Capítulo 6:
O ar no escritório de Alaric parecia mais pesado do que nunca, carregado com a tensão de um segredo que queimava atrás de suas costelas. Silas permanecia nas sombras do bunker, uma presença silenciosa e onipresente que Alaric sentia em cada fibra de seu ser, mas que ele precisava esconder de todos, inclusive de Helena.
Helena entrou na sala sem pedir licença, os olhos fixos na mesa onde o Alpha tentava manter uma aparência de normalidade.
Ela era a segunda no comando, uma loba de linhagem pura, e sua lealdade sempre fora inquestionável, mas agora havia uma pontada de desconfiança em sua postura rígida.
"O bunker está consumindo recursos que a alcateia precisa desesperadamente, senhor", Helena disse, sua voz mantendo uma calma profissional que mascarava uma inquietação crescente.
"A desculpa de que você está estudando uma falha de sistema para fins estratégicos não é mais suficiente."
Alaric manteve o olhar fixo em um relatório financeiro que ele não estava realmente lendo, sentindo a voz de Silas reverberar em sua mente como um eco metálico.
A presença do Ghost dentro dele era um vício que ele não conseguia e não queria extirpar, apesar do perigo de exposição.
"Você questiona a minha estratégia, Helena?", Alaric perguntou, sua voz baixa e perigosa, enquanto ele se levantava lentamente para enfrentar sua subalterna.
"Eu questiono a obsessão que está cegando o nosso líder", ela retrucou, aproximando-se da mesa com a coragem de quem serve ao trono há décadas.
"Eu vi você falando sozinho, vi o seu pulso marcado, e ouvi rumores de soldados que dizem ter visto uma figura prateada vagando por corredores que deveriam estar vazios."
Silas, das profundezas da conexão mental que os unia, soltou uma risada silenciosa, uma provocação que Alaric sentiu como uma agulha fria perfurando seu cérebro.
Alaric precisava manter o jogo, precisava ser o Alpha implacável que não permitia distrações, mesmo que estivesse morrendo de vontade de revelar a verdade.
"Silas é apenas um experimento", Alaric mentiu, a voz carregada de um desprezo teatral que ele forçava para convencer Helena.
"Eu o mantenho vivo apenas para extrair a tecnologia que destruirá os nossos inimigos, e nada mais do que isso."
Helena estreitou os olhos, insatisfeita com a explicação, e deu um passo em direção à porta do setor onde o bunker estava localizado.
"Se é apenas uma ferramenta, por que você trata o seu próprio corpo como um receptáculo para uma anomalia?"
Alaric não esperou que ela desse outro passo, movendo-se com a velocidade de um predador para interceptá-la antes que ela chegasse perto demais.
Ele a segurou pelo braço, a força de seu aperto deixando claro que aquele limite era proibido para qualquer um que não fosse ele.
"O que eu faço com Silas é problema meu, e a sua única tarefa é garantir que a alcateia continue sob o meu controle", ele rosnou, o brilho âmbar de seus olhos advertindo sobre as consequências da curiosidade excessiva.
Helena parecia prestes a insistir, mas um subalterno chamado Marcos entrou na sala no momento menos oportuno, carregando documentos que, claramente, continham informações sobre a segurança do bunker.
Marcos parou abruptamente, vendo a cena entre Alaric e Helena, e seus olhos traíram um conhecimento que ele não deveria possuir.
"Eu encontrei os registros de energia que você pediu, senhor", Marcos disse, sua voz falhando levemente sob o peso do olhar gélido que Alaric lançou sobre ele.
"Registros que mostram que o Ghost não está sendo estudado, mas alimentado com o seu próprio sangue."
O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor, um vácuo de tensão onde o destino de todos parecia pairar por um fio. Helena olhou para Marcos, depois para Alaric, e o quebra-cabeça da loucura de seu líder parecia se montar diante de seus olhos.
Alaric sentiu a raiva de Silas se fundir com a sua, uma fúria incandescente que pedia sangue e punição.
O traidor na alcateia não era apenas um soldado, era um erro que precisava ser corrigido imediatamente para proteger o segredo que agora era a única razão para ele continuar vivo.
"Marcos, venha aqui", Alaric ordenou, a voz estranhamente calma, enquanto ele caminhava até o centro da sala.
Marcos hesitou, mas a autoridade de seu Alpha o obrigou a dar um passo à frente, embora suas pernas tremessem. Alaric não perdeu tempo com discursos, desferindo um golpe rápido e brutal que jogou o subalterno contra a parede de metal.
"Você acha que tem o direito de ler o que não lhe cabe?", Alaric perguntou, sua voz soando como um rosnado constante que fazia as janelas vibrarem.
Alaric avançou sobre ele, descarregando toda a sua frustração e o medo de ser descoberto em uma punição que não deixava margem para dúvidas.
Ele queria mostrar a Helena, e a qualquer um que estivesse assistindo, que o seu desprezo por Silas era a única verdade que importava, mesmo que o Ghost estivesse sussurrando o oposto em sua mente.
"O Ghost é um inimigo da nossa raça", Alaric gritou, desferindo outro golpe que deixou Marcos sangrando no chão, enquanto ele sentia a dor de Silas, que acompanhava cada impacto.
"E quem tentar defender a sua existência será tratado como tal."
Helena observava tudo, a expressão impassível escondendo o choque que o ato de violência causava, mas Alaric sabia que a desconfiança dela apenas mudara de forma, não de intensidade.
Ela não estava convencida, apenas aterrorizada com a brutalidade necessária para manter o segredo vivo.
"Leve-o daqui e garanta que ninguém mais veja esses registros", Alaric ordenou, voltando para sua mesa com uma postura rígida e autoritária.
Helena assentiu e saiu com Marcos, deixando Alaric sozinho na sala, onde a sombra de Silas parecia finalmente se consolidar nos cantos escuros.
Alaric caiu em sua cadeira, a exaustão física e mental cobrando seu preço, enquanto sentia a frieza do Ghost envolver seus ombros em uma espécie de consolo sombrio.
"Você é um ator melhor do que eu pensava", a voz de Silas vibrou em seus pensamentos, uma mistura de diversão e algo mais profundo que Alaric não conseguia decifrar.
"Eu sou o que preciso ser para garantir que você não seja destruído", Alaric respondeu, fechando os olhos e sentindo a conexão entre eles se tornar cada vez mais inseparável.
Silas se materializou ao seu lado, suas mãos prateadas roçando os ombros do Alpha, uma carícia que era uma promessa de lealdade distorcida.
O risco da exposição era cada vez maior, e a alcateia estava começando a perceber que seu líder não pertencia mais a eles.
Alaric sabia que Helena voltaria, e que o próximo confronto seria fatal, mas ele já não se importava com as consequências para a sua alcateia.
A fusão entre o Alpha e o Ghost era a única coisa que importava agora, uma união inseparável que estava transformando a natureza de ambos.
Ele olhou para a porta, sabendo que os olhos dela estariam sempre lá, vigiando, esperando por um erro.
Enquanto isso, o sangue que ele compartilhara com Silas continuava a circular como uma droga, alimentando o vício que os mantinha presos naquele ciclo de dor e possessão.
O segredo agora estava cravado na história de sua alcateia, selado com a traição de um subordinado e o sangue de um rei. Alaric não era mais o homem que governava com justiça, mas o monstro que matava para proteger o seu próprio abismo pessoal.
A sombra ao seu lado estava ficando mais forte, e o brilho azul de Silas refletia no olhar de Alaric, selando o destino de ambos.
A caçada não era mais contra os inimigos de fora, mas contra a desconfiança que crescia dentro de casa, e Alaric estava pronto para destruir qualquer um que ousasse tocar no que agora era sua única obsessão.