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《Entre a Vida e o Mar》PARTE 6

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“Ele ouviu a voz depois da morte… e não era humana”

O silêncio da UTI no Hospital Copa D’Or tinha um tipo específico de peso.

Não era ausência de som.

Era presença de algo que não deveria estar ali.

Caio estava acordado há quase duas horas.

Mas ele não dizia nada.

Só olhava para o teto como se estivesse esperando alguém atravessar ele.

Helena observava os monitores.

Tudo normal.

Demasiado normal.

“Isso não faz sentido…” ela sussurrou.

Às 03:17 da manhã, o primeiro fenômeno aconteceu.

O monitor EEG de Caio começou a oscilar.

Não era padrão neurológico típico de sono.

Nem de delírio.

Era algo entre atividade consciente e… outra coisa.

Helena franziu a testa.

“Isso não é epilepsia…”

Ela se aproximou da tela.

As ondas cerebrais estavam formando padrões repetitivos.

Quase como linguagem.

Caio fechou os olhos.

E ouviu.

Primeiro, como um ruído distante.

Depois, como uma voz dentro do próprio ouvido.

Mas não havia ninguém na sala.

A enfermeira de plantão estava no corredor.

Helena estava na frente dos monitores.

E mesmo assim…

A voz veio.

“Você está ouvindo agora.”

Caio abriu os olhos imediatamente.

“Quem está aí?” ele sussurrou.

Silêncio.

Helena virou.

“Você disse alguma coisa?”

Ele não respondeu.

No corredor, a luz piscou três vezes.

Depois estabilizou.

A enfermeira Camila não estava mais lá.

Mas o sistema hospitalar ainda mostrava seu registro ativo.

Helena parou.

“Isso é impossível…”

Ela foi até o terminal.

Digitou o nome.

CAMILA SOUSA — ENFERMEIRA ATIVA

Mas ninguém a via desde a noite anterior.

Na UTI, Caio começou a tremer levemente.

Não de dor.

Mas de reconhecimento.

“Eles estão falando de novo…” ele disse.

Helena se aproximou.

“Quem está falando?”

Caio respondeu baixo:

“Os mesmos de antes.”

O EEG disparou.

As ondas agora estavam sincronizadas.

Como se algo externo estivesse modulando sua atividade cerebral.

Helena recuou um passo.

“Isso é… interferência externa neural?”

Ela nunca tinha visto aquilo.

Na sala de monitoramento, o técnico chamou Helena pelo rádio.

“Doutora Helena… você precisa ver isso.”

Ela correu.

Na tela central, o padrão cerebral de Caio estava sendo replicado.

Não apenas exibido.

Replicado em outro sistema.

“Tem outro equipamento conectado?” ela perguntou.

O técnico balançou a cabeça.

“Não. Não existe conexão física.”

Caio, na UTI, começou a falar sozinho.

Mas não parecia delírio.

Era como se estivesse respondendo algo.

“Eu não queria voltar…” ele disse.

Helena voltou correndo.

“Caio, com quem você está falando?”

Ele virou lentamente.

“Com eles.”

A temperatura da sala caiu dois graus em menos de um minuto.

Helena percebeu no monitor ambiental.

“Isso não é normal… o ar-condicionado não explica isso.”

E então aconteceu o segundo evento.

O áudio ambiente da UTI captou uma voz.

Mas não vinha de nenhum microfone físico.

Não havia alto-falante ativo.

Mesmo assim, todos ouviram.

Uma voz baixa.

Mas perfeitamente clara.

“Ele está estável agora.”

Helena congelou.

“Quem disse isso?” ela gritou.

O técnico tentou rastrear a origem do áudio.

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Resultado:

FONTE NÃO LOCALIZÁVEL

Caio fechou os olhos novamente.

E falou como se estivesse respondendo diretamente à voz:

“Eu não quero voltar lá.”

Silêncio.

Helena se aproximou devagar.

“Voltar onde, Caio?”

Ele abriu os olhos.

E respondeu:

“Do outro lado.”

O EEG explodiu em atividade.

Os padrões agora eram simétricos demais.

Perfeitos demais.

Helena murmurou:

“Isso não é cérebro humano comum…”

Na sala de oração do hospital, o padre responsável pelo capelão hospitalar entrou sem ser chamado.

Ele disse apenas uma frase ao segurança:

“Fui chamado aqui.”

Ninguém tinha feito chamada nenhuma.

Mesmo assim, ele foi autorizado a subir.

Na UTI, Caio começou a olhar fixamente para o canto vazio do quarto.

Helena seguiu o olhar dele.

Não havia nada.

“Caio… o que você está vendo?”

Ele demorou.

E respondeu:

“Eles estão aqui de novo.”

O padre entrou na UTI exatamente nesse momento.

Ele não olhou para os monitores.

Nem para Helena.

Olhou direto para Caio.

E fez o sinal da cruz.

“Ele não deveria estar tão consciente disso…”

Helena virou.

“Consciente do quê?”

O padre hesitou.

“Do limiar.”

Caio começou a falar mais rápido.

“Eles não falam como nós… não usam voz… usam intenção.”

Helena ficou imóvel.

“Quem são ‘eles’?”

O EEG mostrou um pico absurdo.

O técnico gritou do outro lado da sala:

“Doutora… isso não está vindo do cérebro dele!”

Helena respondeu:

“Então de onde está vindo?!”

Silêncio total na UTI.

Todos os equipamentos pararam por 1,8 segundos.

Nem ventilador.

Nem monitor.

Nem luz de alerta.

Nada.

E então voltou.

Mas com um detalhe diferente.

Agora todos os dispositivos mostravam a mesma frase:

“INTERAÇÃO ESTABELECIDA”

Helena olhou para o monitor.

“Interação com o quê…”

O padre respondeu antes de qualquer um:

“Com aquilo que não deveria responder.”

Caio começou a chorar silenciosamente.

Mas não de dor.

De medo.

“Eles disseram que eu não fui o único que voltou…”

Helena se aproximou rapidamente.

“O que isso quer dizer?”

Ele olhou direto para ela.

E respondeu:

“Tem outros como eu.”

O padre fechou os olhos.

“Isso não é uma experiência isolada…”

Helena virou para ele.

“Explique.”

Mas ele não respondeu.

Porque naquele instante…

Todos os monitores da UTI mudaram sozinhos.

E exibiram apenas uma linha:

“CASO CAIO VALENTE — PROJETO CONFIRMADO”

Helena recuou.

“Projeto…?”

Caio sussurrou:

“Eu ouvi isso lá… do outro lado…”

O padre deu um passo para trás.

“Então não foi acidente…”

E, pela primeira vez desde a chegada ao hospital, Caio falou algo que não vinha como resposta.

Mas como lembrança completa:

“Eles me trouxeram de volta porque eu vi o que não devia ver.”

A luz da UTI piscou uma última vez.

E todos os sistemas entraram em modo de gravação automática.

Sem que ninguém tivesse ativado.

Helena olhou para a tela principal.

E leu a mensagem que apareceu sozinha:

“SUJEITO ACORDOU COMPLETAMENTE.”

E, no exato momento em que ela leu…

Caio virou lentamente a cabeça para o canto vazio do quarto.

E disse:

“Eles não querem que eu conte o que existe depois.”

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