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《Entre a Vida e o Mar》PARTE 8

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“A perna que ele perdeu começou a andar dentro dos sonhos”

No Hospital Copa D’Or, o silêncio da madrugada não era normal.

Era pesado.

Artificial.

Como se o próprio ar tivesse sido filtrado por algo que ninguém ali conseguia nomear.

Caio Valente já não estava mais sob observação comum.

Ele estava sob contenção neurológica.

Helena ficou parada ao lado do leito por longos segundos sem piscar.

Os monitores tinham voltado a funcionar.

Mas os números não eram reconfortantes.

E o mais estranho não era o corpo dele.

Era a reação dele quando dormia.

Naquela noite, Caio fechou os olhos e não acordou em sonho comum.

Ele acordou no mar.

Mas não no acidente.

Era outro mar.

Mais calmo.

Mais claro.

E, de algum jeito, impossível.

Ele estava de pé.

Sem muletas.

Sem dor.

Sem amputação.

Ele olhou para baixo e viu as duas pernas.

Normais.

Inteiras.

E por alguns segundos, ele esqueceu tudo o que tinha acontecido.

Ele começou a andar.

Depois correr.

Depois correr mais rápido.

O vento batia no rosto com uma sensação que ele não sentia há meses.

Liberdade.

Mas havia algo errado.

O céu não tinha horizonte.

E o mar não tinha fim.

Era como se aquele lugar não obedecesse à lógica do mundo real.

De volta ao hospital, o EEG começou a oscilar.

Helena observou imediatamente.

“Isso não é padrão de REM…”

Ela chamou a equipe.

Mas ninguém respondeu.

Porque todos estavam olhando para o mesmo gráfico.

Ondas cerebrais de movimento físico ativo.

Em um corpo completamente imóvel.

Helena se aproximou do monitor.

“Ele está… executando movimento motor completo?”

A enfermeira respondeu:

“Mas ele está sedado.”

No sonho, Caio parou de correr.

Porque viu algo à frente.

Uma figura.

Imóvel.

Observando ele.

Não era nítida.

Mas tinha forma humana.

E estava no mesmo nível dele.

Como se também estivesse ali “dentro”.

Caio tentou falar.

“Quem é você?”

Mas a figura não respondeu.

Só inclinou a cabeça.

E então aconteceu.

A figura começou a andar.

Mas não como ele.

Não em terra firme.

Ela parecia flutuar entre o mar e o céu.

No hospital, o monitor de frequência cardíaca disparou.

Helena gritou:

“Ele está em taquicardia sem estímulo externo!”

Mas Caio não estava com medo.

No sonho, ele sentia algo diferente.

Reconhecimento.

Como se já tivesse visto aquela presença antes.

“Você estava lá…” ele disse.

A figura não respondeu.

Mas chegou mais perto.

E então o chão do sonho começou a mudar.

O mar virou areia.

A areia virou concreto.

E o concreto virou corredor hospitalar.

Caio parou.

Ele estava agora dentro do próprio hospital.

Mas não era o hospital real.

Era uma versão vazia.

Sem pessoas.

Sem luz natural.

Sem som.

E então ele viu algo que fez seu corpo no leito reagir violentamente.

Ele estava ali.

Deitado.

Ligado aos aparelhos.

Helena gritou:

“Ele está entrando em atividade motora involuntária!”

O corpo de Caio na cama começou a se mover levemente.

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Dedos.

Pé esquerdo.

E então…

A região onde sua perna direita deveria estar.

Mas não era espasmo.

Era padrão coordenado.

Como caminhada.

No sonho, Caio olhou para o próprio corpo deitado.

E disse:

“Eu ainda estou aqui…”

A figura atrás dele respondeu pela primeira vez.

Mas não com voz.

Com pensamento direto na mente dele:

“Você nunca saiu.”

Helena deu um passo para trás.

“Isso não é possível…”

No sonho, Caio tentou tocar o próprio corpo.

Mas sua mão atravessou como se fosse fumaça.

E então a dor voltou.

De repente.

Violenta.

Real.

Como se o cérebro tivesse lembrado da amputação em tempo real.

Ele caiu de joelhos no sonho.

E no hospital, o monitor disparou como nunca antes.

Helena ordenou:

“Reduz sedação imediatamente!”

Mas o anestesista respondeu:

“Já está no mínimo seguro!”

O padrão cerebral de Caio começou a se fragmentar.

Atividade em múltiplas regiões ao mesmo tempo.

Como se dois cérebros diferentes estivessem ativos.

No sonho, a figura se aproximou novamente.

E disse:

“Você aprendeu a andar sem ela.”

Caio olhou para baixo.

Sua perna direita ainda estava lá no sonho.

Mas começou a desaparecer lentamente.

Ele gritou:

“Para!”

E então tudo mudou.

O hospital vazio desapareceu.

O mar voltou.

O céu voltou.

Mas a figura continuava lá.

Desta vez mais perto.

Quase tocando ele.

No hospital real, Helena viu algo que não estava no protocolo médico.

Uma linha nova no EEG.

Nunca documentada.

Nome automático do sistema:

ATIVIDADE DE LOCOMOÇÃO FANTASMA CRUZADA

Ela murmurou:

“Isso não existe na literatura…”

No sonho, Caio finalmente perguntou:

“Você é real?”

A figura respondeu:

“Mais real do que o corpo que você perdeu.”

E então, pela primeira vez, a figura fez algo inesperado.

Ela começou a andar com ele.

Ao lado dele.

No mesmo ritmo.

Como se os dois estivessem aprendendo juntos.

No hospital, o corpo de Caio voltou ao repouso lentamente.

Mas o EEG não estabilizou.

Ele mudou de padrão.

Para algo completamente desconhecido.

Helena olhou para o monitor final e sussurrou:

“Ele não está sonhando…”

E no exato momento em que ela disse isso…

O sistema registrou uma nova atividade.

Algo impossível de ser ignorado:

MOVIMENTO MOTOR SIMULADO EM MEMÓRIA FANTASMA ATIVA

E Caio, ainda no sonho, ouviu a última frase da figura antes de tudo escurecer:

“Agora você vai lembrar como andar… sem precisar voltar.”

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