Capítulo 5
O escritório de Rodrigo era um ambiente onde o poder era a única lei, mas aquela noite o silêncio parecia carregado de uma eletricidade sombria.
Ele estava sentado diante de uma tela de computador de última geração, analisando os documentos que seus investigadores particulares haviam entregado horas antes.
"Onde você estava se escondendo, Elara?" ele sussurrou para a sala vazia, a voz rouca de uma exaustão que ele se recusava a admitir.
Cada relatório detalhava a vida pacata de uma mulher chamada Bia, vivendo em uma cidade que ele mal sabia localizar no mapa.
Ele clicou em um arquivo marcado com o selo de confidencialidade máxima, sentindo um peso estranho pressionar o seu peito.
Ali, entre relatórios de compras de supermercado e registros de emprego, havia uma pasta de exames médicos datada de quatro anos atrás.
Rodrigo abriu o arquivo, esperando encontrar algum segredo sobre o trabalho dela, talvez alguma atividade ilícita ou contatos com inimigos.
Seus olhos percorreram a linha que indicava um teste de paternidade, o nome de Elara Thorne listado ao lado de um código genético de uma criança.
"Não pode ser," ele murmurou, a mão tremendo levemente enquanto ele passava a página para confirmar os dados.
A conclusão do laboratório era definitiva: havia uma compatibilidade de noventa e nove por cento com o seu próprio DNA.
O ar na sala subitamente pareceu insuficiente para seus pulmões, e ele sentiu uma vertigem que o obrigou a apoiar-se na mesa de mogno.
"Você teve um filho meu e decidiu me apagar da existência?" ele rugiu, lançando o relatório sobre o carpete.
A raiva, que geralmente era sua companheira constante, foi substituída por uma dor dilacerante, um reconhecimento de que ele fora privado de um legado.
Ele se levantou, caminhando a passos pesados pelo escritório, sentindo-se como um homem que acabara de descobrir que vivia uma ilusão.
Ele lembrou-se das palavras de Elara no avião, da determinação com que ela protegia aquele menino.
Rodrigo não pensou mais; seu corpo movia-se por instinto puro, impulsionado por uma necessidade desesperada de ver a verdade com os próprios olhos.
Ele subiu as escadas de mármore como um furacão, ignorando os seguranças que o viam passar com expressões de choque.
Ele sabia exatamente onde Elara havia instalado o pequeno Leo, uma ala da mansão que ela insistira em decorar com cores claras.
A porta estava entreaberta, e o som de uma respiração rítmica e suave escapava pelo vão, uma música de paz em meio ao seu caos interno.
Rodrigo entrou no quarto com cautela, seus passos agora lentos, quase reverentes, como se temesse quebrar o encanto daquela cena.
O quarto estava iluminado por um abajur de luz fraca, projetando sombras longas sobre os brinquedos espalhados pelo tapete.
Ele se aproximou do berço de grades de madeira branca, onde a criança dormia profundamente, o rosto sereno e angelical.
Ao observar aquele pequeno ser, ele notou os detalhes que o relatório de DNA apenas sugeria: o formato dos olhos, a curva da testa.
"Você tem os meus olhos, não tem?" ele sussurrou, sentindo um nó na garganta que ele não conseguia engolir.
Seu olhar se moveu para a mesinha de cabeceira, onde um pequeno diário de couro estava aberto, esquecido na pressa da rotina.
Ele hesitou por um momento, mas a curiosidade, misturada àquela nova e dolorosa vulnerabilidade, levou-o a tocar a capa do livro.
Rodrigo abriu na página marcada, onde a caligrafia elegante de Elara descrevia os medos e as esperanças de uma mãe solo.
Hoje ele completou quatro anos, e seus olhos me lembram cada vez mais do homem que eu deveria odiar, dizia a primeira linha.
Ele continuou lendo, cada palavra como uma facada em sua consciência, revelando os anos de luta e o silêncio que ela carregou.
Eu nunca quis que ele soubesse quem é o seu pai, porque o mundo do Rodrigo é um lugar onde crianças não crescem seguras, lia-se em outro parágrafo.
Rodrigo sentiu uma lágrima quente escorrer por seu rosto, a primeira que ele permitia em quase uma década.
A culpa, pesada como chumbo, tomou conta de cada fibra de seu ser, confrontando-o com a realidade do dano que ele causara àquela mulher.
"Eu te fiz sofrer tanto, Elara," ele confessou para a criança adormecida, como se ela fosse o juiz final de seus erros.
Ele notou, então, que Elara estava parada na porta, observando-o com os olhos arregalados, o terror estampado em sua expressão.
A máscara de Bia havia caído, e agora era Elara, o Ghost, que estava diante dele, pronta para o confronto final.
"O que você está fazendo aqui?" ela perguntou, a voz trêmula, mas carregada de uma hostilidade defensiva.
Rodrigo não se virou imediatamente, mantendo seu olhar fixo na criança, um homem desarmado diante da verdade.
"Por que você não me contou?" ele perguntou, sua voz falhando pela primeira vez em toda a sua vida profissional.
Elara deu um passo à frente, entrando no quarto com a postura rígida de quem estava pronta para lutar até a morte.
"Porque eu sabia que você tentaria transformar ele em uma cópia da sua própria crueldade, Rodrigo," ela respondeu, sua voz ecoando com uma dor profunda.
"Eu nunca machucaria o meu próprio filho," ele insistiu, voltando-se finalmente para enfrentá-la, seus olhos vermelhos pela emoção.
Elara soltou uma risada amarga, balançando a cabeça com um desdém que doeu muito mais do que qualquer tiro que ele já recebera.
"Você o colocou em uma gaiola de ouro, você o separou de quem ele ama, e você ainda tem a audácia de falar sobre machucar?" ela disparou.
Rodrigo deu um passo em sua direção, estendendo a mão como se quisesse tocar o braço dela, mas ele parou a meio caminho.
"Eu descobri a verdade, eu vi os exames, eu li o que você escreveu," ele murmurou, a voz carregada de uma angústia genuína.
Elara o encarou com uma frieza de aço, suas mãos fechadas em punhos nas laterais do corpo.
"Ler o que eu escrevi não te dá o direito de invadir o nosso santuário," ela respondeu, posicionando-se entre ele e o berço.
"Você me tirou cinco anos da vida dele, Elara," ele disse, a acusação misturada com uma súplica silenciosa.
"Eu te dei cinco anos de uma vida real, longe da toxicidade de um império construído sobre cadáveres," ela rebateu.
Rodrigo olhou para o diário em sua mão, depois para a criança, e por fim para a mulher que ele amara e destruíra com igual intensidade.
"O que você quer que eu faça para provar que eu posso mudar?" ele perguntou, sabendo que era uma pergunta impossível.
Elara o encarou por um longo momento, o silêncio sendo o único mediador entre os dois mundos colidentes.
"Vá embora, Rodrigo," ela respondeu, sua voz baixando para um sussurro, mas carregado de uma autoridade que ele não podia contestar.
"Eu não vou a lugar nenhum, não agora que eu sei o que eu perdi," ele afirmou, sua voz recuperando um traço de sua antiga determinação.
Ele deixou o diário sobre a mesa e saiu do quarto, seus passos pesados e sem a arrogância que sempre o definira.
Elara observou a porta fechar, sentindo que o jogo acabara de mudar de forma drástica e imprevisível.
Ela sabia que a partir daquela noite, ele não lutaria mais pelo controle, mas sim pelo direito de existir na vida de seu filho.
A verdade tinha sido revelada, e com ela, as feridas que ela tentara cicatrizar foram abertas novamente.
O Ghost estava exausto, mas ela sabia que, por Leo, ela enfrentaria até o próprio inferno se necessário fosse.