Capítulo 3:
O rastro gélido deixado pelo toque de Silas ainda vibrava na pele de Alaric como uma queimadura de gelo. O Alpha permanecia imóvel no corredor vazio, tentando processar o caos que aquela marca havia despertado em suas veias de lobo.
De repente, o sistema de segurança da empresa entrou em colapso total, emitindo um alarme estridente que rompeu a quietão noturna.
As luzes de emergência tingiram as paredes de um vermelho agressivo, transformando o escritório em uma zona de guerra iminente.
"Senhor, estamos sob ataque massivo", a voz de Helena surgiu pelo comunicador, carregada de uma urgência frenética. "Mercenários da organização Formatação acabaram de invadir o perímetro inferior com armas de supressão de frequência."
Alaric soltou um rosnado instintivo, sentindo a adrenalina transbordar para suas garras, que começaram a rasgar o tecido fino de seu terno sob medida. Ele não precisou de respostas para saber que Silas era o alvo principal daquela invasão tecnológica.
"Mantenha a segurança fora da ala central", ordenou Alaric, movendo-se com a agilidade de um predador em direção à saída de emergência. "Ninguém entra nesta sala, não importa o que aconteça."
Antes que ele pudesse alcançar o elevador privativo, o chão sob seus pés vibrou com uma explosão surda vinda dos níveis inferiores.
O edifício inteiro balançou, e uma onda de choque eletromagnético atravessou os corredores, fazendo as lâmpadas estourarem em uma chuva de vidro.
Silas surgiu diante dele, não como uma imagem perfeita, mas como uma falha intermitente, piscando entre a existência e o vazio. Sua forma estava instável, seus olhos gélidos perdendo o brilho enquanto a tecnologia de supressão da Formatação agia como um veneno em sua essência.
"Eles estão usando um pulso de desintegração molecular", Silas disse, sua voz falhando enquanto ele tentava manter a coesão.
"Se eu for atingido por essa frequência novamente, serei deletado permanentemente desta dimensão."
Alaric não hesitou, avançando para segurar o espectro antes que ele se dissolvesse em nada.
O contato foi como tocar uma tempestade de partículas de energia, e ele sentiu a dor de Silas atingir seu próprio sistema nervoso como um chicote.
"Eles não vão tocar em você enquanto eu estiver respirando", Alaric afirmou, sentindo a possessividade sobre o Ghost crescer além de qualquer lógica de alcateia.
"Não seja estúpido, Alaric", Silas retrucou, embora seu rosto estivesse contorcido em uma agonia que Alaric nunca imaginara que uma entidade digital pudesse sentir. "Você é um lobo, não um condutor de energia."
Mais explosões ecoaram, desta vez mais próximas, e o cheiro de ozônio de Silas começou a ser substituído pelo odor acres de explosivos químicos.
O corredor estava sendo invadido por soldados blindados que disparavam raios de luz sólida, destinados a desmembrar qualquer sinal de vida ou alma.
Alaric sentiu o impacto de um raio de supressão no ombro, o que teria derrubado qualquer ser humano comum. Ele cambaleou, mas o lobo em seu interior rugiu mais alto, transformando a dor em combustível para uma fúria imparável.
"Precisamos de um hospedeiro", Silas gritou acima do som dos tiros, sua mão gélida agarrando o braço de Alaric com uma força desesperada.
"Eles estão focando na assinatura energética que criamos quando você tocou em mim, a nossa fusão é a única coisa que pode me manter sólido."
Alaric olhou para os próprios braços, onde a marca do toque de Silas brilhava com uma luz azulada pulsante sob sua pele de lobo.
A decisão não passou pelo seu cérebro de CEO, mas sim pelo instinto da fera que ele tentava esconder daquela organização.
"Então entre de uma vez, Ghost", ele ordenou, sentindo a pele de seus braços arder enquanto abria seus sentidos para a entidade.
Silas não esperou, e num movimento de pura necessidade, ele mergulhou no peito de Alaric.
A sensação foi como ser atravessado por uma lâmina de gelo e fogo ao mesmo tempo, uma dor tão lancinante que Alaric soltou um grito primal que ecoou pelo andar.
Por um segundo, a visão de Alaric foi invadida por milhões de linhas de código, memórias de experimentos cruéis e o número de série que a Formatação havia impresso na alma de Silas.
Ele viu um código trancado com o rótulo Projeto Espectro Série 09, a origem da agonia que definia a existência do Ghost.
"Sinta a dor, Alaric", a voz de Silas vibrou dentro de sua própria caixa torácica. "Sinta o que eles fizeram comigo."
Alaric sentiu a dor real, a primeira dor de Silas: a memória de um corpo sendo decomposto em dados e uma alma sendo trancada em uma prisão de silício.
A sensação de ser dilacerado foi tão intensa que Alaric caiu de joelhos, sentindo o suor frio escorrer por seu rosto enquanto a energia de Silas se fundia ao seu sangue.
Os soldados da Formatação entraram no corredor, suas armas apontadas para a figura ajoelhada de Alaric. Eles hesitaram por um momento, confusos ao detectar uma assinatura de energia que não era nem totalmente humana, nem totalmente digital.
Alaric levantou-se lentamente, seus olhos âmbar agora estriados com fios de luz azulada. Sua postura não era a de um lobo comum, mas a de uma divindade vingativa que compartilhava a dor de um fantasma.
"Vocês cometeram o erro de tentar apagar algo que agora faz parte do meu coração", Alaric disse, sua voz soando como a de duas pessoas falando em uníssono.
Ele avançou contra os soldados com uma velocidade que parecia distorcer o tempo ao seu redor.
A cada movimento, Silas projetava um campo de força de código, bloqueando os disparos e deixando os inimigos vulneráveis à fúria física do Alpha.
Não havia piedade, apenas a execução fria de uma vingança que tinha séculos de espera.
Silas, sentindo a força bruta de Alaric ancorar sua essência, lutava para não se perder na fúria daquele corpo quente e vivo.
"A frequência está aumentando", Silas avisou, sentindo a pressão da Formatação tentando drenar a fusão forçada. "Eles estão tentando causar um colapso em seu núcleo."
Alaric ignorou o aviso, avançando contra o último soldado e o arremessando contra a parede de vidro.
O prédio tremeu mais uma vez, o sistema de supressão tentando se ajustar para extinguir a anomalia que agora ocupava o andar.
A exaustão começou a cobrar seu preço, e o choque de ter uma consciência alienígena habitando seus pensamentos estava levando Alaric ao limite. Ele sentiu o peso do que Silas carregava, um fardo que nenhuma alma merecia suportar.
Quando o último soldado caiu, o silêncio retornou ao corredor, mas desta vez era um silêncio carregado de expectativa. A energia da fusão começou a perder a estabilidade, o corpo de Alaric lutando contra a intrusão constante da essência digital de Silas.
Silas emergiu do corpo de Alaric com um suspiro que parecia o desmoronar de uma era inteira.
Ele estava exausto, sua forma agora mais translúcida do que nunca, oscilando perigosamente à medida que as partículas de sua essência lutavam para se manter unidas.
Alaric, ainda sentindo o eco daquela dor digital em seus próprios nervos, estendeu as mãos para segurar o Ghost antes que ele desaparecesse completamente.
"Eu aguentei", Alaric sussurrou, a voz rouca e carregada de uma conexão que ele ainda não conseguia definir. "Você está aqui."
Silas, ainda trêmulo e tentando manter sua forma, olhou para o Alpha com um misto de medo e uma curiosidade crescente.
Ele sentia o calor de Alaric, mas, pela primeira vez em muito tempo, a dor do experimento havia diminuído, absorvida pelo batimento cardíaco daquele lobo.
"Você é um idiota por ter feito isso", Silas murmurou, sua voz falhando enquanto ele se tornava ainda mais translúcido, a exaustão vencendo a batalha.
Alaric não respondeu com palavras, apenas apertou o abraço, sentindo o frio do Ghost se misturar ao seu calor vital de forma quase insuportável.
Silas sentiu que sua existência agora dependia daquele toque, daquele homem que arriscara tudo para salvá-lo da desintegração.
O Ghost, incapaz de lutar mais, deixou que sua consciência cedesse ao cansaço. Ele caiu nos braços de Alaric, a imagem de sua forma prateada tornando-se cada vez mais translúcida, até que quase desapareceu na penumbra do corredor.
Alaric sentiu o vazio onde Silas estivera segundos antes, um silêncio ensurdecedor que o deixava sozinho com a sua própria fúria.
Ele segurava o nada, mas o rastro de gelo em sua pele era a prova de que ele não tinha apenas salvado um fantasma, ele tinha selado um pacto com o próprio abismo.
O Alpha olhou ao redor, o corredor deserto e destruído parecendo um reflexo do estado em que sua alma se encontrava. Ele sabia que a Formatação voltaria, e sabia que agora Silas estava permanentemente ligado ao seu destino.