Capítulo 2: O Custo do Toque
A mansão Waldemar não era apenas uma residência, era um organismo faminto que se alimentava de segredos. Elena caminhava pelos corredores de pedra fria com uma pilha de volumes antigos nos braços, sentindo o peso de cada página sobre seus ombros.
Ela agora era a arquivista forçada daquela família, um pássaro engaiolado que não sabia como tinha ido parar ali.
Suas mãos suavam contra a capa de couro desgastado, e sua respiração soava ruidosa naquele silêncio sepulcral.
Cuidado com os degraus, o tempo aqui é traiçoeiro, uma voz soou logo atrás dela, gélida como o ar da manhã.
Elena girou o corpo com rapidez, mas o desequilíbrio fez com que os livros escorregassem de seus dedos.
Antes que atingissem o chão, Silas a segurou pelo braço, seus dedos travando em sua pele como grilhões.
No instante em que ele a tocou, a sensação familiar de um vazio se abrindo em seu peito retornou. Era como se uma luz intensa estivesse sendo apagada dentro de sua cabeça.
O som suave e terno que ela sempre guardava no coração, a canção de ninar que sua mãe costumava cantar, simplesmente desapareceu. Ela tentou acessá-lo, buscou o tom, buscou a melodia, mas encontrou apenas um silêncio absoluto.
O que você está fazendo comigo, ela gritou, o pânico subindo como uma maré negra.
Silas não recuou, ele apenas apertou o braço dela com mais força, forçando-a a olhar em seus olhos cinzentos. Estou apenas mantendo a ordem das coisas, Elena.
Ele a soltou com um desdém aristocrático, como se ela fosse um objeto descartável que acabara de perder sua utilidade.
A frieza com que ele a silenciou foi mais dolorosa do que a própria perda da memória.
Você não tem o direito de roubar as únicas coisas que eu tenho, ela soluçou, sentindo as lágrimas arderem.
Silas a encarou com uma expressão vazia, desprovida de qualquer traço de remorso.
O direito é uma convenção para os livres, e você, pequena arquivista, parou de ser livre quando atravessou minha janela.
Ele deu as costas, sua capa ondulando no ar como as asas de um abutre. Ela ficou ali, paralisada, tentando desesperadamente recuperar a voz da mãe, mas apenas um chiado estático restou em sua mente.
Ela não sabia quanto tempo passou tremendo no corredor, mas o ambiente parecia cada vez mais opressor.
Cada sombra ali parecia observar suas fraquezas, esperando que ela se desintegrasse por completo.
Não tente buscar o que não está mais lá, menina, uma voz rouca e gutural veio das sombras de uma coluna.
Elena se sobressaltou, procurando a origem do som. Um homem alto, de ombros caídos e olhos cobertos por um pano negro, surgiu de trás de uma tapeçaria antiga.
Quem é você, ela perguntou, recuando um passo cauteloso.
Sou Bento, aquele que cuida das feridas que o senhor da casa não percebe, ele respondeu, movendo-se com uma precisão assustadora para quem era cego.
Bento estendeu a mão callosa e, de forma inexplicável, tocou o ar exatamente onde o rosto de Elena estava. Ele parecia ler a dor dela através das vibrações do ambiente.
Você percebeu, não percebeu, ele perguntou com uma tristeza profunda na voz. Aquele momento em que o rosto ou o nome de alguém que você ama se torna apenas um borrão.
Elena sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquelas palavras. Como você sabe disso, ela questionou.
Eu vejo os ecos, mesmo sem usar os olhos, ele respondeu, abaixando a mão. Silas se alimenta dos fragmentos da alma de quem ousa desafiá-lo.
O zelador deu um passo à frente, baixando o tom de voz para um sussurro conspiratório. O que ele bebe de você, ele não devolve, pois o que ele consome torna-se a sua própria força.
Mas por que ele faria isso comigo, Elena questionou, sua voz falhando devido ao desespero.
Bento sorriu, um gesto torto que revelava falta de dentes. Porque você é o combustível mais raro que ele já encontrou, algo que ele não pode simplesmente fabricar.
Elena sentiu o peso das palavras de Bento como se fossem correntes de metal. Ela não era apenas uma arquivista; ela era uma fonte de energia a ser esgotada.
Preciso fugir daqui, ela disse, embora soubesse que não passava de uma fantasia vã.
A porta da frente é uma ilusão, e as janelas são espelhos para o precipício, Bento respondeu, virando-se para retomar seu caminho sombrio.
Ele parou por um instante, ainda de costas para ela, antes de continuar. Tente não esquecer seu próprio nome, pois será a última coisa que lhe restará.
Elena ficou sozinha no corredor, a escuridão parecendo se fechar ao redor de seus ombros. Ela precisava se lembrar, precisava segurar os fragmentos do que restava de sua identidade.
Ela fechou os olhos com força, tentando buscar o nome de sua mãe em algum canto esquecido de sua mente. Mas, como Bento alertara, não havia nada ali.
Ela buscou pelo nome, buscou pelo som da voz, mas apenas o vazio ecoou. O nome não estava mais lá.
O vazio era profundo, uma ferida aberta que sangrava esquecimento. Ela sentiu uma náusea intensa ao perceber que a caça já havia começado.
Silas voltaria, e ele não teria piedade da garota que já não conseguia se lembrar de sua própria origem.
Elena tentou mais uma vez, um esforço supremo de vontade, mas o vazio era absoluto.
Ela estava perdendo a si mesma, uma memória de cada vez. A mansão Waldemar finalmente tinha começado a devorá-la.