O corredor do Hospital São Bento parecia mais frio naquela noite.
As luzes brancas refletiam no chão encerado, criando uma sensação de limpeza excessiva, quase artificial.
Isabela Monteiro Vasconcelos caminhava devagar, acompanhada por Rafael Almeida Duarte, ainda tentando entender o que estava acontecendo desde o resgate de Thor.
O silêncio não era normal.
Era pesado.
Controlado.
“Eu quero acessar meu cadastro”, disse Isabela.
Rafael olhou para ela.
“Agora?”
“Agora.”
Eles entraram na sala administrativa do hospital.
Um ambiente cheio de monitores, servidores e telas conectadas ao sistema central.
Um técnico virou a cadeira lentamente.
“Posso ajudar?”
Isabela respirou fundo.
“Quero verificar meu registro no sistema hospitalar.”
O técnico hesitou.
“Qual é seu nome completo?”
“Isabela Monteiro Vasconcelos.”
Ele digitou.
Aguarda.
Os segundos passaram mais lentos do que deveriam.
A tela piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
E então ficou branca.
“Não encontrou nada?”, perguntou Rafael.
O técnico franziu a testa.
“Estranho…”
Ele tentou novamente.
Mais rápido.
Mais profundo no sistema.
Nada.
Isabela deu um passo à frente.
“Como assim nada?”
O técnico virou a tela para ela.
“Não existe nenhum registro com esse nome.”
O mundo pareceu parar por um segundo.
“Isso não é possível”, Isabela disse.
Sua voz ficou mais baixa.
“Eu dei entrada nesse hospital. Eu tenho histórico médico aqui.”
O técnico engoliu seco.
“Não há nenhum dado, senhora.”
Rafael se aproximou do monitor.
“Procura no sistema secundário.”
O técnico hesitou.
“Esse acesso é restrito.”
Rafael mostrou o crachá.
“Agora não é hora de burocracia.”
Ele digitou novamente.
A tela mudou.
Entrou no sistema interno de segurança hospitalar.
E então apareceu outra coisa.
Um aviso automático.
“CONSULTA NEGADA”
O técnico ficou pálido.
“Isso não deveria acontecer.”
Isabela começou a sentir algo diferente.
Não era só raiva.
Era algo mais profundo.
Uma espécie de deslocamento da realidade.
“Eu estou aqui”, ela disse lentamente.
“Vocês estão me vendo.”
Rafael olhou para ela.
“Claro que sim.”
Mas o sistema não dizia isso.
O sistema mostrava outra coisa.
“USUÁRIO NÃO ENCONTRADO”
Isabela deu um passo para trás.
“Isso é algum tipo de erro?”
O técnico começou a suar.
“Vou reiniciar o servidor local.”
Ele reiniciou.
Quando o sistema voltou, a tela principal mostrou todos os pacientes ativos.
Rafael digitou novamente:
“Isabela Monteiro Vasconcelos.”
Nada.
Ele tentou outro campo.
“Histórico cirúrgico.”
Nada.
“Internações anteriores.”
Nada.
Isabela começou a tremer levemente.
“Então como eu cheguei aqui ontem?”
Silêncio.
Rafael olhou para o sistema.
E depois para ela.
“Alguém apagou você.”
A frase ficou no ar.
Pesada demais para ser ignorada.
Isabela sentiu o chão instável.
“Isso não faz sentido.”
Rafael continuou olhando para a tela.
“Faz se alguém tiver acesso total ao sistema central.”
O técnico levantou rapidamente.
“Isso é impossível. O sistema é isolado.”
Rafael respondeu:
“Nada é isolado quando alguém tem a chave-mestra.”
Nesse momento, o sistema piscou novamente.
Uma nova aba abriu sozinha.
Sem comando.
Sem autorização.
Título:
“PROTOCOLO DE IDENTIDADE – NÍVEL ZERO”
O técnico recuou.
“Eu não toquei nisso.”
Isabela se aproximou da tela.
“Isso… está aparecendo meu nome.”
Mas não era bem o nome.
Era um código.
“I-07”
Isabela congelou.
“Isso não sou eu.”
Rafael franziu a testa.
“É um identificador.”
O sistema começou a carregar arquivos automaticamente.
Um por um.
“Paciente I-07 – Status: inexistente.”
“Registro biométrico removido.”
“Histórico clínico suprimido.”
Isabela começou a sentir falta de ar.
“Parem isso…”
Mas ninguém estava controlando aquilo.
O sistema continuava sozinho.
“Memória institucional redefinida.”
“Família associada: nenhuma.”
Isabela deu um passo para trás.
“Eu tenho família…”
Mas o sistema respondeu sem emoção.
“Dado não encontrado.”
Rafael olhou para o técnico.
“Desliga isso.”
O técnico tentou.
Mas o sistema ignorou o comando.
“ACESSO PRIORITÁRIO ATIVADO.”
As luzes da sala piscaram.
E todas as portas do setor administrativo foram automaticamente trancadas.
Isabela ficou presa dentro da sala.
“O que está acontecendo?”, ela perguntou com a voz mais fraca.
Rafael se aproximou da porta.
“Alguém ativou um nível de segurança que não aparece no manual do hospital.”
O sistema então mudou novamente.
E exibiu uma mensagem central:
“RECONHECIMENTO DE PADRÃO COMPLETO”
Isabela olhou fixamente para a tela.
“Reconhecimento do quê?”
A resposta apareceu imediatamente.
“INDIVÍDUO COMPATÍVEL COM EXPERIMENTO I-07”
O silêncio na sala ficou absoluto.
O técnico deixou a cadeira cair para trás.
“Isso não existe…”
Rafael não desviava os olhos da tela.
“Existe sim.”
Isabela deu um passo à frente.
“O que significa isso?”
Rafael hesitou.
E pela primeira vez não tinha resposta pronta.
“Significa que você não foi esquecida.”
Ele engoliu seco.
“Você foi catalogada.”
O sistema começou a abrir um novo arquivo.
Título:
“PROJETO IDENTIDADE – FASE HUMANA”
Isabela se aproximou lentamente.
“Eu não quero ver isso…”
Mas a tela abriu sozinha.
E uma gravação começou a ser exibida.
Um corredor hospitalar antigo.
Luzes diferentes.
Equipamentos mais antigos.
Uma versão anterior do mesmo hospital.
E então…
Isabela apareceu na tela.
Mas não exatamente ela.
Ela estava deitada em uma maca.
Inconsciente.
Conectada a aparelhos.
“Isso não sou eu…”, ela sussurrou.
Rafael ficou imóvel.
“É você.”
A gravação mostrava médicos ao redor.
Falando baixo.
Anotando dados.
“Paciente I-07 está estabilizada.”
“Memória parcialmente removida.”
Isabela começou a tremer mais forte.
“Memória removida?”
O vídeo continuou.
“Preparar reintegração social.”
“Nova identidade aplicada.”
Isabela caiu de joelhos.
“Isso não é vida real…”
Rafael tentou ajudar.
Mas o sistema travou novamente.
E uma nova mensagem apareceu.
“ATUALIZAÇÃO AUTOMÁTICA INICIADA”
A tela ficou completamente branca.
E então, em letras pretas:
“BEM-VINDA DE VOLTA, EXPERIMENTO I-07”
O sistema apagou todos os outros dados da tela.
E a gravação terminou abruptamente.
Silêncio total na sala.
Isabela ainda estava de joelhos.
E então, muito longe dali, no sistema central do hospital, um arquivo oculto começou a ser reativado sozinho.
Nome do arquivo:
“ORIGEM DE THOR”