Se ele não tivesse visto, sete minutos atrás, a foto enviada por Tiago, provavelmente até ele mesmo teria acreditado...
Na imagem, com luz baixa, era evidente o que eles estavam fazendo.
O mais irônico é que, naquela mão que abraçava Tiago, ainda estava a aliança que elas chamavam de símbolo de seu "amor único".
Beatriz só apareceu no dia em que ele recebeu alta.
Ao ver as manchas vermelhas em seu corpo que ainda não haviam desaparecido, um lampejo de culpa brilhou em seus olhos; ela hesitou por um longo tempo antes de falar.
— Desculpe, Arthur. Eu estava tão preocupada na hora que não percebi...
— E então? — Arthur ergueu os olhos para encará-la diretamente. — O médico disse que, se tivesse demorado mais alguns minutos, eu teria morrido. Você acha que pode resolver isso com uma frase?
— Tiago não fez por querer. — Beatriz demonstrou uma certa irritação, respondendo de forma displicente. — Além disso, você não está bem agora? Por que insiste em se prender a algo tão insignificante?
Arthur ouviu em silêncio, uma amargura indescritível subindo em seu peito.
Antigamente, se ele espirrasse, ela cancelaria contratos milionários para acompanhá-lo pessoalmente ao hospital.
Ele a achava exagerada, mas, toda vez, ela lhe dizia muito seriamente:
— Arthur, contanto que seja algo sobre você, é sempre a coisa mais importante do mundo.
E agora, ele quase morrera, e ela dizia que era uma coisa insignificante.
Talvez por perceber que seu tom tinha sido duro demais, Beatriz hesitou e suavizou a voz.
— Tudo bem, hoje é seu aniversário. Mandei preparar uma surpresa especialmente para você. Vamos lá ver.
Dito isso, ela o arrastou sem hesitar para o carro lá embaixo.
O veículo estacionou na porta do restaurante francês favorito de Arthur.
Mas, quando a cortina se abriu, ao ver a cena diante de si.
As pupilas de Arthur se contraíram e seu olhar ficou paralisado.
Na tela grande do restaurante, brilhava a sua própria foto em preto e branco; ao lado, havia várias coroas de flores e, nos alto-falantes, tocava uma melodia de funeral.
Beatriz, que acabara de desligar o telefone e entrado, ainda não sabia o que tinha acontecido e abraçou a cintura dele, sorrindo.
— Gostou tanto assim? Está até hipnotizado.
— Se você se comportar direitinho daqui para frente, seremos como antes...
A meio caminho, sua voz cessou abruptamente, seus olhos cheios de uma fúria absoluta.
— Onde está o dono desse lugar?! Saia aqui agora! Quantas vezes eu disse que hoje é aniversário do meu marido? É assim que vocês trabalham?!
— Sra. Beatriz, você está sendo injusta conosco.
O dono, suando frio de medo, olhou cautelosamente para a expressão dela.
— Foi tudo o Sr. Tiago quem pediu pessoalmente para decorar assim...
Capítulo 5
Beatriz hesitou por um momento, mas a fúria em seu olhar diminuiu significativamente.
— Chega, mande retirar tudo isso. Com certeza houve algum mal-entendido, Tiago com certeza...
— Ele é inocente de novo, não é?
Arthur sentiu seus olhos arderem de raiva e levou um longo tempo até conseguir articular qualquer som.
— Beatriz, você mesma acredita no que está dizendo?
Ao ouvir isso, ela hesitou um pouco e desviou o rosto de forma antinatural.
No momento em que o ar parecia estagnado, o toque agudo de um telefone quebrou o silêncio.
A ligação foi atendida e, imediatamente, a voz trêmula e soluçante de Tiago, quase inaudível de tão desesperada, preencheu o ambiente.
— Beatriz, as crianças... as crianças desapareceram!
A expressão de Beatriz mudou drasticamente, tornando-se sombria como uma tempestade prestes a desabar.
— Não se desespere, estou voltando agora mesmo!
Arthur esboçou um sorriso amargo e estava prestes a se virar para sair.
Mas, no segundo seguinte, seu pulso foi agarrado com tal força que parecia que seus ossos seriam esmagados.
A maldade transbordava dos olhos de Beatriz enquanto ela falava, cerrando os dentes.
— Arthur, sete anos depois, quando foi que seus métodos se tornaram tão vis? Ser capaz de atacar até mesmo crianças pequenas!
Arthur sentiu o rosto empalidecer de dor, mas ainda ergueu a cabeça com teimosia.
— Você diz que fui eu. Onde estão as provas?
Um lampejo de dúvida passou pelos olhos de Beatriz, mas foi instantaneamente soterrado por uma onda de fúria ainda maior.
— Em São Paulo, quem não sabe que você vê Tiago como uma pedra no sapato? Além de você, quem mais poderia ser?
Ela fez uma pausa, um sorriso leve e enigmático cruzando seus lábios.
— Mas pode ficar tranquilo, como te amo tanto, não sou capaz de te ferir. No entanto... com certeza haverá alguém que me substituirá para te ensinar uma boa lição.
Antes que Arthur pudesse compreender o significado de suas palavras, sentiu algo ser pressionado contra seu nariz e boca, e perdeu a consciência.
Ao abrir os olhos novamente, percebeu que estava na mansão da família.
Não era preciso dizer quem o havia enviado de volta.
Mas ele sentia um cansaço tão profundo que não tinha sequer forças para chorar.
Ela sabia muito bem que a mãe de Arthur o odiava com todas as forças, sabia o que ele enfrentaria ao retornar àquela casa.
E, ainda assim, ela o fez.
Outrora, foi ela quem, com as próprias mãos, o tirou daquela mansão, oferecendo-lhe um lar que o protegia das tempestades.
Agora, foi ela mesma quem, com as mesmas mãos, o empurrou de volta para aquele antro de horrores.
Ele mal havia levantado a cabeça quando um golpe violento atingiu seu rosto!
— Filho desnaturado!
Sua mãe estava com os olhos injetados de sangue, encarando-o com ódio e gritando a plenos pulmões.
— Eu ainda estou viva e você já tem a ousadia de sequestrar seu irmão na maior cara de pau! Como pude gerar um verme tão sujo como você!
Arthur engoliu o gosto metálico de sangue que subia pela garganta e olhou para Tiago, que fingia enxugar as lágrimas ao lado.
— Mãe, você é traída tão descaradamente e não tem a menor ideia... você é realmente estúpida ao extremo!
Um estalo seco ecoou pela sala!
Irritada, sua mãe desferiu outro golpe, sua expressão distorcida em um horror absoluto.
— Canalha! Tiago é um mais velho para você, como ousa caluniá-lo dessa maneira!
— Alguém, tragam os instrumentos de punição familiar! Quero ver até quando essa sua boca continuará tão petulante!
O mordomo, sem suportar a cena, aconselhou em voz baixa.
— Senhora, nem mesmo alguém saudável suportaria esse castigo, quanto mais o jovem mestre, que acabou de sair do hospital e ainda não se recuperou totalmente, ele...
— Parem de falar! Tragam o chicote!
Diante disso, o mordomo não ousou mais intervir e trouxe o chicote.
Arthur foi pressionado contra o chão, e o chicote, grosso como um braço, desferiu golpe após golpe com violência absoluta contra suas costas!
A dor excruciante da pele sendo rasgada puxava seus nervos, as roupas foram estraçalhadas, e cada marca de sangue era profunda o suficiente para atingir os ossos. Ao final, não restava um único pedaço de pele intacta em todas as suas costas.
Arthur sentia uma dor tão insuportável que o rosto ficou branco como papel, seus lábios estavam tão mordidos que sangravam, mas ele se recusou a soltar qualquer som de lamento.
No fim, ele desmaiou de dor pura.
Trim, trim, trim...
Arthur foi despertado pelo toque urgente de um telefone.
Ele suportou a dor lancinante da pele em carne viva nas costas e atendeu.
Do outro lado da linha, o cuidador estava quase chorando de desespero.
— Sr. Arthur, é uma emergência!
— Logo pela manhã, seu pai foi levado por um homem que dizia ser seu padrasto para uma exposição de arte, onde ele está sendo exibido como uma peça de nudez!
Capítulo 6
Um zumbido soou na mente de Arthur, e todo o sangue em seu corpo pareceu correr na direção oposta.
Ignorando a dor em seu próprio corpo, ele correu desesperadamente até a entrada da exposição.
Lá, viu seu pai, inconsciente, despojado de suas roupas e jogado no centro da galeria, enquanto inúmeras câmeras com flashes brilhantes cercavam o local!
Algumas crianças travessas já montavam sobre o pai, gritando insultos.
— Esse cachorro fedorento, por que ele não se mexe!
Ao ver que o pai não reagia, uma das crianças ainda pisou no rosto dele, gritando sem parar.
— Cachorro morto! Nem cavalinho você sabe brincar, vou te bater até morrer!
Ao redor, o som de risadas era ensurdecedor, enquanto observavam o pai sendo pisoteado como um animal.
— Seus monstros!
Arthur tremia de fúria, pegou um vaso e arremessou contra os espectadores, que riam da humilhação.
— Sumam todos daqui! Saiam!
A multidão foi intimidada por sua postura e, por um momento, o silêncio pairou no ar.
— Arthur, você chegou?
Uma voz cheia de escárnio veio de trás dele.
Tiago aproximou-se sorrindo, com um tom de voz displicente.
— Sinto muito pelo que aconteceu ontem, na verdade as crianças fugiram para brincar, eu pensei que fosse...