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《Prazeres Perigosos》Capítulo 10

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Capítulo 10: O Abismo da Culpa

A comemoração na torre do Grupo Valente durou apenas o tempo necessário para esvaziar a sala de reuniões e afastar os acionistas curiosos. Na mente de Lorenzo, no entanto, o eco daquela última frase dita por seu tio soava como um alarme ensurdecedor.

Assim que a noite despencou sobre São Paulo, o CEO refugiou-se na cobertura da Avenida Paulista, dispensando qualquer tipo de segurança ou assessoria. O imenso apartamento de vidro encontrava-se totalmente às escuras, iluminado apenas pelos relâmpagos de uma nova tempestade que se formava no horizonte.

Sentado no chão de madeira escura da sala de estar, Lorenzo girava uma garrafa de uísque escocês de doze anos entre os dedos trêmulos. Ele já havia consumido metade do líquido dourado, mas o álcool parecia apenas avivar a queimação em seu peito.

Sobre a mesa de centro, o pequeno gravador digital apreendido com os pertences do Tio Victor reproduzia a mesma confissão em um loop infinito. "A diretoria antiga sacrificou o pai da garota para encobrir nossos próprios desvios, sobrinho", dizia a voz metálica da gravação.

O peso daquela revelação esmagava os ombros do homem que sempre se orgulhara de controlar o próprio destino. Para Lorenzo, carregar o sobrenome Valente transformara-se em uma maldição insuportável, um fardo manchado pelo sangue inocente da família de Valentina.

O som sutil da porta da cobertura destravando-se com a chave reserva ecoou pelo silêncio opressor do apartamento. Valentina entrou devagar, tateando a penumbra até encontrar o interruptor da parede que permaneceu inerte.

"Lorenzo?", chamou ela com a voz suave, sentindo o cheiro forte de álcool impregnar o ar assim que deu os primeiros passos. "Por que você apagou todas as luzes e não atendeu minhas ligações?"

"Vá embora, Valentina", a voz dele soou rouca, cortante e terrivelmente cansada, vinda do canto mais escuro da sala. "Não há mais nada para ver aqui além de um monstro."

Valentina ignorou o aviso e avançou mais um pouco, sentindo o pé bater contra algo duro no chão. Abaixando-se na escuridão, seus dedos tocaram cacos de vidro espalhados ao redor de uma garrafa estilhaçada.

"Acenda a luz ou me deixe acender", pediu ela com firmeza, ignorando o tom de repulsa que ele tentava impor. "Fugir para o escuro não vai apagar o que aconteceu na sala de reuniões."

"Fugir?", soltou Lorenzo com uma risada amarga e sem humor, erguendo-se apoiado na estante de livros. "Eu não estou fugindo, Valentina; estou apenas aceitando o meu devido lugar no abismo."

Um relâmpago rasgou o céu lá fora, iluminando por um segundo o rosto do magnata e revelando feições completamente desfiguradas pela dor. Os olhos âmbar perderam todo o brilho intimidador, substituídos por um vazio desolador e lágrimas contidas.

"O meu sangue é podre, Valentina", confessou ele, com a voz falhando pela primeira vez na vida. "A minha família destruiu o seu pai, roubou a sua infância e construiu este império sobre cadáveres."

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"Eu sei de tudo isso", respondeu ela com uma serenidade inabalável, dando mais um passo em sua direção. "Mas você não é o seu tio, Lorenzo."

"Como não?", berrou ele, arremessando o restante da garrafa contra a parede oposta em um acesso de fúria cega. "Eu herdei cada centavo deste dinheiro sujo e beneficiei-me de um sistema podre!"

O som do vidro quebrando-se em milhares de pedaços ecoou pelo ambiente como um tiro. Lorenzo cambaleou para trás, apoiando as mãos na cabeça enquanto o colapso emocional finalmente o consumia por completo.

"Você tentou me afastar de todas as maneiras possíveis, mas eu escolhi ficar", lembrou Valentina, mantendo a voz firme apesar do aperto em seu próprio peito. "Eu não me importo com o passado da sua família, Lorenzo."

"Deveria se importar!", gritou ele, caindo de joelhos sobre o carpete com os punhos fechados contra o chão. "Eu sou o homem que destruiu a sua paz, o herdeiro do clã que arruinou a sua vida!"

A vulnerabilidade extrema daquele homem que o mundo inteiro temia cortou o coração de Valentina como uma lâmina afiada. O predador implacável desmoronara em prantos, esmagado pelo peso de uma culpa que ele sequer cometera.

"Você acha que o meu amor por você depende de títulos ou de contas bancárias?", perguntou ela com os olhos brilhando de lágrimas. "Eu me apaixonei pelo homem que me desafiou na chuva, não pelo sobrenome dele."

Lorenzo ergueu o rosto lentamente, fitando-a através da penumbra com uma expressão de pura incredulidade. "Como você pode olhar para mim e não sentir ódio?", sussurrou ele, com a voz quebrada e infantilizada pela dor.

"Porque eu conheço a sua alma, Lorenzo", respondeu Valentina com doçura, ajoelhando-se bem diante dele. "E a sua alma é mil vezes mais nobre do que qualquer acionista daquela torre."

O CEO balançou a cabeça negativamente, tentando erguer barreiras que já não faziam mais o menor sentido. "Eu não mereço a sua piedade, muito menos o seu perdão", murmurou ele, desviando o olhar.

"Isto não é piedade, Lorenzo; é a minha escolha", corrigiu ela, segurando o rosto dele com as duas mãos. "Eu escolho você, com todas as suas sombras e cicatrizes."

O toque caloroso dela pareceu romper a última represa que continha a resistência do magnata. Lorenzo fechou os olhos e deixou escapar um soluço abafado, colando a testa contra o ombro dela em uma rendição dolorosa.

Os braços fortes que antes exerciam domínio absoluto agora tremiam como os de uma criança perdida. Ele a abraçou pela cintura com uma força desesperada, como se ela fosse a única âncora capaz de salvá-lo de se afogar nas próprias lembranças.

"Fique comigo", pediu ele em um murmúrio quase inaudível, molhando o tecido da blusa dela com suas lágrimas. "Não me deixe afundar sozinho na escuridão."

"Eu nunca fui a lugar nenhum", garantiu Valentina, afagando os cabelos revoltos dele com carinho infinito.

A tempestade lá fora continuava castigando as janelas da cobertura, mas a atmosfera dentro do apartamento transformara-se por completo. O abismo da culpa começava a ceder espaço para a promessa de uma reconstrução conjunta e verdadeira.

Ignorando completamente os cacos de vidro espalhados pelo chão ao redor deles, Valentina caminha descalça e enlaça o corpo trêmulo de Lorenzo. Encostando o rosto em seu pescoço, ela sela o pacto definitivo com um sussurro firme: "Lorenzo, desta vez, eu serei a sua salvação."

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