Capítulo 3: A Teia de Dante e as Sombras de Silas
O ar no arquivo da família Waldemar parecia mais denso, quase sólido, como se as paredes de pedra estivessem se fechando. Elena folheava um volume encadernado em pele negra, seus dedos mal se movendo devido ao tremor constante que mal conseguia controlar.
Ela sentia que estava sendo vigiada por cada canto escuro daquela biblioteca monumental. A presença de Silas era como uma pressão barométrica que nunca diminuía.
Um ruído quase imperceptível surgiu atrás de uma pilha de mapas antigos, seguido pelo rangido de uma estante sendo levemente movida.
Dante emergiu das sombras, seus olhos escuros carregando uma fadiga que Elena reconheceu instantaneamente como culpa.
Ele segurava um documento amassado e manchado de tinta fresca, com selos oficiais da família que ela reconhecia perfeitamente. Sem dizer uma palavra, ele deslizou o papel para as mãos dela.
Você precisa ler isso antes que as guardas retornem, Dante murmurou, sua voz soando como o roçar de folhas secas.
Elena leu as linhas rapidamente, e o horror cresceu em sua garganta como uma flor venenosa.
O relatório detalhava a perda de massa vital ligada à extração de memórias, confirmando o que Bento havia sussurrado.
Isso não é apenas sobre o que eu esqueço, ela disse, com a voz falhando enquanto olhava para os números brutais na folha. Ele está sugando minha vida para se manter.
Dante assentiu, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o cheiro de metal e fumaça que ele sempre trazia consigo. Ele era o elo com o irmão dela, um elo que agora parecia prestes a se romper.
Eu vi o que aconteceu com seu irmão, Dante confessou, baixando o olhar para as mãos calejadas. Eu estava lá naquela noite, e o medo me manteve imóvel enquanto eles o levavam.
A confissão de Dante atingiu Elena como um golpe físico, tirando o ar de seus pulmões. Ela queria gritar, queria culpar a covardia dele, mas percebeu que ela mesma estava presa em uma teia muito maior.
Cada vez que penso em fugir, sinto que ele está dentro da minha cabeça, ela admitiu, sentindo uma náusea doentia. É como se meu próprio sangue estivesse conspirando contra mim.
Dante segurou o braço dela, seus olhos fixos nos dela com uma urgência desesperada. Você precisa sair daqui, Elena, pois ele não está apenas roubando quem você é, ele está apagando sua existência para construir o altar dele.
Eles ouviram o som metálico de botas marchando no corredor, aproximando-se com a precisão de um mecanismo de relógio. A guarda estava fazendo sua ronda rotineira mais cedo do que o esperado.
Esconda-se, Dante comandou, empurrando-a para trás de uma prateleira de registros de linhagem.
Elena moveu-se com a agilidade que a prática como arquivista lhe dera, deslizando para uma seção oculta.
Ela ativou o mecanismo de trava das estantes, um sistema que forçava as fileiras de livros a girarem e bloquearem a passagem.
As guardas entraram no arquivo, suas lanternas cortando a escuridão como lâminas de luz. Elas pararam na frente da estante onde ela acabara de se esconder, sem perceber o mecanismo que a protegia.
Nada aqui, uma das guardas comentou, chutando uma caixa vazia com desdém. O mestre está impaciente hoje, vamos verificar a ala superior.
Elena prendeu a respiração, sentindo o suor frio escorrer por suas têmporas. Ela olhou para o documento que ainda segurava e notou um pequeno símbolo gravado no rodapé.
Era a mesma insígnia que o relatório de Dante mencionava, uma marca de família que aparecia em todas as listas de sacrifícios.
No centro daquela gravura complexa, uma representação gráfica de um coração humano sendo brutalmente removido.
Ela olhou para o próprio pulso, onde a marca do pacto com Silas ainda pulsava com um brilho pálido e ameaçador. Abaixo da cicatriz, um novo desenho começou a surgir, uma forma escura e intrincada.
Era um pequeno broche, exatamente igual ao que o irmão dela usava no dia em que desapareceu. A conexão entre a dor do irmão e o destino dela estava marcada em sua própria pele.
Dante se aproximou quando os passos das guardas finalmente desapareceram no final do corredor. Ele parecia ter envelhecido décadas em apenas alguns minutos.
Precisamos de um plano, Dante sussurrou, observando o novo desenho no pulso dela com uma expressão de temor. Se você está carregando a marca dele, ele vai encontrar você em qualquer lugar.
Eles não tiveram tempo de continuar a conversa, pois o ambiente mudou abruptamente.
O ar ficou carregado de uma estática fria, uma sensação de que a própria realidade estava sendo dobrada por uma vontade superior.
Dante empalideceu e recuou para as sombras sem dizer adeus, desaparecendo como fumaça. Elena sentiu o peso da solidão se abater sobre ela enquanto caminhava até a saída.
Ela abriu a porta pesada de carvalho do arquivo, pronta para encarar o corredor deserto e escuro. Seus planos de resistência pareciam tão frágeis quanto o papel que ela escondia no bolso.
Assim que ela fechou a porta atrás de si, o silêncio do corredor foi cortado por uma presença que ela conhecia melhor do que qualquer outra.
Silas estava ali, encostado na parede, seus olhos cinzentos refletindo apenas a frieza do mármore.
Ele não fez menção de gritar, não houve explosões de fúria ou ordens brutais. Ele apenas se aproximou com uma calma predatória, seus movimentos sendo a própria definição de elegância perigosa.
Elena tentou recuar, mas seus pés pareciam colados ao chão. Ele não parou até que estivesse tão próximo que ela podia sentir o cheiro de cedro e inverno que emanava dele.
Silas segurou a mão dela, seus dedos movendo-se com uma lentidão que parecia durar uma eternidade. Ele não apertou com força, apenas tocou o pulso dela com a ponta dos dedos gelados.
Seus olhos desceram para a nova marca no pulso de Elena, a pequena representação do broche que começava a escurecer. Ele traçou o contorno do desenho com uma familiaridade que a fez tremer.
Dante não é a sua salvação, Silas murmurou, a voz baixa como uma confissão íntima. Ele é apenas o seu fim, um instrumento quebrado tentando consertar algo que já foi consumido.
Elena sentiu o toque dele na marca ser como uma queimadura, uma lembrança dolorosa de que ela estava ligada a ele de maneiras que ela nem ousava compreender. O medo paralisou seus pensamentos, bloqueando qualquer chance de defesa.
Ele levantou o olhar, fixando os olhos dela com uma intensidade que a desnudava completamente. A crueldade em seu rosto era temperada por algo que parecia, estranhamente, uma decepção profunda.
Querida, você tem certeza de que ainda quer continuar lendo o que está escrito nessas páginas, ele perguntou com um sorriso gélido que nunca alcançava os olhos.
Elena engoliu em seco, sem encontrar qualquer resposta possível para aquela pergunta. O silêncio na mansão parecia zombar da fragilidade de suas escolhas.
O destino estava se fechando ao redor deles como uma jaula de ferro. Ela sabia que cada passo que dava a levava mais fundo na escuridão que Silas controlava.
E, no entanto, havia uma parte dela que não conseguia parar, um instinto suicida de querer ver a página final, não importa o custo. O jogo estava longe de terminar.