Capítulo 4
O salão de festas da mansão Souza era um mar de luzes de cristal, risadas falsas e o tilintar constante de taças de champanhe.
Elara descia a escadaria principal vestida em um longo traje de seda esmeralda que parecia uma armadura fina contra aquele ambiente hostil.
Rodrigo, impecável em seu smoking sob medida, estendeu o braço para recebê-la com um sorriso que não chegava aos olhos.
"Você está deslumbrante esta noite, Elara," ele comentou, sua mão apertando a cintura dela com uma possessividade evidente para todos os presentes.
"A beleza é apenas uma obrigação para alguém na minha posição, não é mesmo?" ela respondeu, mantendo o tom gélido e distante que ele tanto detestava.
Ele soltou uma risada baixa, satisfeita, e a conduziu em direção a um grupo de investidores que aguardavam a sua atenção.
Elara varria o salão com um olhar clínico, seus olhos treinados buscando qualquer falha na segurança ou rostos conhecidos entre a multidão.
De repente, seus olhos encontraram os de uma mulher loira, posicionada perto de uma das colunas de mármore do salão.
Era Seraphina Voss, uma figura conhecida dos tempos em que Elara ainda operava sob o codinome de Ghost nos círculos internacionais.
Seraphina estava impecável em um vestido branco minimalista, sua expressão fria e calculista escondendo anos de segredos compartilhados.
Elara sentiu um choque de reconhecimento atravessar seu corpo, mas manteve a postura impecável de esposa troféu.
"Vou buscar uma bebida, Rodrigo, sinta-se à vontade para finalizar seus negócios," Elara disse, desvencilhando-se suavemente do aperto dele.
Ele hesitou por um momento, mas a presença de seus sócios o obrigou a deixá-la seguir em frente sob o olhar de seus seguranças.
Elara caminhou pelo salão com a graça de uma pantera, aproximando-se lentamente da mesa de bebidas onde Seraphina a aguardava.
"Você parece deslocada em meio a tanta riqueza, Elara," Seraphina sussurrou, sem desviar o olhar do copo que segurava.
"O luxo é apenas uma distração para aqueles que não sabem o preço da verdadeira liberdade," Elara respondeu, também olhando para o horizonte.
As duas mulheres compartilharam um olhar sutil, um código de sobrevivência que as unira em missões passadas em cenários muito mais perigosos.
"Eu ouvi dizer que você tinha desaparecido," Seraphina comentou, sua voz mantendo um tom de conversa social para quem estivesse ouvindo.
"O mundo é pequeno demais para quem sabe como se esconder nas sombras," Elara retrucou com um leve sorriso sarcástico.
Seraphina aproximou-se ligeiramente, diminuindo a distância entre elas enquanto fingia arrumar o decote do vestido.
"Rodrigo está mais cego do que eu imaginava, ou talvez ele só precise de um empurrão para cair de vez," a loira comentou.
Elara sentiu o coração acelerar, entendendo que Seraphina estava oferecendo uma aliança estratégica contra o homem que as mantinha ali.
"O que você tem em mente para esse pequeno teatro?" Elara perguntou, sua voz quase inaudível devido à música do salão.
Seraphina fingiu rir de um comentário aleatório de um passante antes de voltar a focar em Elara com um brilho de conspiração.
"Eu tenho acesso aos protocolos de entrada da ala oeste, mas preciso de alguém que saiba como desativar os sensores," Seraphina sussurrou rapidamente.
Elara manteve a calma, seus dedos roçando levemente a mão de Seraphina sobre o tampo da mesa de vidro.
"Eu conheço cada bit desse sistema de segurança, ele não mudou desde que trabalhávamos juntas," Elara garantiu, sua mente já desenhando o mapa.
"Então estamos de acordo que o Império Souza está precisando de uma nova administração?" Seraphina questionou com um brilho de malícia.
Elara não respondeu com palavras, apenas confirmou com um aceno quase imperceptível de cabeça enquanto bebericava sua taça.
Seraphina, com uma destreza de prestidigitadora, tocou a palma da mão de Elara, deslizando um objeto frio e metálico para a sua pele.
Era uma pequena chave mestra, banhada em prata, capaz de abrir as passagens de serviço que levavam aos túneis sob a mansão.
"Não perca isso, o tempo é o nosso maior inimigo a partir de agora," Seraphina sussurrou antes de se afastar com elegância.
Elara sentiu o peso da chave em sua mão e a escondeu dentro da clutch de seda, um símbolo de sua futura fuga.
"Seraphina, espere um minuto," Rodrigo chamou, aparecendo de repente atrás delas e interrompendo a interação.
Elara sentiu uma pontada de ansiedade, mas sua máscara de tranquilidade permaneceu intocável diante dele.
"Rodrigo, estava apenas trocando amenidades sobre a decoração com a senhora Voss," Elara disse, fingindo uma naturalidade forçada.
Ele estreitou os olhos para as duas, buscando qualquer indício de conspiração por trás daquela fachada de mulheres da alta sociedade.
"A senhora Voss é uma mulher muito ocupada, não quero que a incomode com futilidades, Elara," Rodrigo comentou, sua voz carregada de uma suspeita velada.
"Apenas estávamos falando sobre moda, Rodrigo, não se preocupe com nossas conversas femininas," Seraphina rebateu com um sorriso gélido.
Rodrigo sustentou o olhar com Seraphina por um longo momento, uma tensão silenciosa pairando entre os dois como uma tempestade prestes a estourar.
"Sendo assim, espero que aproveitem o restante da noite, temos muito trabalho a fazer," ele disse finalmente, puxando Elara pelo braço.
Enquanto era conduzida para longe, Elara olhou para trás e viu Seraphina observando-a com uma promessa silenciosa de lealdade.
A chave estava em seu poder, e com ela, a possibilidade de retomar sua vida e destruir Rodrigo de dentro para fora.
O jantar de gala, que antes parecia um pesadelo sem fim, agora se tornava o palco de sua vingança silenciosa.
Ela sabia que cada segundo ali era um risco, mas o perigo nunca a assustou, pelo contrário, sempre a impulsionou.
A mansão, com toda a sua segurança impecável, não parecia mais tão intransponível quanto na noite anterior.
Ela sorriu internamente, sabendo que Rodrigo estava jogando xadrez, mas ele não percebeu que ela já tinha mudado o tabuleiro inteiro.
O jogo estava longe de acabar, mas, pela primeira vez em cinco anos, o Ghost estava de volta ao comando da situação.