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《O Cão que Sabia Demais》PARTE 4

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A manhã em São Paulo estava quente e abafada, com um céu cinza que parecia pressionar a cidade. No bairro de Alto de Pinheiros, uma mansão recém-reformada chamava atenção por sua movimentação constante de carros, câmeras e pessoas entrando e saindo.

Na entrada, uma faixa enorme anunciava: “Projeto Esperança Animal – Resgate e Proteção”.

Patrícia Albuquerque Vasconcelos sorria para as câmeras enquanto segurava um cachorro pequeno no colo. Seu cabelo estava perfeitamente arrumado, e sua voz era suave, ensaiada.

“Hoje estamos aqui para salvar vidas que não podem se defender sozinhas”, ela dizia para uma transmissão ao vivo.

As câmeras captavam cada gesto. Milhares de comentários apareciam na tela do celular de apoio: elogios, emojis de coração, mensagens de admiração.

“Que mulher incrível”, dizia um dos comentários.

“Isso é humanidade de verdade”, dizia outro.

Isabela Monteiro Vasconcelos assistia à transmissão de longe, no pequeno apartamento onde estava temporariamente hospedada.

Ela não conseguia tirar Thor da cabeça.

Ele ainda estava sob observação no hospital veterinário, e mesmo assim, algo dentro dela não parecia em paz.

“Isso não está certo”, ela sussurrou.

Na tela, Patrícia caminhava entre caixas de transporte cheias de animais.

Cães, gatos, filhotes.

Todos aparentemente resgatados.

“Esses animais foram retirados de situações de risco extremo”, Patrícia explicava com voz firme.

Um jornalista ao lado completava:

“Um dos maiores projetos privados de proteção animal do país.”

Isabela franziu a testa.

“Privado demais…”, ela murmurou.

Ela aumentou o volume.

Patrícia abriu uma das caixas e tirou um gato branco.

Ele estava assustado.

“Esse aqui foi encontrado abandonado perto de uma área industrial”, ela disse sorrindo.

A câmera aproximou.

O gato miou baixo.

Isabela sentiu um desconforto imediato.

Algo naquele ambiente parecia controlado demais.

Perfeito demais.

Como se nada ali fosse espontâneo.

Na transmissão, Patrícia continuava.

“Nosso objetivo é dar uma nova chance para esses animais.”

O público reagia com entusiasmo.

Mas Isabela não conseguia sentir o mesmo.

Ela pegou o celular e começou a procurar registros do projeto.

Doações.

Histórico.

Abrigos anteriores.

Nada aparecia de forma clara.

Tudo era recente demais.

Bem organizado demais.

“Isso não existe há muito tempo”, ela disse.

Na transmissão, um homem de equipe abriu uma gaiola maior.

Dentro havia vários animais juntos.

Isabela percebeu algo.

Eles não estavam relaxados.

Estavam… sedados.

“Por que eles não se movem?”, ela sussurrou.

Patrícia notou a pergunta de um espectador e respondeu sorrindo.

“Alguns animais ficam mais calmos após o resgate. Isso faz parte do processo de adaptação.”

Isabela sentiu um aperto no peito.

“Calmos demais…”

Na tela, um caminhão entrou na propriedade.

Um caminhão fechado.

Sem identificação.

“Esses animais serão encaminhados para centros parceiros”, Patrícia explicou.

Isabela pausou o vídeo.

“Centros parceiros…”

Ela repetiu lentamente.

Thor.

O hospital.

O sistema que apagava registros.

Tudo começou a se conectar na mente dela.

Ela pegou o casaco e saiu imediatamente.

Enquanto isso, na mansão de Patrícia, a transmissão ao vivo continuava.

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O público crescia.

Milhares de visualizações.

Patrícia sorria como uma apresentadora experiente.

“Estamos transformando vidas todos os dias.”

Mas nos bastidores, longe das câmeras, algo completamente diferente acontecia.

Um funcionário fechava rapidamente uma das caixas.

“Rápido, temos mais carga hoje”, disse ele.

Um cachorro dentro da caixa começou a arranhar a madeira.

Fraco.

Quase sem força.

“Sedação ainda ativa?”, perguntou outro funcionário.

“Sim. Não podem acordar durante o transporte.”

Patrícia passou pelo corredor interno, ainda ao vivo.

Mas sua expressão mudou assim que saiu do enquadramento da câmera principal.

O sorriso desapareceu.

“Quantos já foram hoje?”, ela perguntou em voz baixa.

“Doze.”

“Ótimo”, ela respondeu.

Isabela chegou à mansão cerca de vinte minutos depois.

Ficou do outro lado da rua observando.

O fluxo de pessoas não parava.

Animais entrando.

Nenhum saindo.

Ela atravessou a rua.

Foi até a lateral da propriedade.

E encontrou uma pequena abertura no portão de serviço.

“Isso não é um abrigo”, ela disse para si mesma.

Dentro, o som era diferente.

Mais pesado.

Menos humano.

Ela viu uma fila de caixas sendo carregadas para dentro de um caminhão.

E reconheceu algo.

Um gato.

O mesmo da transmissão.

Mas agora ele não estava em cena.

Estava inconsciente.

“Eles estão mentindo”, Isabela sussurrou.

Ela tirou o celular e começou a gravar.

Nesse momento, um funcionário percebeu sua presença.

“Ei! Você não pode estar aqui!”

Isabela correu para trás de uma parede.

Mas já tinha visto o suficiente.

Cães sendo separados.

Gatos sendo etiquetados.

Caixas sendo seladas.

E então algo ainda mais estranho.

Um pequeno setor fechado.

Com uma placa:

“REALOCAÇÃO FINAL”

Isabela se aproximou lentamente.

E viu uma tela de computador.

Registros sendo apagados em tempo real.

“Transferência concluída.”

“Registro removido.”

“Animal não localizado.”

Ela começou a tremer.

“Eles estão apagando eles…”

De repente, uma voz veio atrás dela.

“Você não deveria ver isso.”

Isabela virou rapidamente.

Era um dos funcionários.

“Isso não é resgate, não é?”, ela perguntou.

O homem não respondeu.

Ela avançou um passo.

“Para onde vocês estão levando eles?”

Silêncio.

Ele tentou pegar o celular dela.

Ela recuou.

E saiu correndo.

Atrás dela, o sistema interno começou a emitir alertas.

“INTRUSA DETECTADA”

Isabela saiu da propriedade e se escondeu atrás de um carro.

Respirando forte.

Ela olhou para o vídeo que ainda estava gravando.

E viu algo que fez seu estômago congelar.

Um dos funcionários carregando uma caixa.

E dentro dela…

Thor.

Não o mesmo momento do hospital.

Outro registro.

Outro lugar.

“Não…”, ela sussurrou.

O vídeo travou por um segundo.

E depois continuou sozinho.

Na tela apareceu uma legenda automática do sistema interno:

“UNIDADE THOR – TRANSFERIDO”

Isabela começou a chorar.

“Eles estão mentindo sobre tudo…”

Enquanto isso, dentro da mansão, Patrícia finalizava a transmissão.

“Juntos, estamos construindo um futuro melhor para os animais.”

A live foi encerrada com aplausos virtuais.

Mas no mesmo instante, no fundo da propriedade, um pequeno gato conseguiu escapar de uma das caixas.

Ele correu.

Desesperado.

Coberto de poeira.

E chegou até o portão lateral.

Isabela viu o animal.

E correu até ele.

O gato estava ferido.

Mas vivo.

Ele caiu no chão.

E com a pata suja de sangue, começou a arranhar o concreto.

Isabela se ajoelhou.

“O que você está tentando me mostrar…”

O gato continuou.

Arranhando.

Lentamente.

Com dificuldade.

E então as letras começaram a aparecer no chão.

“NÃO VOLTEM”

Isabela congelou.

O gato parou de se mover.

E naquele momento, do outro lado da mansão, o sistema interno começou a apagar automaticamente todos os registros da transmissão ao vivo.

Como se nada tivesse acontecido.

E a última tela exibiu:

“PROJETO ESPERANÇA ATIVO”

 

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