Capítulo 1: O Espelho Quebrado
A chuva em São Paulo não caía; ela chicoteava. O céu sobre a Avenida Paulista estava de um cinza chumbo opressivo, espelhando perfeitamente o humor de Lorenzo Montenegro. Ele estava sentado no banco de couro legítimo de sua Maybach, os dedos longos e impecáveis batendo um ritmo impaciente no vidro do tablet.
"O cronograma está apertado, senhor Montenegro," a voz do motorista soou como um sussurro abafado através da divisória de vidro.
"Não me importa o cronograma, Ricardo. Importa a aquisição," respondeu Lorenzo, a voz fria, despida de qualquer humanidade.
"Se aquela empresa não for nossa até o final do dia, você pode procurar um novo emprego."
Para Lorenzo, o mundo era uma equação de perdas e ganhos. Ele era o rei do silêncio, o CEO que desmantelava corporações com um simples movimento de caneta.
Seus olhos cinzentos não viam pessoas; viam ativos. Ele estava a caminho de uma reunião decisiva no centro histórico, um lugar que seus sócios insistiam ser estratégico, embora ele o achasse decadente e sujo.
Três quilômetros dali, Bia Lacerda corria como se o próprio diabo estivesse em seu encalço.
"Por favor, senhor, só mais cinco minutos! Eu garanto que o material é bom!" ela implorou, o fôlego curto, os cachos castanhos grudados no rosto pela umidade insuportável.
"O teste acabou, garota. A vaga já foi preenchida. Saia daqui antes que eu chame a segurança," o produtor, um homem com um olhar gordo de desprezo, fechou a porta de vidro na cara dela.
Bia socou a parede do corredor. A humilhação ardia mais do que a fome. Ela estava exausta de ser a “garota das pontas”, a que servia café, a que recebia olhares lascivos e propostas indecentes em troca de uma fala. Ela caminhou, trêmula, em direção ao elevador de serviço, o único que ainda funcionava no prédio decadente.
O destino, ou talvez um senso de humor divino e cruel, decidiu que era hora de o caminho dos dois se cruzar.
Lorenzo entrou no elevador VIP do prédio de sua filial no centro, olhando o relógio de pulso — uma peça suíça que custava mais do que todo o edifício onde Bia estava.
Quando a porta se abriu no andar de serviço, ele entrou, sem olhar para cima, focado apenas no contrato que revisava.
O elevador soltou um estalo metálico. Um grito agudo de metal contra metal rompeu o silêncio do poço.
"O que está acontecendo?" Lorenzo largou o tablet, a calma profissional finalmente vacilando.
O painel de controle explodiu em faíscas vermelhas. O elevador não apenas parou; ele despencou.
A gravidade tornou-se uma entidade inimiga. Bia caiu contra a parede, sentindo o impacto arrancar o ar de seus pulmões. Lorenzo, instintivamente, tentou agarrar o corrimão, mas o movimento foi em vão.
No último segundo, seus olhos se encontraram. O cinza gélido de Lorenzo e o âmbar vibrante de Bia.
"Segure-se!" ele gritou, tentando alcançá-la, mas o elevador parecia flutuar em um vácuo antes do choque final.
Um clarão branco, impossível e cegante, inundou o cubículo de metal. Não houve o impacto da queda final. Houve apenas a sensação de estar sendo rasgado, esticado e costurado de volta em um tecido que não era o seu.
...
Lorenzo abriu os olhos. O cheiro de mofo, fritura barata e o barulho de uma televisão velha em volume máximo o atingiram como um soco. Ele tentou se levantar, mas seu corpo parecia estranhamente leve, sem a massa muscular à qual estava acostumado.
"Bia! Acorda, garota, o atraso pro seu bico vai sair do seu salário! Se não descer em cinco minutos, esquece a diária!" uma voz feminina gritou do outro lado da porta.
Ele olhou para as mãos. Eram mãos pequenas, sem os anéis de sinete, com as unhas curtas e pintadas de um esmalte lascado. Ele correu para o espelho do banheiro — uma peça manchada e pendurada por um prego.
"O que é isso? Que tipo de brincadeira é essa?" ele perguntou, mas o grito que saiu de sua garganta era fino, agudo e desesperado.
O reflexo não era o do CEO de terno sob medida. Eram cachos selvagens e olhos âmbar arregalados de terror absoluto.
Enquanto isso, em uma cobertura cinematográfica nos Jardins, Bia sentiu o peso. Ela acordou com a sensação de estar dentro de uma armadura. Sua cabeça latejava, mas não pela fome habitual, e sim por uma tensão latente.
Ela se levantou. O chão de mármore estava frio sob seus pés. Ela passou as mãos pelo rosto e sentiu algo áspero — a barba por fazer de uma noite de trabalho excessivo.
Ela correu até o closet, onde um espelho de corpo inteiro, emoldurado em ouro, a esperava.
Ela parou diante dele. O homem que a olhava de volta era o mesmo que ela vira no elevador. O olhar era frio, a postura era a de um predador, e o corpo era o de um homem que podia dobrar o mundo com um olhar.
"Eu... eu sou o Montenegro?" ela sussurrou, a voz grave e autoritária vibrando em seu próprio peito.
O tom de voz a fez recuar um passo, tropeçando nos próprios pés. "Isso é um sonho. Tem que ser."
Ela tateou o bolso do paletó de grife. Um celular caro, bloqueado por reconhecimento facial. Ela o posicionou diante dos olhos, e o aparelho desbloqueou instantaneamente. Uma mensagem piscava na tela: “A transferência de ações será assinada às 14h. Não falhe, Lorenzo.”
O pânico foi total. Nas sombras do corredor da mansão, uma figura observava tudo através de uma câmera camuflada na parede, escondida atrás de uma estante de livros antigos.
Vitor Montenegro, o tio de Lorenzo, sorriu, desligando o monitor com um gole lento de uísque.
"O elevador não foi um acidente, meu caro sobrinho," Vitor sussurrou para a sala vazia, com um brilho de triunfo nos olhos. "Foi apenas o começo da sua ruína."
Bia, no corpo de Lorenzo, sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mesmo sem entender a origem daquela sensação. Ela não sabia como, ela não sabia por que, mas sentia que o "seu" novo corpo trazia consigo um fardo que ela não estava preparada para carregar.
A guerra havia começado, e eles eram os peões no tabuleiro de alguém que odiava a existência de ambos.
"Quem é você?" ela perguntou ao reflexo, como se esperasse que o rosto do CEO respondesse. "E onde é que você se meteu?"
Do outro lado da cidade, Lorenzo, agora preso no corpo de uma atriz falida, olhava para a porta trancada do cortiço. Ele precisava sair. Precisava entender o que havia acontecido. Ele não seria Lorenzo Montenegro se não encontrasse uma saída para o caos.
"Muito bem," ele murmurou, a voz de Bia soando firme pela primeira vez naquela manhã. "Vamos ver quem está por trás desse pesadelo."