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《Entre a Vida e o Mar》PARTE 13

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“Ele voltou ao dia do acidente”

O monitor da UTI já não parecia mais um equipamento médico.

Parecia uma tela tentando entender algo que não conseguia explicar.

As linhas subiam e desciam de forma irregular, depois sincronizavam, depois voltavam ao caos.

E Caio… estava imóvel.

Mas não vazio.

Ele respirou fundo.

E abriu os olhos.

Mas havia algo errado.

Não era o mesmo olhar da UTI.

Não era o mesmo homem.

Helena percebeu imediatamente.

“Caio… você está me ouvindo?”

Ele piscou lentamente.

E respondeu com uma voz diferente:

“Eu não estou aqui agora.”

Silêncio.

O técnico ao lado olhou confuso.

“O que isso significa… ‘não estou aqui’?”

Helena se aproximou.

“Caio, onde você está?”

Ele demorou alguns segundos.

E respondeu:

“No dia 6 de setembro de 1998.”

O ambiente pareceu congelar.

Helena arregalou os olhos.

“Isso é impossível… ele está em estado dissociativo profundo.”

Mas Caio continuou:

“Eu estou de novo no mar.”

E então algo mudou.

O som da UTI começou a desaparecer para ele.

As máquinas.

As vozes.

Os passos.

Tudo foi ficando distante.

E foi substituído por outro som.

Água.

Vento.

Motor acelerando.

Caio respirou mais forte.

E disse:

“Eles estão vindo de novo.”

Helena ficou em choque.

“Quem está vindo?”

Ele respondeu:

“A lancha.”

Silêncio absoluto.

O EEG começou a registrar padrões caóticos.

Mas agora não eram só sinais cerebrais.

Era como se o sistema estivesse tentando acompanhar outra realidade.

O técnico murmurou:

“Isso não é memória… isso é reexecução sensorial completa…”

Helena virou rapidamente.

“O que você quer dizer com isso?”

O técnico respondeu:

“Ele não está lembrando… ele está vivendo de novo.”

Caio fechou os olhos.

E o ambiente da UTI desapareceu completamente para ele.

Agora havia apenas o mar.

O sol forte refletia na água.

O vento cortava o rosto.

A vela do barco tremia.

Ele estava lá.

Inteiro.

Antes do impacto.

E então ele viu algo que não lembrava antes.

Uma segunda embarcação.

Não estava no lado direito.

Nem no horizonte distante.

Estava próxima demais.

E ele ouviu uma voz no rádio:

“Agora.”

Caio congelou.

E sussurrou:

“Isso não aconteceu assim…”

Na UTI, Helena viu os sinais vitais dispararem.

“Caio! Volta pra mim!”

Mas ele não respondeu.

Ele estava no mar.

E agora entendia algo novo.

A trajetória não era aleatória.

A outra embarcação não estava fora de controle.

Ela estava posicionada.

Intencionalmente.

Caio sentiu o impacto se aproximando.

Mas antes disso…

ele viu o rosto.

Na lancha.

Um homem.

Ele não era um estranho.

Caio sussurrou:

“Eu já vi esse rosto antes…”

E então o choque aconteceu novamente.

Mas desta vez, algo diferente ocorreu.

O tempo não quebrou em um único ponto.

Ele se dividiu.

Como se o momento do impacto tivesse sido assistido de vários ângulos ao mesmo tempo.

Caio viu:

Seu corpo sendo atingido.

Seu corpo caindo.

Seu corpo fora da água.

E… outra versão dele ainda no barco.

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Helena observava os monitores enlouquecidos.

“Isso não pode estar acontecendo neurologicamente…”

Mas o técnico respondeu com voz baixa:

“Doutora… o sistema está registrando múltiplas linhas temporais simultâneas.”

Silêncio.

Caio abriu os olhos novamente.

Mas agora havia desespero.

Não medo comum.

Mas algo mais profundo.

“Não foi acidente.”

Helena ficou rígida.

“O que você disse?”

Ele repetiu:

“Não foi acidente.”

E então o padrão do EEG mudou novamente.

Mas agora não mostrava instabilidade.

Mostrava reconhecimento.

Como se o cérebro dele tivesse encontrado uma resposta escondida dentro da própria memória.

Caio falou mais baixo:

“Eles ajustaram a rota.”

Helena deu um passo para trás.

“Quem são ‘eles’?”

Caio respondeu lentamente:

“Eu vi o movimento antes do impacto.”

Silêncio pesado.

E então ele completou:

“Alguém mudou o curso da lancha.”

O monitor cardíaco disparou.

E no sistema hospitalar, uma nova linha apareceu automaticamente:

“MEMÓRIA DE EVENTO RECONSTRUÍDA: INTERFERÊNCIA EXTERNA DETECTADA.”

Helena ficou sem ar.

“Isso não estava no registro original…”

O técnico engoliu seco.

“Está sendo gerado agora…”

Caio virou o rosto lentamente.

E olhou para um ponto fixo no espaço.

Como se estivesse vendo algo além da UTI.

E disse:

“Ele está aqui também.”

Helena seguiu o olhar dele.

Mas não havia nada.

“Quem?”

Caio respondeu:

“O homem da lancha.”

Silêncio absoluto.

E então, pela primeira vez desde o início da crise…

o monitor de segurança mostrou algo externo.

Uma imagem antiga.

Grainy.

Recuperada automaticamente do sistema marítimo arquivado.

Uma embarcação.

A mesma do acidente.

Mas com uma coisa diferente.

Uma figura visível no comando.

Helena se aproximou da tela.

“Isso foi recuperado do arquivo?”

O técnico respondeu, assustado:

“Não… isso não existe mais no banco de dados.”

Helena sussurrou:

“Então quem enviou isso?”

O sistema respondeu sozinho.

Sem comando humano:

“ORIGEM DA REDE: EXTERNA AO TEMPO REGISTRADO.”

Caio abriu os olhos.

E disse uma última frase antes do próximo silêncio:

“Agora eu lembro de tudo.”

E a UTI inteira ficou em silêncio… como se algo do lado de fora tivesse acabado de perceber que ele também estava olhando de volta.

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