Capítulo 1:
A Praça Central da Alcateia Sombra da Noite estava mergulhada em um silêncio sepulcral e sufocante, sob a luz opressiva e sanguinolenta da Lua de Sangue. Centenas de guerreiros formavam um círculo cerrado ao redor do altar de pedra, com os olhos vidrados na cena que estava prestes a se desenrolar.
Neste exato local, o destino de dois corações seria selado para sempre, ou impiedosamente dilacerado pelas garras da tradição e do poder. Dante Vance, o Supremo Alfa, erguia-se em toda a sua imponência com 1,91m de puro poder, músculos tracionados e uma aura de perigo palpável que feria o ar.
Seus olhos, em um tom gélido de Azul-gelo, encaravam a figura frágil e solitária ajoelhada à sua frente com um absoluto e cruel desdém.
Ele não sentia o menor pingo de empatia, apenas a urgência fria de reafirmar sua autoridade suprema sobre todos os clãs subordinados.
Helena Rossi tremia levemente sob o peso daquela atmosfera opressiva e hostil, vestida com uma simples e humilde túnica branca que parecia zombar da grandiosidade sombria do ritual de acasalamento da alcateia.
Ela esperava o toque caloroso, o abraço protetor ou as palavras doces que a consagrariam perante a lua como a companheira eterna de sua alma, o seu porto seguro.
No entanto, o que recebeu foi o eco gélido de uma sentença de exílio disfarçada de escolha soberana.
"Olhe para ela, Dante. Uma humana frágil e patética, sem o menor pingo de sangue nobre ou ancestral na veia para sustentar o nosso legado", sussurrou Kael, o braço direito e conselheiro mais próximo do Alfa.
O tom de Kael era de uma cautela calculada, cortando o ar pesado apenas para os ouvidos atentos do seu líder, buscando evitar um escândalo maior. Ele sabia perfeitamente que o acasalamento com uma humana violaria séculos de tradições puristas daquela alcateia dominante e orgulhosa.
Dante ignorou completamente o aviso sensato do amigo de infância e deu um passo firme à frente, com as botas estalando na pedra. Ele erguia o queixo com uma arrogância intocável, exibindo a mandíbula marcada por uma antiga cicatriz de batalha.
O Alfa supremo jamais permitiria que uma fraqueza humana ou um erro biológico do destino manchasse a pureza intocável do seu trono de sangue. Ele acreditava firmemente que a força de uma alcateia vinha exclusivamente do ferro, da disciplina e da dominação absoluta.
"Eu, Dante Vance, Supremo Alfa da Alcateia Sombra da Noite, rejeito você publicamente como minha companheira de destino", a voz dele ecoou fria como uma lâmina cortando a carne viva, sem vacilar por um segundo sequer.
Um murmúrio escandalizado e coletivo varreu instantaneamente a multidão de lobos que assistiam à cena de camarote, chocados com a audácia daquela decisão.
Ninguém jamais ousara rejeitar uma parceira de destino daquela maneira tão pública e brutal.
Helena sentiu o ar sumir completamente dos seus pulmões diante daquela declaração devastadora que destruía todos os seus sonhos.
Uma dor atroz, física e mental, rasgou o centro exato do seu peito como garras invisíveis dilacerando sua carne.
"Você não passa de um erro lamentável que a lua cometeu por engano, Helena. Não há lugar para você ao meu lado", acrescentou o Alfa, cravando as palavras como estacas de ferro candente no orgulho estilhaçado da garota.
Naquele exato segundo, a maldição ancestral do vínculo quebrado cobrou seu preço de forma implacável e imediata.
O peito musculoso de Dante contraiu-se subitamente em um espasmo violento, doloroso e totalmente inesperado.
Uma onda de calor sôfrego e sufocante subiu pela sua garganta, ameaçando arrancar-lhe o fôlego diante de todos os seus súditos.
O Supremo Alfa cambaleou levemente para trás, traindo um segundo de puro pânico em seus olhos de gelo.
Ele precisou reunir toda a sua férrea autodisciplina para endurecer a expressão antes que qualquer guerreiro percebesse sua fraqueza.
Dante não podia demonstrar vulnerabilidade física ou emocional diante de sua alcateia, jamais, pois isso o tornaria um alvo.
"Saia da minha vista agora mesmo e nunca mais ouse pisar nas minhas terras sagradas", sibilou Dante, cerrando os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram completamente brancos de tensão.
Helena ergueu lentamente o rosto banhado pelo suor frio e pelas lágrimas contidas, deixando transparecer toda a humilhação sofrida.
No entanto, o coração partido que a consumia por dentro logo deu lugar a outra coisa muito mais perigosa e sombria.
A dor profunda em suas írbitas âmbar dissolveu-se rapidamente, dando lugar a uma centelha de pura fúria silenciosa e indomável. Ela percebeu ali, com clareza cristalina, que continuar chorando seria dar a ele a vitória absoluta e a satisfação de vê-la destruída.
"Você realmente acha que pode me pisotear e sair totalmente impune dessa, Dante?", a voz dela saiu baixa, mas carregada de uma promessa gélida que fez a espinha de Kael gelar instantaneamente.
"Palavras vazias ditas por uma loba sem presas e sem clã, incapaz de me ferir", zombou o tirano, virando-lhe as costas com uma soberba irritante e desdenhosa.
Com as mãos trêmulas pela descarga violenta de adrenalina e indignação, Helena levou os dedos trêmulos até o próprio pescoço. Ela desfez com um puxão firme e definitivo o fecho daquele colar de prata barata que trazia consigo.
Тudo o que aquele adorno miserável simbolizava era a sua submissão humilhante àquela alcateia tirana até aquele maldito dia.
"Guarde o seu desprezo patético, Supremo Alfa. Eu nunca precisei da sua proteção barata para sobreviver", declarou ela com uma firmeza cortante que desafiou o silêncio mortal da noite.
Ela atirou o colar de metal com toda a força contra as botas pretas de Dante, onde a peça tilintou de forma estridente e solitária sobre a laje de pedra fria do altar.
Sem derramar uma única lágrima a mais diante daquela plateia cruel, Helena virou as costas para o homem que amava e caminhou com altivez. Ela escolheu a própria ruína na imensidão desconhecida em vez de continuar ali de joelhos, implorando por migalhas de afecto.
"Deixe-a ir para a morte certa na floresta, Dante. É o único lugar adequado para os fracos e os banidos", comentou Kael, aproximando-se com o cenho franzido de profunda preocupação.
Dante apenas observou a silhueta frágil sumir na escuridão intransponível e ameaçadora da Floresta da Noite Eterna. Ele sentiu o peito arder com uma queimação estranha e lancinante que nenhum ferimento de guerra jamais conseguira causar.
Nas sombras mais densas da multidão silenciosa, um par de olhos velhos, astutos e terrivelmente ambiciosos registrou cada detalhe daquele rompimento.
Тreze anciãos guardavam segredos, mas aquele velho foi o único a notar o momento exato em que um clarão dourado cruzou os olhos de Helena antes de ela desaparecer na neblina espessa.