Capítulo 2:
O ar no escritório ainda carregava a eletricidade estática deixada pela presença espectral, mas Alaric não se permitiu o luxo de um momento de calma. Ele caminhou até sua mesa, os passos ecoando como trovões sobre o mármore, enquanto sentia uma pontada súbita na nuca.
De repente, a realidade ao seu redor começou a sofrer uma mutação violenta.
O brilho luxuoso das luzes de LED e o vidro da metrópole paulistana foram substituídos por névoas densas e o cheiro sufocante de terra úmida e sangue antigo.
"Não tente entrar aqui, fantasma", Alaric rugiu, segurando as bordas de sua mesa de mogno até que a madeira cedesse sob a pressão de seus dedos.
A resposta veio como uma risada ressoando dentro de seu próprio crânio, uma frequência que distorcia seu batimento cardíaco.
Ele viu cenas de séculos atrás: o brilho de lâminas de prata, o som de gritos de uma alcateia que não existia mais e, no centro de tudo, um rosto de olhos gélidos.
"Você não pode apagar o que está escrito no seu sangue, Alaric", a voz de Silas ecoou, não como um som externo, mas como um pensamento intruso e dominante.
A visão era perturbadora: ele via a si mesmo, ou um homem que carregava sua essência, ajoelhado diante de Silas em uma clareira banhada pelo luar.
O toque de Silas, naquela visão, não era feito de névoa, mas de uma eletricidade que parecia fundir suas almas em uma só.
Alaric sacudiu a cabeça, os olhos âmbar brilhando com uma intensidade selvagem enquanto lutava para expulsar a imagem de sua psique. Ele precisava de controle, precisava de algo tangível para ancorar sua consciência ao presente.
"Saia da minha mente antes que eu encontre uma maneira de estripar o seu nada", ele esbravejou, jogando um monitor de alta definição longe, que explodiu em faíscas ao atingir a parede.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de sua respiração pesada e pelo zumbido dos servidores. Ele podia sentir a presença de Silas agora, um rastro de frio que se movia furtivamente pelos corredores vazios de sua própria sede corporativa.
Alaric ignorou a dor crescente na cicatriz de lobo em sua nuca, que ardia como se estivesse em contato direto com brasas. Ele não era apenas um CEO, era um predador, e nenhum invasor sairia impune de seu território.
Ele começou a caminhar pelos corredores de vidro e metal, seus sentidos aguçados captando a vibração mínima das partículas de ar.
Cada sombra parecia se contorcer, e o som dos seus passos era o único ritmo em uma caçada que agora se tornava um jogo de poder.
"Eu sei que você está se divertindo com isso, Silas", Alaric disse, a voz ecoando pelas paredes, seu tom carregado de um desafio primitivo.
"A diversão é um termo muito simplista para descrever o que sinto ao ver você lutando contra o inevitável", a voz de Silas respondeu, emanando de algum lugar logo à frente.
Alaric dobrou a esquina para o setor de finanças, encontrando apenas o reflexo de si mesmo em um espelho de parede inteira.
Ele parou, observando o próprio reflexo: o rosto rígido, a mandíbula cerrada e a aura de um Alpha que não aceitava ser manipulado.
"Você acha que é um mestre da manipulação digital, mas aqui, no meu domínio, eu sou a lei", afirmou Alaric, os olhos rastreando cada canto obscuro.
"Leis são feitas para os vivos, Alaric, e você esqueceu há muito tempo quem dita as regras do nosso destino", a voz de Silas parecia vir de todos os ângulos agora.
Alaric avançou com uma velocidade sobrenatural, atravessando a área da recepção e entrando na ala das salas de reuniões. Ele conseguia sentir o cheiro dele, ozônio e o vazio absoluto, ficando cada vez mais forte, quase intoxicante.
De repente, as telas dos computadores ao longo do corredor começaram a ligar simultaneamente. Centenas de displays exibiam o mesmo glitch de luzes azuis e pretas que Alaric vira horas antes.
"Mostre-se e pare de brincar como uma criança", exigiu Alaric, parando no centro do corredor enquanto as luzes começavam a piscar em um ritmo alucinante.
A figura de Silas começou a emergir do brilho dos monitores, não como uma projeção, mas como uma falha na realidade que se consolidava lentamente. Ele estava ali, a poucos metros de distância, sua forma prateada vibrando contra a solidez do ambiente.
"Você quer controle, Alaric? Controle é uma ilusão que você construiu para não admitir o quanto precisa de mim", Silas disse, dando um passo à frente enquanto a temperatura no corredor caía abaixo de zero.
Alaric não hesitou; ele saltou, a força de seu ataque fazendo o ar deslocar com violência. Ele queria agarrá-lo, queria senti-lo sob seu controle, queria provar que aquele fantasma podia ser quebrado.
Novamente, Silas apenas se tornou uma névoa densa, deixando que o punho de Alaric atingisse apenas o metal da parede atrás de si. O impacto foi tão forte que a estrutura tremeu, mas o Alpha nem sentiu a dor.
Ele se virou, os músculos tensionados, o instinto de lutar prevalecendo sobre qualquer tentativa de diálogo. Silas estava ali, agora flutuando a uma distância mínima, observando-o com uma curiosidade quase predatória.
"Você luta como se estivesse tentando matar o que mais deseja, Alpha", Silas zombou, sua voz baixa e cheia de uma nota de sarcasmo corrosivo.
"Eu não desejo nada que venha de um erro de sistema como você", Alaric retrucou, avançando novamente, desta vez com uma cautela calculada.
Silas apenas inclinou a cabeça, mantendo aquela distância que parecia infinita. Ele parecia se deleitar com a fúria e o desejo conflitantes que emanavam do corpo de Alaric.
"A mentira te cai bem, Alaric, quase tanto quanto o poder que você tanto venera", respondeu Silas, sua voz se aproximando perigosamente enquanto ele contornava o Alpha.
Alaric sentiu o gelo percorrer seus ombros, a presença de Silas tornando-se tão próxima que ele podia sentir a ausência de calor como se fosse um toque físico.
Ele tentou cercá-lo, imprensando-o contra a parede de vidro, mas Silas era uma sombra, um conceito, algo que ele ainda não conseguia conter.
"Se você quer tanto a destruição, venha buscá-la", desafiou Silas, sua forma ganhando uma nitidez perturbadora.
Alaric soltou um rosnado baixo, a frustração de não conseguir tocar o que mais o atraía e o repelia chegando ao ápice. Ele parou, tentando acalmar o ritmo cardíaco, tentando usar o silêncio para localizar a brecha na essência do Ghost.
"Nós não terminamos essa dança, Silas", Alaric afirmou, a voz carregada de uma promessa perigosa.
Silas, ainda vibrando no limiar entre a existência e o nada, aproximou-se do rosto de Alaric.
A proximidade era insuportável; o calor do Alpha contra o frio da entidade criava uma tensão que parecia prestes a explodir em faíscas.
"A caçada é apenas uma parte do que teremos que enfrentar, meu caro rei", respondeu Silas, seus olhos gélidos perdidos nos olhos âmbar em chamas de Alaric.
Silas começou a se desintegrar, cada pixel de sua forma voltando a ser um brilho digital que corria pelas telas dos monitores. O corredor, que segundos antes estava carregado de uma tensão quase tangível, ficou subitamente silencioso e frio.
Alaric permaneceu imóvel, o olhar fixo no último monitor que ainda exibia o brilho azulado do intruso. Ele viu a imagem de Silas no monitor, o rosto belo e cruel, a expressão carregada de uma promessa silenciosa.
O brilho do monitor concentrou-se em um ponto, como se Silas estivesse se inclinando em direção à tela. Em um gesto que desafiou as leis da física e da tecnologia, um rastro de luz gélida saiu da tela.
O brilho roçou a pele de Alaric, um toque que parecia o primeiro sinal de um pacto que ele ainda não compreendia completamente.
Em um movimento final, o brilho tocou o canto da boca do Alpha, deixando um rastro gélido e uma sensação de que ele havia sido marcado.
Silas desapareceu por completo no brilho do monitor, deixando apenas o silêncio e o rastro daquela sensação que queimava onde deveria estar frio.
Alaric tocou o canto da boca, sentindo a pele arrepiada e o coração batendo com um ritmo novo, selvagem e, pela primeira vez, verdadeiramente fora de seu controle.