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《Entre a Vida e o Mar》PARTE 11

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“Ele já não acreditava que ainda estava vivo”

O Hospital Copa D’Or já não parecia mais um hospital.

Parecia um lugar suspenso.

Entre falha técnica, colapso de sistema e algo que ninguém ali tinha coragem de nomear em voz alta.

Caio Valente estava de volta à UTI após a tentativa de “transferência”.

Mas algo nele já não respondia ao mundo da mesma forma.

Ele estava acordado.

Mas não parecia acordado.

Os olhos abertos não acompanhavam a realidade.

E o corpo… parecia esperar autorização para existir.

Helena entrou devagar.

Sem pressa.

Porque agora ela sabia que qualquer movimento brusco parecia piorar o estado dele.

“Caio… você consegue me ouvir?”

Ele demorou alguns segundos.

E respondeu com uma voz quase vazia:

“Eu não tenho certeza se ainda estou aqui.”

Helena congelou.

“Como assim?”

Ele piscou lentamente.

E olhou para o próprio braço.

Como se estivesse verificando algo que não confiava mais.

“Eu sinto o corpo… mas ele não responde como antes.”

“E quando responde… parece que não é meu.”

Silêncio.

Helena anotou mentalmente:

desorganização de percepção corporal avançada

Mas aquilo já não parecia apenas neurológico.

Naquele momento, o monitor cardíaco mostrou uma irregularidade leve.

Mas não crítica.

Quase… simbólica.

Como se o corpo estivesse “testando” presença.

Helena se aproximou mais.

“Você lembra onde você está agora?”

Caio hesitou.

E respondeu:

“Num lugar onde eu já estive antes… mas não sei se voltei dele.”

Helena respirou fundo.

E então algo estranho aconteceu.

O EEG começou a estabilizar.

Mas não no padrão normal.

Era um padrão novo.

Ordenado demais.

Limpo demais.

O técnico ao lado murmurou:

“Isso não parece cérebro humano em confusão… parece reorganização total.”

Helena virou imediatamente.

“O que você quer dizer com isso?”

O técnico respondeu baixo:

“Como se ele estivesse se reescrevendo.”

Silêncio.

Caio fechou os olhos.

Mas não dormiu.

Ele apenas ficou imóvel.

E então falou:

“Eu acho que eu morri.”

Helena congelou completamente.

“Caio… não.”

Ele abriu os olhos de novo.

E dessa vez havia algo diferente no olhar.

Não confusão.

Não dor.

Mas certeza.

“Eu vi isso de fora.”

Helena deu um passo para trás.

“Você teve uma experiência dissociativa…”

Caio interrompeu:

“Não.”

“Não foi experiência.”

Silêncio absoluto.

Ele continuou:

“Foi observação.”

O monitor cardíaco deu um pico curto.

E estabilizou.

Helena sentiu um frio na espinha.

E naquele momento, o sistema hospitalar fez algo que não deveria.

A tela principal da UTI piscou.

E exibiu uma mensagem automática:

“ESTADO DE CONSCIÊNCIA NÃO COMPATÍVEL COM PARÂMETROS BIOLÓGICOS PADRÃO.”

Helena olhou para aquilo.

“Isso não existe no sistema…”

E então outra linha apareceu abaixo:

“SUJEITO RELATA PÓS-VIDA EM PRIMEIRA PESSOA CONFIRMADA POR SINCRONIA NEURAL.”

Helena recuou um passo.

“Isso está sendo gerado automaticamente?”

O técnico respondeu:

“Não. Isso não é geração clínica… isso é análise externa.”

Helena ficou imóvel.

“Externa de onde?”

Mas ninguém respondeu.

Caio abriu os olhos novamente.

E agora parecia mais consciente do ambiente ao redor.

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Mas não exatamente presente.

“Eles estão tentando me fazer acreditar que eu voltei inteiro.”

Helena se aproximou.

“O que você quer dizer com isso?”

Ele olhou diretamente para ela.

E disse:

“Eu não voltei inteiro.”

“Só uma parte voltou.”

Silêncio.

O EEG começou a oscilar novamente.

Mas agora entre dois padrões simultâneos.

Helena franziu a testa.

“Dois estados neurológicos ao mesmo tempo…”

Ela virou para o monitor.

E murmurou:

“Isso não é possível…”

Caio continuou:

“Uma parte ficou lá.”

Helena congelou.

“Lá onde?”

Ele respondeu com calma estranha:

“Do outro lado.”

O ambiente pareceu esfriar levemente.

E então o monitor de segurança da UTI perdeu conexão por 3 segundos.

Quando voltou…

um novo registro havia aparecido no sistema.

Sem origem.

Sem autorização.

Sem log de criação:

“PACIENTE CLASSIFICADO COMO FRAGMENTADO”

Helena ficou sem reação.

“Fragmentado…”

Caio virou o rosto lentamente.

E disse:

“Eu acho que não sou mais um só.”

Silêncio absoluto.

Helena tentou manter o controle.

“Caio, isso pode ser efeito neurológico pós-trauma severo…”

Mas ele interrompeu.

“Então por que eu lembro de coisas que ninguém me contou?”

Helena parou.

Ele continuou:

“Coisas que não estão nos meus exames.”

“Nem nos relatórios.”

O técnico ao lado começou a digitar rapidamente.

“Doutora… o histórico dele está mudando sozinho.”

Helena virou bruscamente.

“O quê?”

Na tela:

Alguns trechos do prontuário estavam sendo reescritos.

Em tempo real.

Helena respirou fundo.

“Isso não é possível dentro do sistema hospitalar…”

E então uma última linha apareceu.

“SINCRONIZAÇÃO DE MEMÓRIA ENTRE ESTADO BIOLÓGICO E NÃO BIOLÓGICO INICIADA.”

Silêncio.

Caio fechou os olhos.

E falou baixo, quase como se estivesse ouvindo outra coisa além da sala:

“Agora eles sabem que eu não estou mais sozinho dentro de mim.”

Helena se aproximou rapidamente.

“Caio… o que você quer dizer com isso?”

Ele abriu os olhos lentamente.

E respondeu:

“Eles estão tentando falar comigo também.”

O monitor cardíaco disparou.

E no exato momento em que Helena tentou chamar a equipe…

todas as luzes da UTI piscaram uma única vez.

E apagaram por dois segundos.

Quando voltaram…

Caio estava olhando fixamente para o teto.

E disse:

“Agora não é só eu que lembro.”

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