“O homem da luz apareceu outra vez”
A UTI não tinha mais sensação de tempo.
Nem de dia.
Nem de noite.
As luzes artificiais mantinham tudo igual, como se o mundo lá fora tivesse sido desligado por engano.
Mas dentro do leito 12, Caio já não estava mais preso ao mesmo tipo de realidade que os outros.
Ele estava acordado.
Mas algo nele havia mudado de frequência.
Helena entrou acompanhada de dois enfermeiros.
Mas parou na porta.
Porque Caio estava olhando fixamente para o teto.
Sem piscar.
Sem respirar com urgência.
Apenas… observando.
“Caio?”
Nenhuma resposta.
O monitor cardíaco estava estável.
Estável demais.
Como se tivesse sido “ajustado”.
Helena se aproximou.
E então percebeu algo estranho.
As pupilas dele não estavam totalmente focadas no ambiente.
Estavam… acima dele.
Como se ele estivesse olhando para algo que ninguém mais conseguia ver.
E então ele falou.
Baixo.
Muito baixo.
“Ele voltou.”
Helena franziu a testa.
“Quem voltou?”
Caio demorou alguns segundos.
E respondeu:
“O homem da luz.”
O enfermeiro ao lado tentou rir nervosamente.
“Pode ser efeito de medicação…”
Mas Helena levantou a mão.
“Não interrompe.”
Caio continuou:
“Ele não está mais longe.”
“Ele está… mais perto do que antes.”
Helena sentiu um leve arrepio.
E então o monitor EEG começou a mudar.
Não em instabilidade.
Mas em padrão repetido.
Como se algo estivesse “sincronizando” com o cérebro dele.
O técnico olhou para a tela.
“Isso não é padrão cerebral normal…”
“Isso parece… resposta externa coordenada.”
Helena se virou rapidamente.
“Coordenada por quem?”
Ninguém respondeu.
Caio piscou lentamente.
E de repente o olhar dele mudou.
Como se tivesse acabado de perceber outra presença dentro da sala.
“Ele não está sozinho agora.”
Helena respirou fundo.
“Caio, olha pra mim.”
Mas ele não olhou.
Ele disse:
“Ele está mostrando outra coisa agora.”
Silêncio.
O monitor cardíaco deu uma leve oscilação.
E então algo impossível aconteceu.
O reflexo da luz no vidro da janela da UTI mudou.
Por um instante.
Como se alguém estivesse de pé atrás de Helena.
Mas não havia ninguém.
Helena percebeu isso imediatamente.
E se virou rápido.
Nada.
Quando voltou o olhar para Caio…
ele estava chorando.
Mas não de dor.
Nem de medo.
Era outra coisa.
“Eu estou vendo duas versões de mim agora.”
Helena travou.
“O que você quer dizer com isso?”
Caio respondeu sem olhar para ela:
“Uma ainda está aqui.”
“E a outra… não voltou inteira.”
O EEG começou a registrar picos duplos.
Dois padrões simultâneos.
Um lento.
Um extremamente acelerado.
O técnico recuou.
“Dra… isso não deveria coexistir.”
Helena não respondeu.
Porque ela também estava vendo.
Na tela do monitor secundário…
aparecia uma linha nova.
Sem origem.
Sem sistema.
Sem comando:
“INTERFERÊNCIA DE CAMPO CONSCIENTE DETECTADA”
Helena deu um passo atrás.
“Isso não está vindo do hospital…”
E então a luz da UTI piscou.
Uma única vez.
Quando voltou…
Caio já não estava olhando para o teto.
Ele estava olhando diretamente para a parede vazia ao lado da cama.
E disse:
“Ele está aqui agora.”
Helena virou imediatamente.
“Não tem ninguém aí.”
Caio respondeu com calma assustadora:
“Tem sim.”
Silêncio absoluto.
E então, por uma fração de segundo…
a câmera de monitoramento da UTI captou algo.
Uma forma luminosa.
Quase imperceptível.
Como distorção de ar.
Mas com contorno humano.
O técnico engasgou:
“Isso não é luz do equipamento…”
Helena se aproximou da tela.
“Amplia.”
A imagem ampliada tremia.
E lá estava.
Algo que não deveria ser possível registrar.
Um contorno vertical.
Brilhante.
Sem rosto definido.
Mas com presença clara.
Caio sorriu levemente.
E disse:
“Ele lembra de mim agora.”
Helena falou com voz baixa:
“Caio… o que é isso?”
Ele respondeu:
“É a parte que ficou do outro lado.”
O monitor cardíaco disparou por um segundo.
Depois estabilizou.
Mas o mais estranho não foi isso.
Foi que o EEG começou a registrar um terceiro padrão.
Helena ficou imóvel.
“Agora são três…”
O técnico sussurrou:
“Doutora… isso não é cérebro humano normal…”
Caio fechou os olhos.
E falou:
“Ele está tentando me juntar de novo.”
Helena se aproximou rapidamente.
“O que vai acontecer se isso continuar?”
Caio abriu os olhos.
E respondeu:
“Eu não sei se vou continuar sendo só um.”