Durante dois anos, Lucas Ferreira de Souza imaginou centenas de vezes como seria aquele momento.
Ele imaginou seu pai aparecendo na porta de casa.
Imaginou uma explicação.
Imaginou um pedido de desculpas.
Mas também imaginou o pior.
Imaginou Ricardo Ferreira de Souza dizendo que não tinha motivos para voltar.
Que tinha escolhido outra vida.
Que eles nunca foram importantes o suficiente.
Por isso, quando recebeu aquela carta, Lucas não sentiu apenas alegria.
Sentiu medo.
Medo de abrir uma ferida que finalmente começava a cicatrizar.
Naquela noite, ele ficou sentado sozinho no quarto.
A carta estava sobre a mesa.
Samuel já estava dormindo.
Lucas olhava para o envelope há quase uma hora.
As mãos tremiam.
Porque aquela folha de papel carregava uma resposta que ele esperou durante anos.
Finalmente, abriu.
As primeiras palavras fizeram seu coração acelerar.
"Lucas, eu sei que talvez você nunca consiga me perdoar."
Ele parou.
Respirou fundo.
Continuou lendo.
"Mas preciso que você saiba que eu nunca abandonei vocês."
Lucas fechou os olhos.
Aquela frase trouxe raiva antes de trazer alívio.
Porque, para ele, abandono não era apenas uma escolha.
Abandono era a ausência.
Era a cama vazia.
Era Samuel perguntando quando o pai voltaria.
Era ele precisando fingir que sabia respostas que nunca teve.
A carta continuava.
"Eu tentei voltar muitas vezes."
"Mas algo sempre me impediu."
"Eu preciso conversar com vocês pessoalmente."
"Eu preciso contar toda a verdade."
Lucas segurou o papel.
Toda a verdade.
Ele odiava aquela frase.
Porque durante anos todos tinham uma parte da verdade.
Todos menos ele.
Na manhã seguinte, Lucas mostrou a carta para Renata Carvalho Almeida.
Ela leu em silêncio.
Depois olhou para ele.
"Você quer encontrar seu pai?"
Lucas demorou para responder.
"Eu não sei."
Renata sentou ao lado dele.
"Uma parte sua quer."
Lucas abaixou a cabeça.
"E outra parte está com raiva."
Ela assentiu.
"Isso é normal."
Lucas apertou a carta.
"Eu passei dois anos tentando convencer Samuel de que ele não foi abandonado."
Sua voz ficou mais pesada.
"E agora ele aparece e quer explicar tudo?"
Renata não respondeu.
Porque ela sabia que nenhuma palavra simples poderia apagar aquela dor.
Naquela tarde, Ricardo Ferreira de Souza chegou à casa em Alphaville.
Lucas estava na sala.
Samuel estava fazendo lição de casa na mesa.
Quando a campainha tocou, Lucas sentiu o corpo inteiro ficar tenso.
Ele sabia.
Antes mesmo de abrir a porta.
Sabia quem estava do outro lado.
Renata abriu.
E um homem apareceu.
Mais velho.
Com marcas de sofrimento no rosto.
Mas com os mesmos olhos que Samuel tinha.
Ricardo ficou parado.
Ele olhou para dentro da casa.
Depois viu os filhos.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu falar.
Samuel levantou lentamente.
Ele não lembrava completamente daquele rosto.
Mas alguma coisa dentro dele reconheceu.
"Pai?"
A palavra saiu baixa.
Ricardo levou a mão ao rosto.
Os olhos ficaram cheios de lágrimas.
"Samuel..."
O menino ficou parado.
Como se tentasse entender se aquilo era real.
Então Ricardo deu um passo.
Mas antes que pudesse se aproximar, Lucas entrou na frente.
A expressão dele era completamente diferente.
Não era o garoto assustado do tribunal.
Era alguém que passou anos esperando por aquele momento.
E acumulou muita dor.
"Por que você voltou?"
Ricardo ficou em silêncio.
Lucas continuou:
"Por que agora?"
O homem respirou fundo.
"Lucas..."
Mas o adolescente interrompeu.
"Você sabe quantas vezes ele perguntou por você?"
Ricardo abaixou os olhos.
"Eu sei que eu errei."
Lucas deu uma risada sem alegria.
"Você sabe?"
A voz dele começou a tremer.
"Você sabe como era quando ele ficava doente e perguntava quando você ia voltar?"
Ricardo tentou responder.
Mas Lucas continuou.
"Você sabe como era quando eu precisava dizer que estava tudo bem, mesmo sem saber se estava?"
Ele apontou para si mesmo.
"Eu tinha quinze anos."
"Quinze."
"Eu tive que aprender a cuidar de uma casa."
"Eu tive que aprender a ser forte porque alguém precisava ser."
Ricardo estava emocionado.
"Lucas, eu tentei..."
Mas Lucas não conseguiu segurar.
"Você sabe quanto tempo nós esperamos?"
O silêncio tomou conta da sala.
"Você sabe quantas noites eu fiquei pensando que talvez você simplesmente tivesse escolhido ir embora?"
Ricardo fechou os olhos.
Porque aquela acusação doía.
Mas ele sabia que Lucas tinha direito de sentir aquilo.
Samuel observava tudo.
Ele olhava para o pai.
Depois para o irmão.
Pela primeira vez, os dois homens mais importantes da vida dele estavam separados pela dor.
Samuel se aproximou.
"Lucas..."
O irmão olhou para ele.
"Eu sei que você está bravo."
Lucas ficou em silêncio.
Samuel continuou:
"Mas ele voltou."
A frase fez Lucas olhar para o menino.
Samuel tinha lágrimas nos olhos.
"Talvez ele tenha uma explicação."
Lucas respirou fundo.
"Sam, você não sabe o que aconteceu."
Samuel respondeu:
"Mas eu sei que eu senti falta dele."
Aquelas palavras machucaram Lucas.
Porque ele percebeu algo.
Durante anos, ele protegeu Samuel da ausência do pai.
Mas talvez Samuel ainda tivesse espaço para perdoar.
Lucas não.
Pela primeira vez, os dois irmãos estavam em lados diferentes.
Lucas queria respostas.
Samuel queria uma chance.
Ricardo observava os dois.
E percebeu que seu desaparecimento tinha criado uma ferida diferente em cada filho.
Ele abriu a mochila que carregava.
Dentro havia uma pasta antiga.
Lucas olhou desconfiado.
"O que é isso?"
Ricardo colocou os documentos sobre a mesa.
"Isso é a prova de que eu não fui embora porque quis."
Lucas não se moveu.
Ricardo abriu a primeira página.
"Naquela época, eu descobri algo sobre a empresa onde eu trabalhava."
Lucas franziu a testa.
"Que empresa?"
Ricardo respirou fundo.
"Eu descobri que meu sócio estava roubando dinheiro e colocando dívidas no meu nome."
Samuel ficou confuso.
Lucas continuou olhando.
Ricardo abriu outro documento.
"Quando tentei denunciar, fizeram parecer que eu era o responsável por tudo."
Ele apontou para os papéis.
"Eu perdi meu trabalho."
"Minha conta foi bloqueada."
"E antes que eu conseguisse voltar para vocês..."
Ele parou.
A voz falhou.
"Eu fui ameaçado."
Lucas ficou imóvel.
Durante anos, ele acreditou que o pai simplesmente tinha escolhido desaparecer.
Mas agora existia outra possibilidade.
Ricardo empurrou os documentos na direção dele.
"Eu não abandonei vocês."
"Alguém fez vocês acreditarem que eu abandonei."
Lucas olhou para aqueles papéis.
Samuel segurou a mão do pai.
E pela primeira vez, uma dúvida apareceu no coração de Lucas.
Talvez a história que ele conhecia não fosse a verdadeira.
Ricardo respirou fundo.
"Lucas, eu voltei porque finalmente consegui provas."
Ele abriu o último documento da pasta.
"Provas de quem destruiu nossa família."
Lucas pegou o papel.
Mas antes de ler, viu um nome escrito no topo.
Um nome que ele nunca esperaria encontrar.
E naquele instante percebeu que o desaparecimento do pai não tinha sido o começo da tragédia.
Tinha sido apenas uma parte de algo muito maior.