Capítulo 6:
O grande baile de caridade da Fundação Rosenburg era o ápice da temporada social, um evento onde diamantes brilhavam tão intensamente quanto a hipocrisia de seus convidados.
Kass Selinger, vestindo um smoking que se ajustava ao seu corpo com uma elegância que ele ainda considerava uma farsa, sentia-se como um peixe fora d’água em meio a tantos rostos conhecidos da elite.
Ele estava ali por ordem de Elias, mantendo uma distância protocolar que, no entanto, não impedia os olhares venenosos dos convidados de perfurarem sua pele.
Helena, a advogada estrategista da família, circulava pelo salão com um copo de champanhe, seus olhos afiados como bisturis observando cada movimento de Kass e a reação da mídia presente.
Ela anotava em seu tablet invisível a oscilação nas ações das empresas Rosenburg, calculando quanto o escândalo recente com o lutador custaria à reputação do império.
"Você deveria se manter nas sombras, Kass," Helena sussurrou ao passar por ele, a voz destilando um aviso que era mais uma ordem do que um conselho.
"Eu não sou um acessório que você pode esconder na decoração," Kass respondeu, sentindo a própria dignidade ser esmagada sob o peso daquela formalidade sufocante.
De repente, a música clássica baixou de tom e Elias, acompanhado por um grupo de investidores estrangeiros, parou exatamente onde Kass estava posicionado.
O CEO da família Rosenburg, impecável como sempre, olhou para Kass com um desdém que parecia ser uma performance ensaiada para os olhos de todos os presentes.
"Achei que tivesse deixado claro que você deveria ficar no carro, Selinger," Elias disse, sua voz alta o suficiente para que o silêncio se espalhasse ao redor.
"Eu segui as suas instruções anteriores," Kass respondeu, sentindo o sangue subir ao rosto enquanto as risadas contidas começavam a surgir entre os convidados.
Elias deu um passo à frente, estreitando os olhos, e forçou uma expressão de tédio superior que Kass nunca havia visto ser direcionada a si.
"Não seja ridículo; você é apenas um guarda-costas contratado para tarefas menores, não um convidado de honra para um evento desta magnitude," Elias disparou, cada palavra soando como uma bofetada.
Kass sentiu o peito arder com uma traição tão profunda que quase lhe tirou o fôlego, pois Elias sabia exatamente o que Kass sentia e usava isso como um escudo.
"Eu entendi perfeitamente o meu lugar agora, Elias," Kass respondeu, sua voz trêmula de raiva contida, enquanto os olhares ao redor pareciam se transformar em lâminas.
"Que bom que a compreensão finalmente chegou até você, pois eu não tolero erros de etiqueta em minha presença," Elias continuou, sem vacilar em sua postura de tirano.
Helena, observando de longe, viu o momento em que a máscara de Elias vacilou por um segundo, revelando uma angústia que ninguém mais ali seria capaz de decifrar.
Ela percebeu que Elias estava humilhando Kass de forma pública apenas para protegê-lo de algo pior — talvez de algum plano que Astor havia arquitetado para destruir o lutador naquela noite.
Mas, para Kass, o motivo era irrelevante; o que importava era a humilhação pública, a sensação de ser descartável em um tabuleiro onde ele achava que era uma peça importante.
"Aproveite a sua festa com seus iguais, Rosenburg," Kass murmurou, virando-se abruptamente antes que a raiva tomasse conta de todos os seus movimentos.
Ele sentiu o olhar de Elias em suas costas, um olhar carregado de uma dor silenciosa e um pedido de desculpas que nunca chegaria aos seus lábios.
Kass atravessou o salão sob o escárnio dos convidados, sua presença sendo ignorada por uns e julgada por outros com uma crueldade que só o dinheiro pode comprar.
Ele alcançou as portas duplas de carvalho e as empurrou com força, a força do empurrão sendo o único alívio para a tempestade de ódio que rugia dentro de si.
Do lado de fora, a noite desabava em uma chuva fria e impiedosa, uma tempestade que combinava perfeitamente com a devastação que ele sentia no peito.
Kass caminhou sem rumo, seus sapatos caros arruinados pela lama, a chuva encharcando seu paletó e misturando-se às lágrimas que ele se recusava a derramar.
Ele não era um peão, ele não era um acessório e, acima de tudo, ele não era uma marionete para Elias ou Astor manipularem conforme a conveniência.
Enquanto isso, lá dentro, o baile continuava como se nada tivesse acontecido, mas a tensão na sala era agora um vácuo que nem mesmo a música conseguia preencher.
Astor, de pé num canto escuro, observava o irmão com um sorriso de triunfo, sabendo que Elias havia acabado de destruir o único elo que ainda mantinha Kass sob seu controle.
"Você foi longe demais hoje, Elias," Astor murmurou para si mesmo, saboreando a amargura que emanava do irmão, que agora bebia compulsivamente.
Helena aproximou-se de Elias com uma expressão preocupada, os dedos tamborilando nervosamente contra o vidro do seu champanhe.
"A imagem da família está segura por enquanto, mas ele nunca vai perdoá-lo por isso, Elias," ela advertiu em um tom que não permitia contestações.
Elias não respondeu, seus olhos fixos na porta por onde Kass havia saído, sua mente girando em um redemoinho de culpa e desespero.
Ele havia feito o que acreditava ser necessário para salvar a integridade de Kass frente aos inimigos que Astor havia enviado para o baile, mas o custo daquela proteção fora sua própria dignidade.
No meio da chuva, Kass finalmente parou sob a marquise de uma loja fechada, olhando para a mansão ao longe, agora uma silhueta de luz em meio à escuridão.
Ele tirou o paletó encharcado e o jogou na sarjeta, vendo o símbolo da família Rosenburg ser engolido pela água suja da rua.
A traição não fora o fato de ter sido humilhado, mas o fato de ter acreditado, por um breve momento, que Elias Rosenburg poderia ser capaz de algo diferente da frieza absoluta.
Kass pegou o celular, as mãos ainda trêmulas, e digitou o nome de Dante, sentindo que a sua única chance de sobreviver era abandonar aquela casa para sempre.
Ele sabia que, a partir daquele momento, a mansão Rosenburg não era mais um refúgio ou uma prisão; era um território inimigo onde ele precisava sobreviver a qualquer custo.
A chuva continuava a cair, lavando as marcas do baile de sua pele, mas a cicatriz deixada pelas palavras de Elias em seu peito era algo que nenhuma tempestade seria capaz de limpar.
Kass deu o primeiro passo em direção ao desconhecido, seu objetivo agora claro como o cristal, enquanto, lá na mansão, o Rei de gelo se via diante de um reino que ele acabara de fragmentar com as próprias mãos.
O baile das máscaras havia acabado, e o que restava era a verdade nua e crua: a obsessão de Elias pelo lutador não era um amor, era uma destruição mútua que estava apenas começando.