Capítulo 1
Sete anos após a morte de sua esposa.
Arthur recebeu uma notificação de agendamento para uma cirurgia de laqueadura em nome dela.
Ele encarou a tela do celular por um longo tempo, com a mente em total confusão.
Em São Paulo, todos sabiam da história: sete anos atrás, um acidente de carro.
Beatriz morreu para salvá-lo, o carro ficou destruído e ela não sobreviveu.
Mas agora, o que significava aquela mensagem?
Movido pela curiosidade, Arthur pegou um táxi e foi até o hospital mencionado na mensagem.
Porém, assim que chegou à porta da sala de cirurgia e viu aquela pessoa, tão familiar que parecia gravada em seus ossos, deitada na cama de hospital.
Seus passos travaram bruscamente e seu sangue pareceu congelar instantaneamente.
Então, Beatriz realmente não estava morta…
Mas antes que ele pudesse se recuperar do choque.
Ele viu algumas mulheres que, naquela mesma manhã, o chamavam de cunhado e o aconselhavam a aceitar o luto.
Elas estavam ao redor da cama de Beatriz, rindo e brincando.
— Não acredito, Bia! Você realmente fez a laqueadura?
— Parem de falar besteira!
Talvez por ter acabado de sair da cirurgia, Beatriz estava pálida, mas ainda assim levantou a mão e deu um soco na amiga.
— Tiago tem insistido tanto para termos o quarto filho. Na última gravidez, ele precisou tomar tantos remédios por causa da baixa contagem de espermatozoides para recuperar a saúde, como eu poderia deixá-lo sofrer de novo?
Todas as presentes suspiraram, exclamando maravilhadas.
— O cunhado é bom mesmo, hein! Conseguir transformar nossa querida herdeira, que antes preferia levar chicotadas a baixar a cabeça, nesse ponto... eu realmente admiro!
Nesse momento, alguém no meio da multidão comentou:
— Ah! Vocês já pensaram se aquele idiota do Arthur descobrisse que a Bia não só está viva, como está se envolvendo com o próprio padrasto dele, será que ele enlouqueceria?
— Cale a boca!
Beatriz repreendeu com firmeza, sua voz carregada de uma autoridade inquestionável.
— De qualquer forma, Arthur é o único marido que reconheci nesta vida. Quem lhes deu a ousadia de falar dele assim?
O silêncio reinou ao redor.
Depois de um bom tempo, alguém falou em voz baixa:
— Então, Bia, até quando você pretende manter essa farsa de que morreu? Nós já estamos cansadas de esperar.
Beatriz ficou atordoada por um momento, antes de responder com voz grave.
— Só mais alguns dias.
— Quando chegar a hora, direi que fui salva por um desconhecido após o acidente há sete anos, mas que perdi a memória e só recuperei tudo recentemente.
Elas se entreolharam, hesitantes.
— Se fosse outra pessoa, essa desculpa não teria problema algum.
— Mas... Arthur é conhecido por seu alto nível de inteligência. Nem aquelas velhas raposas da família dele conseguiram enganá-lo. Ele acreditaria em uma história tão esfarrapada?
— Ele é inteligente, é verdade.
Beatriz sorriu levemente, com um olhar de total autoconfiança.
— Mas não se esqueçam: nesses sete anos, as pretendentes quase derrubaram a porta da casa dele. Ele jurou pureza por mim e anunciou publicamente que nunca mais se casaria.
— Ele me ama tanto que, o que quer que eu diga, ele não acreditaria?
Arthur apertou a moldura da porta com tanta força que seus dedos ficaram brancos, e um gosto amargo e avassalador subiu por sua garganta.
Sim, ela estava certa.
Ele acreditava nela. Acreditava quando ela dizia que o amava, acreditava que ela havia morrido para salvá-lo e acreditava que ela nunca lhe esconderia nada.
Ele foi tolo o suficiente para acreditar nela por sete anos, mas o que recebeu em troca foi o dia de hoje…
Ela estava realmente se envolvendo com o padrasto dele!
Arthur fechou os olhos, tomado pela humilhação, e as lágrimas escorreram.
Seis anos atrás.
Tiago não era o padrasto por quem ele sentia um ódio profundo hoje, mas sim seu melhor amigo na época.
Ele não tinha muitos estudos e logo se casou e teve filhos.
Mas pouco tempo depois, a ex-esposa o traiu com um segurança e o forçou a sair de casa sem nada.
Arthur não suportou vê-lo vagando pelas ruas e o trouxe para morar em sua casa.
Pagou pelos seus estudos e gastou fortunas levando-o para viajar pelo mundo para espairecer.
O pai de Arthur o tratava como um filho, deixando-o estagiar na empresa da família e presenteando-o com ações que valiam bilhões.
Reconheceu-o publicamente como filho adotivo, dando-lhe a chance e o status para recomeçar.
Naquela época, Tiago segurou as mãos dele e de seu pai, com os olhos marejados de gratidão.
— Arthur, no futuro, eu certamente retribuirei tudo o que você e seu pai fizeram por mim.
Mas quem poderia imaginar que a tal retribuição seria ter um caso com a mãe de Arthur.
Aquele que um dia disse odiar traidores, acabou se tornando o terceiro elemento na relação dos pais dele.
O pai de Arthur ficou mentalmente abalado na hora, passando o resto da vida confinado a uma cama de hospital.
Arthur entrou em colapso e tentou levar o caso aos tribunais, mas foi silenciado pela carta de perdão escrita pela própria mãe.
Uma era a mãe que o mimou a vida inteira, o outro era seu melhor amigo de dez anos.
Diante dessa dupla traição, quando ele estava prestes a enlouquecer.
Beatriz apareceu.
Foi ela quem, incansavelmente, o ajudou a organizar as provas, correndo o risco da falência para recorrer quantas vezes fosse preciso.
Foi ela quem o acompanhou naquelas noites insuportáveis, sacrificando metade de sua própria vida para arrancá-lo da beira da morte.
E foi ela quem prometeu nunca, em todas as encarnações, traí-lo.
— Arthur, o fato de eu te amar é como o sol que nasce e se põe: nunca mudará.
Mas agora, nem sete anos se passaram, e o "para sempre" dela já havia apodrecido...
O peito de Arthur ardia como se tivesse sido marcado por um ferro em brasa, uma dor que o impedia de respirar.
— Beatriz!
O fluxo de seus pensamentos foi interrompido por uma voz feminina conhecida, vindo de não muito longe.
Arthur olhou na direção da voz e viu Tiago correndo para dentro, com os olhos vermelhos, jogando-se diante da cama de Beatriz.
— Você é louca? Por que você faria... qualquer coisa por mim?
No rosto pálido de Beatriz, havia uma ternura infinita, e sua voz soava suave demais.
— Não chore, eu fiz isso de livre e espontânea vontade.
A mulher apertou as mãos dele, com a voz embargada.
— Você fez tanto por mim, como vou explicar isso para o Arthur depois?
— Não diga essas coisas.
Beatriz estendeu a mão para secar a umidade nos olhos dele, seus olhos cheios daquele amor que Arthur conhecia tão bem.
— Comigo aqui, ninguém poderá te prejudicar.
— Além disso, escondi isso por sete anos e ele nunca soube de nada, como ele poderia desconfiar de repente agora —
Antes que ela terminasse a frase, Arthur deu um passo à frente, levantou o vaso de plantas que estava ao lado e o arremessou com toda a força contra elas!
— Sinto muito por estragar a festa, mas eu acabei de descobrir!
Capítulo 2
Tiago cobriu o rosto ferido e sangrando pelo impacto do vaso, olhando para ele com total descrença.
— Ar... Arthur?
Já Beatriz, apenas paralisou por um instante antes de retomar sua frieza e indiferença habituais, com um aviso explícito na voz.
— Arthur, quem te enganou fui eu. Se você tem raiva, desconte em mim. Tiago é inocente, você não deveria ter tocado nele de jeito nenhum!
Olhando para os dois, agarrados um ao outro.
Arthur sentiu um nó na garganta e uma dor no peito como se estivesse sendo retalhado.
O vento agitou as mangas de sua camisa; ele baixou os olhos para as incontáveis cicatrizes horríveis em seus pulsos e, de repente, soltou uma risada.
Tiago é inocente? E quanto a ele?
Durante os sete anos em que carregou a culpa e foi torturado até desejar a morte.
Nos momentos em que, em completo desespero, ele cortava os pulsos e roçava a morte repetidamente.
Quando ele se agarrava àquela migalha de amor e rezava aos céus para que o levassem embora.
O que elas estavam fazendo?
Estavam na cama, rindo da sua estupidez e ingenuidade, ou calculando como esconder a farsa por mais tempo, até esgotarem o resto da vida dele?
— Beatriz, já que você não morreu — ele respirou fundo, com a voz baixa, porém anormalmente firme — então, vamos nos divorciar.
Beatriz primeiro ficou atônita, depois franziu as sobrancelhas inconscientemente, seus olhos cheios de impaciência.
— Arthur, o que você está aprontando agora?
— No fim das contas, se você não tivesse envenenado sua mãe para garantir que ela não pudesse ter outros filhos e assim monopolizar o patrimônio, impedindo que Tiago tivesse seus próprios herdeiros na família, eu não precisaria ter me dado ao trabalho de forjar minha morte para ajudá-lo a ter filhos. Tudo o que fiz foi para te ajudar a pagar pelos seus pecados!