Capítulo 10
A mansão Souza estava mergulhada em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som distante de um trovão, prenunciando a tempestade que se formava tanto no céu quanto no destino de Elara.
Mateo conseguiu burlar a vigilância do perímetro oeste, movendo-se entre as sombras da vegetação como um homem que não tinha nada a perder.
Ele se aproximou da varanda do quarto onde sabia que Elara era mantida, seu coração batendo em um ritmo acelerado de pavor e determinação.
"Elara, sou eu, venha logo," ele sussurrou perto da janela, sua voz mal audível contra o vento que aumentava de intensidade.
Elara estava parada no meio do quarto, com a bolsa de fuga preparada, mas ao ouvir o chamado de Mateo, seu corpo travou no lugar.
"Mateo? Como você conseguiu passar pelos sensores?" ela perguntou, correndo até a janela e abrindo uma fresta para vê-lo na escuridão.
"Não importa como, importa que estou aqui para tirar você e o Leo desse inferno," ele respondeu, estendendo a mão trêmula para alcançá-la.
Elara olhou para trás, para a porta do quarto, sabendo que Rodrigo estava do outro lado, vigiando cada respiração sua com uma devoção que a perturbava.
Ela sentiu o peso da chave mestra no bolso, a chave que abria não apenas as portas da mansão, mas também o caminho para a vingança que ela e Seraphina planejaram.
"Se eu for com você agora, Mateo, todo o meu sacrifício dos últimos cinco anos terá sido em vão," ela disse, sua voz falhando por um instante.
"Que sacrifício é esse que te prende a um homem que te destruiu?" Mateo questionou, a frustração transparecendo em sua expressão suada e tensa.
"Eu preciso derrubar esse império, precisa garantir que eles nunca mais possam ameaçar o meu filho, ou a vida de qualquer outra pessoa," ela explicou, segurando a mão dele apenas por um segundo antes de soltá-la.
Mateo deu um passo em direção à varanda, ignorando o perigo eminente de ser descoberto pelos seguranças que faziam a patrulha.
"Nós podemos fugir, podemos ir para longe, onde ninguém nos encontrará nunca mais," ele insistiu, desesperado por salvá-la daquela teia de ódio.
"Não existe longe quando se trata dos Souza, Mateo, eles sempre encontram um jeito de nos alcançar," ela respondeu com uma convicção gélida.
De repente, a porta do corredor foi aberta com um estrondo, e a presença de Rodrigo preencheu o espaço como uma força da natureza.
Ele não estava furioso como de costume, mas seus olhos azuis estavam carregados de uma advertência silenciosa que fez o ar parecer congelar.
"Eu sabia que você viria, Mateo," Rodrigo disse, sua voz calma enquanto ele observava o homem parado na varanda.
Mateo não recuou, colocando-se em uma posição defensiva, pronto para lutar contra o magnata, apesar da desvantagem óbvia de estar desarmado.
"Saia da frente, Rodrigo, ela não pertence a você!" Mateo gritou, sua voz ecoando pelas paredes de mármore do quarto.
Rodrigo olhou para Elara, que ainda estava perto da janela, o olhar preso entre a liberdade que Mateo oferecia e o poder de destruição que ela tinha em suas mãos.
"Elara, a escolha é sua, mas saiba que a porta de saída está aberta se você realmente quiser partir," Rodrigo disse, surpreendendo a ambos com sua resignação.
Elara olhou para Mateo, viu nele a vida simples e segura que ela sonhara, o amor que não exigia nada além de paz.
Depois, ela olhou para Rodrigo, viu nele o destruidor que ela precisava manipular para atingir o núcleo podre do clã Souza e encerrar aquela guerra para sempre.
"Eu não posso ir, Mateo," ela disse finalmente, e cada palavra pesou como chumbo em seu peito, "a minha luta é aqui."
Mateo ficou paralisado pela decepção, seus olhos percorrendo o rosto dela como se buscasse uma mentira que aliviasse a dor que sentia.
"Você não está escolhendo a vingança, você está se tornando exatamente como ele," Mateo sussurrou, a voz carregada de um desprezo que a atingiu mais que qualquer bala.
"Talvez seja necessário ser um monstro para destruir outros monstros," ela respondeu, fechando os olhos para não ver a dor dele.
Rodrigo deu um passo para trás, deixando o caminho livre para Mateo escapar, como um sinal de que ele não pretendia escalar aquela violência naquele momento.
"Vá, antes que os meus homens decidam que a sua presença aqui é um crime passível de execução," Rodrigo ordenou, a voz fria e cortante.
Mateo olhou para Elara uma última vez, uma despedida silenciosa que selou o fim de qualquer esperança que restava entre eles.
Ele pulou da varanda para o jardim, desaparecendo rapidamente na escuridão, levando consigo o último resquício de uma vida normal.
Elara se apoiou no parapeito, sentindo as pernas cederem e permitindo que as lágrimas que ela segurava caíssem livremente.
Rodrigo aproximou-se lentamente, mas não a tocou, mantendo uma distância respeitosa enquanto observava o impacto da decisão dela.
"Ele era a sua única chance de ser feliz, Elara," ele disse, observando o jardim vazio onde Mateo desaparecera.
"Eu não nasci para a felicidade, Rodrigo, eu nasci para garantir que o meu filho tenha um futuro sem o seu sobrenome pairando sobre ele," ela retrucou.
Ela se virou para encarar Rodrigo, sua máscara de Ghost novamente firme, o amor seguro de Mateo enterrado sob camadas de dever e ódio.
"A vingança é um caminho sem volta, e agora você está presa nele comigo," Rodrigo comentou, o tom de voz denotando uma estranha mistura de satisfação e pesar.
"Nós dois estamos presos, mas pelo menos eu ainda tenho o controle do que resta desse império," ela disse, voltando para dentro do quarto.
O quarto parecia agora mais frio do que antes, um lembrete do custo do sacrifício que ela acabara de fazer por sua causa.
Ela sabia que Mateo nunca mais voltaria, e aquela percepção deixou um vazio que nenhum poder no mundo poderia preencher.
Rodrigo ficou na varanda por alguns minutos, olhando para o horizonte, pensando na ironia de ser ele o motivo dela ter escolhido a guerra.
Ela sabia que a partir daquela noite, não havia mais espaço para dúvidas ou arrependimentos; apenas para a execução do plano final.
A mansão Souza voltou ao silêncio, um silêncio que agora carregava o peso de um amor perdido e de uma vingança inevitável.
Elara sentou-se na poltrona, pegando os documentos da operação, sua mente focada inteiramente na destruição que ela desencadearia na manhã seguinte.
Ela escolheu o ódio, escolheu o poder, e agora ela teria que viver com as cinzas daquela escolha pelo resto de sua existência.