Capítulo 10: A Armadilha de Helena
A ausência física de Diego transformava a imensa cobertura da Faria Lima em um mausoléu de concreto gélido. Alissa revisava as planilhas de importação do Porto de Santos na mesa de vidro do escritório, sabendo que, naquele mesmo instante, o Jaguar liderava uma equipe de resgate tático na densidade da floresta amazônica para cumprir a promessa de setenta e duas horas.
"O voo de monitoramento da bacia do Rio Negro confirmou a movimentação da milícia, Imperatriz", a voz rouca de Diego havia ecoado pelo telefone por satélite na madrugada anterior.
"Mantenha-se trancada na cobertura com dona Maria e os meus homens de confiança, eu volto para buscar você antes que o sol se ponha na sexta-feira."
Alissa apertou o celular contra o peito, percebendo com uma clareza assustadora que o homem que ela contratara como uma arma particular havia se transformado no próprio oxigênio que mantinha seus pulmões funcionando.
O silêncio do apartamento foi quebrado pela aproximação silenciosa de Thiago, seu secretário pessoal de vinte e oito anos, que carregava uma bandeja com um bule de chá e algumas pastas de assinaturas urgentes.
"Senhorita Volkov, o Dr. Mendes ligou informando que os fiscais da alfândega estão retendo três navios de contêineres na ala norte do terminal", Thiago explicou com sua habitual eficiência, ajeitando os óculos de aro fino enquanto colocava os documentos sobre a mesa.
"Ele solicitou a sua assinatura física neste termo de liberação imediata para evitar uma multa milionária antes do meio-dia."
"Isso é estranho, Mendes me garantiu que a documentação daquela frota estava impecável", Alissa murmurou, pegando a caneta de tântalo enquanto analisava o papel timbrado com atenção.
"O cenário no cais mudou após o afastamento da sua madrasta, os fiscais antigos estão dificultando o trâmite para forçar uma negociação", Thiago respondeu com um tom de voz calmo que não levantou qualquer suspeita na mente da herdeira.
Alissa assinou o documento com movimentos rápidos, levantando-se da cadeira de couro para pegar sua bolsa de grife sobre o aparador.
"Prepare o carro blindado, Thiago, eu vou pessoalmente até a sede administrativa resolver essa retenção com o Mendes."
"O veículo já está aguardando no subsolo, senhorita", o secretário disse, um sorriso sutil e quase imperceptível desenhando-se em seus lábios enquanto ele se afastava para abrir a porta do elevador privativo.
O trajeto até a garagem foi feito em absoluto silêncio, mas no momento em que as portas espelhadas do elevador se abriram no subsolo deserto, Alissa percebeu o erro fatal.
Os dois seguranças táticos que Diego havia posicionado na guarita estavam caídos no chão de cimento, com marcas de disparos de armas de choque na nuca.
Antes que ela pudesse recuar para o interior da cabine, a mão forte de Thiago segurou seu ombro esquerdo com uma brutalidade que ela nunca imaginou que aquele homem franzino possuísse.
Um segundo homem, vestindo roupas escuras e capuz, surgiu de trás da pilha de pneus e pressionou um lenço embebido em clorofórmio contra o nariz e a boca de Alissa.
"Desculpe por isso, chefinha, mas os cinco milhões de dólares que a dona Helena me ofereceu compram a minha lealdade e a minha aposentadoria na Suíça", a voz de Thiago ecoou abafada na mente de Alissa enquanto a escuridão química começava a invadir sua visão.
Em um último lampejo de adrenalina pura antes de perder os sentidos por completo, Alissa esticou os dedos trêmulos até a orelha direita.
Com um movimento cirúrgico e desesperado, ela pressionou a base de pérola do seu brinco exclusivo, ativando o micro-rastreador de tecnologia militar que Diego havia instalado na joia para o caso de uma emergência extrema.
A escuridão a engoliu por completo antes que Thiago pudesse arrancar a bolsa de suas mãos e jogá-la no banco traseiro de um furgão utilitário comum.
Quando Alissa abriu os olhos novamente, o cheiro de mofo, ferrugem e maresia indicou que ela não estava mais na região nobre de São Paulo.
Ela estava amarrada firmemente a uma cadeira de ferro pesada, no centro de um depósito abandonado cujas janelas quebradas revelavam a silhueta decadente dos antigos guindastes do cais velho de Santos.
O terror psicológico e claustrofóbico tomou conta de sua espinha quando os passos arrastados de saltos altos ecoaram pelo chão de cimento batido.
Helena Volkov emergiu das sombras do galpão, vestindo uma capa de chuva escura, com os olhos injetados de pura fúria psicopática e um sorriso insano que demonstrava que ela já não tinha mais nada a perder.
Logo atrás dela, Thiago contava um maço de notas de cem dólares com a frieza de quem acabara de vender uma vida humana no mercado negro.
"Você achou que uma garotinha mimada como você poderia me tirar do império que eu ajudei a construir, Alissa?", Helena sibilou, aproximando-se da cadeira e desferindo um tapa violento no rosto de Alissa que cortou seu lábio carmesim.
O impacto fez a cabeça de Alissa girar, mas o gosto metálico do sangue em sua boca apenas despertou a engrenagem fria que ela trazia de sua vida anterior.
"Você está desesperada, Helena, o desvio das Ilhas Caimã foi descoberto e os Silva não vão queimar o capital político deles para salvar uma criminosa como você."
"Os Silva estão cuidando do seu cachorrinho de estimação na selva enquanto nós resolvemos o nosso problema familiar aqui", a madrasta respondeu, pegando um galão de plástico vermelho de cinco litros que estava escondido atrás de uma caixa de madeira.
O som do líquido sendo despejado contra o chão ao redor da cadeira fez o coração de Alissa disparar em um ritmo alucinante de puro estresse pós-traumático.
O cheiro forte e penetrante de gasolina invadiu suas narinas, ativando instantaneamente as memórias sufocantes do acidente fatal que havia encerrado sua primeira vida sob a tempestade.
As imagens da lama, do fogo consumindo a lataria do carro e do riso de Lucas voltaram a assombrá-la em um redemoinho claustrofóbico que fez sua respiração travar na garganta.
"Você gosta desse cheiro, querida?", Helena perguntou com uma doçura sádica, terminando de circular a cadeira com o combustível inflamável que começava a ensopar as plumas pretas do vestido que Alissa ainda usava por baixo do casaco.
"O seu pai morreu em um leito de hospital de forma limpa, mas para você, eu preparei um espetáculo muito mais caloroso e inesquecível."
Alissa tentou puxar as correntes que prendiam seus pulsos, mas o metal cravava-se em sua pele de porcelana, provocando uma dor que a trazia de volta à realidade imediata.
Distante fisicamente de Diego por milhares de quilômetros, ela fechou os olhos por um segundo e mentalizou o calor do peito do Jaguar na cabine do iate, transformando o desespero em uma última gota de resistência.
"O Diego vai encontrar este lugar, Helena, e quando ele chegar, não haverá um buraco nesta terra profundo o suficiente para esconder você da fúria dele", Alissa disse, a voz saindo firme apesar do tremor involuntário de suas pernas.
Helena soltou o galão plástico vazio no chão, retirou um isqueiro de prata com o brasão da família Volkov do bolso da capa e acendeu a chama oscilante com um estalo seco.
A luz alaranjada do fogo refletiu nas pupilas dilatadas da madrasta, que deu dois passos para trás, saboreando o clímax de sua vingança de salão.
"O seu Jaguar está muito longe para ouvir os seus gritos, Alissa, reze para que o inferno seja mais complacente com as herdeiras do que eu fui."