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《Entre a Vida e o Mar》PARTE 4

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“Ele começou a voltar ao instante do acidente todos os dias nos sonhos”

A primeira vez que aconteceu, Caio achou que era apenas um sonho comum de trauma.

Mas na terceira noite consecutiva, ele entendeu que não era sonho.

Era retorno.

Sempre o mesmo mar.

Sempre o mesmo som.

Sempre o mesmo segundo antes da explosão.

E sempre a mesma sensação: o corpo sendo puxado para dentro de algo que ele não conseguia controlar.

No Hospital Copa D’Or, a noite parecia mais pesada.

Não havia mais caos de emergência.

Agora havia observação.

Monitoramento.

E silêncio clínico demais.

Helena estava na sala de descanso com um café frio na mão, olhando o relatório psicológico recém-adicionado ao caso.

“Paciente apresenta episódios recorrentes de revivência traumática com intensidade dissociativa.”

Ela leu em voz alta.

E fechou os olhos.

“Não é só PTSD…” ela murmurou.

Na UTI, Caio dormia.

Mas o monitor mostrava algo estranho.

A frequência cardíaca não seguia o padrão do sono.

Ela oscilava como se ele estivesse correndo dentro da própria mente.

A enfermeira anotou:

“Movimentos oculares rápidos intensos durante sono profundo.”

Helena entrou na sala imediatamente.

“Ele está sonhando de novo?” ela perguntou.

“Sim, doutora. Mas parece mais forte hoje.”

Helena se aproximou.

E ficou observando.

Caio apertava os dedos levemente.

Como se segurasse algo invisível.

PRIMEIRO SONHO

O mar.

Sempre o mar.

Mas agora diferente.

Mais escuro.

Mais profundo.

E mais silencioso antes da violência.

Caio estava no barco novamente.

Só que dessa vez… ele não era apenas observador.

Ele sabia o que ia acontecer.

“Isso não é real…” ele disse no sonho.

Mas o vento respondeu com silêncio.

E então ele viu.

A lancha.

Se aproximando.

Rápida demais.

Precisa demais.

Intencional demais.

Caio tentou gritar.

Mas a voz não saía.

E foi então que ele viu algo novo.

No fundo da água.

Uma figura.

Parada.

Observando.

Sem rosto definido.

Mas olhando diretamente para ele.

Ele acordou com um choque.

O monitor disparou.

“Pressão subindo abruptamente!” gritou a enfermeira.

Helena segurou o braço dele.

“Caio! Olha pra mim!”

Ele respirava forte.

“Eu vi de novo…” ele disse.

“Viu o quê?”

Mas ele hesitou.

Como se estivesse com medo da própria resposta.

“Alguém… estava lá embaixo.”

Helena ficou em silêncio.

E anotou mentalmente:

“Elemento externo recorrente em alucinação traumática.”

Mas ela não acreditava mais que aquilo era apenas psicológico.

Naquela mesma noite, o setor de TI do hospital detectou um novo acesso externo.

Mas desta vez não era tentativa de apagar dados.

Era algo mais sofisticado.

Alguém estava reconstruindo o acidente.

Em tempo real.

Como se estivesse editando a memória digital do caso.

O técnico chamou o supervisor.

“Isso não é normal… alguém está mexendo no passado do sistema.”

“O sistema não permite isso.”

“Então alguém está forçando.”

Helena recebeu o alerta às 02:17 da manhã.

E foi imediatamente até a sala de servidores.

O que viu fez seu estômago gelar.

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O arquivo do acidente estava sendo reescrito.

Linha por linha.

Não apagado.

Alterado.

“Eles estão editando o que aconteceu…” ela disse.

O técnico respondeu:

“Ou tentando mudar o que acreditamos que aconteceu.”

Na UTI, Caio começou a murmurar enquanto dormia.

“Não foi acidente…”

“Não foi acidente…”

Helena se aproximou.

“Caio? Você está ouvindo minha voz?”

Mas ele não respondeu.

Ele estava em outro lugar.

SEGUNDO SONHO

Agora o mar estava calmo.

Calmo demais.

E isso era pior.

Caio estava flutuando acima da água.

Mas não como antes.

Agora ele via tudo de cima com clareza.

E viu a lancha.

Mas também viu outra coisa.

Uma segunda embarcação.

Mais distante.

Observando.

Sem se aproximar.

Sem intervir.

Apenas observando o impacto.

Caio sentiu o corpo tremer.

“Eles sabiam…” ele disse no sonho.

E então a figura na água voltou.

Mas agora mais próxima.

E algo aconteceu.

Ela levantou a mão.

E apontou para ele.

Caio acordou gritando.

“Ele acordou em pânico!” gritou a enfermeira.

Helena correu.

“Caio! Respira comigo!”

Mas ele estava em choque.

“Não foi acidente…” ele repetia.

“Eles estavam lá… todos estavam lá…”

Helena segurou firme.

“Quem estava lá?”

Ele olhou para ela.

E pela primeira vez, respondeu com clareza total:

“Rafael Albuquerque.”

Silêncio absoluto na sala.

Helena congelou.

“Você tem certeza disso?”

Mas Caio não respondeu mais.

Ele caiu de volta na cama, exausto.

Como se o próprio cérebro tivesse atingido um limite.

Na manhã seguinte, Helena solicitou acesso aos registros corporativos da empresa Albuquerque Marine Group.

O pedido foi negado.

Motivo:

“SIGILO INDUSTRIAL – CASO NÃO RELACIONADO À SAÚDE.”

Ela bateu na mesa.

“Isso não é sobre saúde… isso é sobre tentativa de encobrimento.”

No mesmo dia, um carro preto estacionou em frente ao hospital.

Alguém observava a entrada da UTI.

Sem sair do veículo.

Sem falar com ninguém.

Apenas olhando.

Dentro da UTI, Caio abriu os olhos novamente.

Mas agora havia algo diferente.

Ele não parecia confuso.

Parecia consciente demais.

“Eu não estou sonhando…” ele disse.

Helena se aproximou.

“Então o que você está vendo?”

Ele respirou fundo.

E respondeu:

“Eu estou lembrando do que aconteceu antes do impacto.”

Helena congelou.

“Antes?”

Caio assentiu lentamente.

“Antes da colisão… alguém mudou a rota.”

Silêncio.

O monitor cardíaco oscilou levemente.

E então veio o terceiro sonho.

Mas desta vez ele não dormiu completamente.

Ele ficou entre os dois estados.

E viu algo impossível.

???? TERCEIRO SONHO / ESTADO INTERMEDIÁRIO

Uma reunião.

Homens discutindo mapas marítimos.

Uma linha desenhada no oceano.

E um ponto marcado em vermelho.

“Esse será o impacto.”

Uma voz disse isso.

Calma.

Planejada.

Caio tentou gritar.

Mas não tinha corpo.

Apenas consciência.

E então ele viu algo pior.

Uma assinatura.

Rafael Albuquerque.

Caio acordou completamente desperto desta vez.

E disse a primeira frase sem hesitar:

“Ele não só estava lá… ele escolheu onde eu ia morrer.”

Helena recuou um passo.

“Caio… isso é uma acusação muito séria.”

Mas ele olhou direto para ela.

“Então por que estão tentando apagar tudo?”

O monitor cardíaco disparou.

Mas não por instabilidade.

Por padrão anômalo.

O mesmo padrão da primeira parada.

Helena olhou para a tela.

E percebeu algo horrível.

O padrão estava se repetindo.

Como se o corpo dele estivesse revivendo… não o sonho…

mas o evento real.

E então o sistema hospitalar exibiu uma nova mensagem automática:

“MEMÓRIA ORIGINAL DO EVENTO ACESSADA.”

Helena leu em voz baixa:

“Isso não deveria existir…”

Caio virou lentamente a cabeça.

E disse:

“Eles vão tentar me apagar de novo.”

E naquele instante…

todas as telas da UTI ficaram pretas por 3 segundos.

Quando voltaram…

o registro do paciente havia mudado:

“CAIO VALENTE NOGUEIRA — SEM HISTÓRICO DE ACIDENTE.”

Helena ficou sem ar.

E Caio sussurrou:

“Agora eles sabem que eu lembrei.”

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