Capítulo 9: O Jantar das Máscaras
O restaurante era um daqueles templos da alta gastronomia onde o silêncio era tão caro quanto o vinho servido em taças de cristal lapidado. Bia, vestindo o terno impecável de Lorenzo, sentia o peso do olhar de Dona Helena, a matriarca da família Montenegro, que observava cada movimento seu com uma lupa invisível e cruel.
"Você está diferente, Lorenzo, e não estou falando apenas desse seu novo corte de cabelo estranho," Helena comentou, repousando os talheres de prata sobre a porcelana com um ruído seco.
Bia forçou um sorriso gélido, o mesmo que Lorenzo usava para desmantelar seus oponentes em salas de reuniões, e sentiu uma pontada de desdém pela mulher que criara um monstro frio.
"As pessoas mudam quando percebem que o tempo é um recurso que não pode ser recuperado com dinheiro, mãe," Bia respondeu, mantendo a voz grave e autoritária.
Helena estreitou os olhos, sentindo que a familiaridade que esperava encontrar no filho tinha sido substituída por algo novo, perigoso e completamente desconhecido.
"Você sempre foi um filho obediente, mas hoje parece que está tentando me testar, ou talvez esteja apenas querendo se esconder atrás de uma máscara de independência," ela retrucou com veneno em cada sílaba.
"A obediência é um luxo que eu não posso mais me dar se quero manter este império de pé contra os abutres da família," Bia disse, desviando o olhar para a janela onde a cidade pulsava, sentindo se um peixe fora d'água naquele ambiente de luxo sufocante.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Lorenzo vivia o momento mais humilhante de sua vida em um apartamento pequeno e úmido no centro, tentando jantar um macarrão instantâneo que tinha gosto de papelão.
Ele estava sentado em uma cadeira de plástico quebrada, observando uma goteira que insistia em cair exatamente sobre seu prato enquanto a televisão exibia uma reprise de um programa de auditório de qualidade duvidosa.
"Quem diria que o homem que jantava lagosta com o embaixador terminaria comendo isso aqui, acompanhado apenas pelo barulho de uma infiltração?" Lorenzo murmurou para o vazio, sentindo uma pontada de amargura que tentou conter com um suspiro pesado.
Ele tentou ligar a televisão em um canal de notícias financeiras, mas o sinal estava tão ruim que só encontrava estática e interferências constantes.
O contraste entre a vida que ele tinha, cheia de conforto e desprovida de humanidade, e a vida de Bia, cheia de dificuldades, mas vibrante de emoções puras, tornava se cada vez mais difícil de processar.
"Pelo menos aqui, nesse silêncio de pobreza, eu começo a ver as rachaduras na minha própria fachada de perfeição," ele confessou para si mesmo, enquanto a goteira continuava a pingar incessantemente sobre a mesa.
De volta ao restaurante, a tensão entre Bia e Helena atingiu o ápice quando a mãe de Lorenzo mencionou os planos para o casamento de conveniência com a filha de um banqueiro influente.
"Eu não me importo com os seus jogos de poder, Lorenzo, eu quero saber quando você vai selar essa união que garante a estabilidade dos nossos ativos," Helena insistiu, ignorando os olhares dos outros convidados.
Bia sentiu uma onda de fúria genuína subir pelo peito ao perceber como Helena tratava seu próprio filho como um objeto de negociação comercial.
Ela colocou a mão sobre a mesa, não para demonstrar afeto, mas para sinalizar o fim daquela conversa inútil e humilhante.
"O seu projeto de casamento está encerrado, pois eu não vou vender a minha vida em troca de uma fatia de mercado," Bia disparou, sua voz ecoando por todo o restaurante e fazendo com que o maître se aproximasse com cautela.
Helena ficou estática, com a boca entreaberta, jamais tendo ouvido um tom tão firme vindo do filho que ela sempre soube como manipular e direcionar.
"Como você ousa falar comigo desse jeito, depois de tudo que eu sacrifiquei para garantir que você tivesse esse lugar de destaque no mundo?" ela perguntou, com a voz tremendo de uma indignação autoritária.
"Talvez o sacrifício tenha sido o seu erro, porque o que você criou não foi um homem, foi apenas uma extensão de sua própria ganância," Bia retrucou, levantando se e jogando o guardanapo de linho sobre a mesa com desdém.
Ela não olhou para trás enquanto caminhava em direção à saída, sentindo que tinha acabado de quebrar o último elo que a prendia àquela farsa de família Montenegro.
Helena permaneceu sentada, cercada pelo luxo que agora parecia vazio, enquanto Bia saía pela porta giratória para o ar frio da noite paulistana.
"Espero que tenha gostado do jantar, mãe, porque foi a última vez que você teve a chance de tentar me controlar," Bia sussurrou para si mesma enquanto entrava no carro blindado que a esperava.
Lorenzo, no apartamento de Bia, observava a chuva que começava a bater na janela, sentindo uma paz inesperada ao perceber que, pela primeira vez em anos, ele não precisava ser o CEO intocável.
Ele pegou um caderno velho que encontrou embaixo de uma pilha de roteiros e começou a escrever, não sobre ações, mas sobre como era sentir a fome real de alguém que luta para ser notado.
"Talvez a vida simples não seja uma maldição, mas um lugar onde a gente finalmente descobre quem somos quando ninguém está olhando," ele escreveu, sentindo que aquela experiência de Bia tinha sido uma lição necessária.
Ele sabia que Bia estava lidando com o inferno particular de sua família, e a vontade de estar lá ao lado dela, para protegê la, era quase insuportável.
Eles estavam ligados por uma corrente que nem mesmo o destino podia quebrar, dois estranhos unidos pela coragem de desafiar o que sempre aceitaram como verdade absoluta.
Bia, no carro, abriu o celular e viu a mensagem de Lorenzo, sorrindo ao ver a determinação dele em encontrar significado na vida comum de um artista. Ela sabia que a luta final contra Vitor estava cada vez mais próxima e que o confronto com Helena era apenas um aperitivo do que estava por vir.
"A diretoria não vai saber o que os atingiu, e Vitor vai entender que o seu sobrinho, do jeito que ele conhecia, deixou de existir," Bia pensou, olhando para a própria imagem no espelho do carro blindado.
Ela era a máscara, ela era o CEO, mas, acima de tudo, ela era a pessoa que finalmente tinha recuperado o controle sobre seu próprio destino.
O Jantar das Máscaras tinha sido um sucesso, pois tinha despojado Lorenzo das ilusões de poder que o mantinham preso em uma redoma de ouro.
A noite terminou com a promessa silenciosa de que, não importa o custo, eles sairiam daquela experiência como pessoas renascidas.
Vitor, Helena e todos os outros peões daquele jogo estavam prestes a ser varridos pelo tsunami de verdades que eles estavam preparando para revelar ao mundo.