Capítulo 7:
A chuva que encharcara as ruas da cidade ainda parecia ressoar nos passos cansados de Kass, que retornara à mansão apenas pela necessidade inadiável de recuperar suas poucas coisas.
Ele não esperava encontrar Astor no saguão, sentado em uma das poltronas de veludo, com uma expressão de melancolia tão bem encenada que qualquer um se sentiria compelido a consolá-lo.
"Eu sabia que você voltaria, mesmo depois do horror que Elias o fez passar," Astor disse, sua voz carregada de uma doçura que soava como veneno diluído em mel.
"Eu não voltei por você, nem por ele," Kass respondeu secamente, ignorando a mão estendida de Astor, que parecia aguardar um sinal de rendição.
Astor levantou-se com uma lentidão calculada, caminhando até Kass com o semblante marcado por uma tristeza profunda que parecia nascer de um passado trágico.
"Elias sempre foi assim, um homem que sacrifica tudo o que é belo no altar do poder," Astor lamentou, os olhos brilhando com uma umidade convincente.
"Ele me humilhou perante todos, Astor, e não há desculpa que apague o que eu senti naquela sala," Kass disparou, a memória das gargalhadas dos convidados ainda ecoando em sua mente.
Astor aproximou-se um pouco mais, e antes que Kass pudesse se esquivar, ele segurou a mão do lutador com uma reverência teatral e a beijou com delicadeza.
"Eu sou a única pessoa nesta casa que entende a sua dor, pois eu sou a outra vítima da tirania dele," Astor confessou, mantendo os olhos fixos nos de Kass.
Kass sentiu uma confusão tomar conta de si; ele tinha lido o prontuário, sabia que Astor era um manipulador, mas a presença física daquele homem era quase hipnótica.
"Você diz que é vítima, mas eu vi como você me observava enquanto Elias me destruía," Kass retrucou, tentando manter a distância emocional que o prontuário médico lhe proporcionara.
Astor soltou um suspiro pesado, um som de resignação que parecia desarmar as defesas de Kass, e deu um passo em direção a ele, envolvendo-o em um abraço inesperado.
"Eu observava porque sofria junto com você, Kass, preso nesta jaula de ouro que meu irmão chama de lar," Astor murmurou contra o ombro do lutador, seu toque sendo surpreendentemente quente.
Kass ficou tenso, dividido entre o desejo de empurrá-lo e a estranha necessidade de acreditar que ele não estava completamente sozinho naquelas sombras.
O luxo da mansão, com suas luzes pendentes e o aroma de sândalo que impregnava tudo, parecia subitamente pesado demais, uma gaiola que ele sentia o desejo urgente de abandonar.
No bolso da jaqueta, o celular de Kass vibrou, trazendo a mensagem curta de Dante: "Estou no final da rua. A fuga é agora ou nunca. O que você escolhe?"
Kass olhou para o rosto de Astor, que agora se afastava com um sorriso de compreensão infinita, um sorriso que prometia tudo o que Elias jamais daria.
"Você tem um caminho para fora, não tem?" Kass perguntou, sua voz falhando levemente sob a pressão daquela escolha impossível.
"Eu tenho recursos, Kass, mas eu preciso que você confie em mim, pois só juntos podemos derrubar o que Elias construiu," Astor respondeu, segurando o rosto de Kass com as duas mãos.
A liberdade marginal que Dante oferecia era feita de poeira, riscos e incertezas nas ruas onde o perigo era real, mas onde ele seria dono de si mesmo.
O luxo dos Rosenburg, por outro lado, era a promessa de um conforto doentio, um lugar onde ele era o centro de um jogo de poder que poderia matá-lo a qualquer momento.
"Dante está esperando lá fora," Kass disse, dando um passo atrás, sentindo o ar rarefeito da mansão comprimir seus pulmões.
Astor franziu a testa, uma sombra de irritação passando por seus olhos antes de ser substituída pela máscara de mártir.
"Dante só quer usá-lo para seus próprios fins, enquanto eu desejo apenas que você seja livre das correntes de Elias," Astor argumentou com uma voz que soava terrivelmente sincera.
Kass lembrou-se do prontuário, da farsa, de cada palavra que Beatriz lhe sussurrara nos corredores, e a dúvida começou a corroer sua convicção.
"Por que você deveria se importar comigo, Astor?" Kass questionou, tentando ver através daquelas íris claras que pareciam esconder um labirinto de segredos.
Astor deu de ombros, um gesto elegante que contradizia a intensidade da sua resposta: "Porque você é a única coisa nesta casa que ainda não foi corrompida."
Enquanto a conversa seguia, Dante enviava uma nova mensagem: "Eles estão se aproximando com os seguranças. Se você não sair agora, nunca mais terá chance."
A urgência da realidade bateu contra a manipulação de Astor, e Kass percebeu que precisava decidir entre o conforto de uma mentira e a dor de uma verdade incerta.
"Eu preciso de tempo," Kass declarou, sentindo o peso de ambas as vidas puxando-o para lados opostos como se fossem ímãs de forças contrárias.
Astor riu, um som seco que não atingia seus olhos: "Tempo é o maior luxo que você nunca terá se ficar aqui, meu querido Kass."
Ele soltou o lutador e deu espaço, como se estivesse dando a ele o controle, quando, na verdade, estava apenas fechando as cortinas de uma armadilha ainda maior.
Kass correu em direção à porta lateral, seu coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado que sentia o cheiro da liberdade.
Ele não olhou para trás, mas sabia que Astor permanecia ali, observando sua fuga com a paciência de quem sabe que, não importa para onde ele vá, ele sempre será parte da coleção.
Kass saiu para a noite úmida, vendo o carro de Dante parado à distância, com os faróis apagados e o motor rugindo baixo como uma fera adormecida.
Ele olhou para a mansão uma última vez antes de correr em direção ao veículo, deixando para trás o conforto do luxo e a insanidade que o rodeava.
No entanto, à medida que se aproximava do carro, uma dúvida cruel começou a assombrá-lo: a fuga era real, ou Dante era apenas mais uma das peças que os Rosenburg usavam para testar sua lealdade?
Ele abriu a porta do carro, sentindo o cheiro de tabaco e estrada, e viu Dante olhando para ele com uma intensidade que ele não sabia se era de socorro ou de sentença.
"Você escolheu a vida ou a prisão, Kass?" Dante perguntou, sua mão sobre a chave da ignição, esperando por uma resposta que definiria o resto de seus dias.
Kass olhou para o retrovisor, vendo o brilho das luzes da mansão refletidas no vidro, e sentiu como se tivesse deixado uma parte de sua alma naquele palácio de vidro.
Ele não respondeu, pois, no fundo de seu peito, ele sabia que a liberdade que buscava não estava no carro de Dante nem nos braços de Astor.
Ela estava em algum lugar entre as sombras, e a única forma de alcançá-la era parar de ser uma peça de xadrez e começar a ser o jogador que destruiria o tabuleiro inteiro.
Enquanto o carro acelerava, deixando a mansão para trás, a única certeza de Kass era de que a sua vida, como ele a conhecia, havia chegado a um fim definitivo.
Lá dentro, Astor observava o carro sumir na distância, e um sorriso predatório surgiu em seu rosto, pois a manipulação de Kass tinha dado exatamente o resultado esperado.
Ele sabia que Kass voltaria, pois uma vez que alguém sente o gosto da obsessão dos Rosenburg, não há lugar no mundo onde o medo não o encontre novamente.