.
"Se alguém encontrar essa gravação..."
O rosto de Helena apareceu na memória de algumas pessoas.
Beatriz levou a mão ao peito.
Porque aquela voz pertencia a alguém que ela conhecia.
A gravação continuou.
"Ricardo está destruindo a empresa."
"Nós descobrimos tudo."
Os membros do conselho começaram a trocar olhares.
Ricardo deu um passo à frente.
"Isso pode ser falsificado."
Eduardo olhou para ele.
"Gabriel deixou essa gravação antes de morrer."
A voz continuava.
"Ele quer assumir o controle."
"Ele sabe que meu filho é o verdadeiro herdeiro."
A sala ficou completamente silenciosa.
Daniel observava Ricardo.
Pela primeira vez, aquele homem parecia perder o controle.
A gravação terminou.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Então um dos conselheiros se levantou.
"Ricardo..."
"Se isso for verdade..."
Ricardo virou rapidamente.
"Não é verdade."
Sua voz estava mais alta.
Mais desesperada.
"Vocês realmente vão acreditar em uma gravação encontrada na floresta?"
Daniel respondeu:
"Você quer que todos ignorem a voz do meu pai?"
Ricardo olhou para ele.
E naquele momento, todos perceberam algo.
Ele não estava preocupado com a acusação.
Ele estava preocupado com o fato de Daniel ter descoberto.
Eduardo caminhou até a mesa.
"Ricardo, por anos você disse que Gabriel morreu em um acidente."
"Mas essa gravação mostra que ele tinha medo."
Ricardo ficou em silêncio.
Beatriz percebeu que a situação estava saindo do controle.
Ela se aproximou do marido.
"Faça alguma coisa."
Ricardo olhou ao redor.
Todos os olhos estavam sobre ele.
Durante doze anos, ele controlou aquela história.
Ele decidiu o que as pessoas saberiam.
O que acreditariam.
Mas agora um menino de doze anos tinha destruído tudo.
Daniel pegou o diário novamente.
"Minha mãe deixou uma mensagem para mim."
"Ela disse que eu deveria confiar no homem que me encontrou."
Ele olhou para Antônio.
"Ela sabia que ele protegeria minha vida."
Antônio ficou emocionado.
Porque naquele momento percebeu que Helena nunca havia deixado de lutar pelo filho.
Mesmo depois da morte.
Ricardo observava aquela cena.
E algo dentro dele mudou.
Não era arrependimento.
Era medo.
Medo de perder tudo.
Ele caminhou lentamente até a mesa.
Pegou a fotografia de Gabriel e Helena.
Olhou para Daniel.
Por alguns segundos, parecia que iria confessar.
Mas então sua expressão ficou fria novamente.
"Você realmente acredita que sabe toda a história?"
Daniel ficou confuso.
"O que você quer dizer?"
Ricardo deu um passo à frente.
Todos ficaram atentos.
Porque a voz dele carregava uma nova acusação.
"Você acha que seus pais eram inocentes?"
Daniel franziu a testa.
"Do que você está falando?"
Ricardo segurou a fotografia.
Seus olhos estavam fixos no garoto.
E então disse:
"Você acha que seus pais eram bons?"
A sala inteira ficou em silêncio.
Ricardo continuou olhando para Daniel.
"Você acha que eles nunca esconderam nada de você?"