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《Filha da Mentira》PARTE 8

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A manhã em Barra Funda, São Paulo, estava cinzenta, com aquele tipo de luz que não ilumina — apenas revela.

Helena Vasconcelos Ribeiro estava parada do outro lado da rua, observando o colégio particular Colégio Santa Amália, onde Sofia estudava agora sob o controle total de Patrícia.

Ela não deveria estar ali.

Mas estava.

Seu casaco simples, já gasto pelo tempo na rua, contrastava com a imponência dos carros blindados que chegavam trazendo filhos de famílias influentes. Helena segurava um papel dobrado na mão — um endereço, uma rotina, uma chance mínima.

“Só hoje… só hoje eu preciso ver ela”, ela sussurrou para si mesma.

Do outro lado do portão, Sofia descia do carro com perfeição ensaiada.

Cabelo impecável.

Postura ereta.

Olhar treinado para não demonstrar nada.

As câmeras de um pequeno canal de entretenimento ainda a seguiam, tentando captar qualquer expressão humana.

“Sofia Vasconcelos, como você lida com as acusações recentes da sua mãe biológica?”, gritou um repórter.

Ela não parou.

Mas respondeu sem hesitar:

“Eu não tenho nada a comentar sobre isso.”

E entrou.

Helena viu tudo.

Cada movimento.

Cada passo.

Cada distância aumentando entre elas.

O coração dela apertou de uma forma física, como se o corpo estivesse sendo dobrado por dentro.

“Ela não me viu…”, Helena murmurou.

Mas não era verdade.

Sofia tinha visto.

Por um segundo.

Um único segundo.

Dentro do colégio, Sofia caminhou pelo corredor até parar.

Algo dentro dela travou.

Uma sensação estranha.

Como memória sem imagem.

Ela virou lentamente a cabeça em direção à janela lateral do prédio.

E viu.

Helena.

Do outro lado da rua.

Imóvel.

O mundo pareceu parar por meio segundo.

O som sumiu.

As vozes desapareceram.

E Sofia ficou presa naquele instante.

“Não…”, Sofia sussurrou.

Seu corpo deu um pequeno passo para trás.

Mas antes que qualquer coisa acontecesse, uma funcionária do colégio tocou seu ombro.

“Sofia, sua aula vai começar.”

O toque quebrou tudo.

Ela piscou.

E quando olhou de novo pela janela…

Helena ainda estava lá.

Mas agora parecia mais distante.

Menos real.

Como se o mundo estivesse apagando a imagem aos poucos.

Helena deu um passo à frente.

Depois outro.

“Filha…”, ela disse, quase sem voz.

Mas o vidro do colégio, a rua, os carros, o trânsito — tudo parecia formar uma barreira invisível entre elas.

Ela levantou a mão.

Sofia também.

Por um instante mínimo, as duas estavam alinhadas.

Mãe e filha.

Separadas apenas por alguns metros.

E por tudo o que aconteceu antes.

Mas então Sofia recuou.

Não de forma dramática.

Não com lágrimas.

Com controle.

Com medo.

Com ordem interna.

E virou o rosto.

Helena bateu levemente no vidro.

“Por favor… olha pra mim…”

Mas Sofia já estava andando.

No interior do colégio, Patrícia surgia no corredor como se já soubesse de tudo.

Ela olhou para Sofia com calma calculada.

“Está tudo bem?”, perguntou.

Sofia demorou meio segundo a responder.

“Sim.”

Mas sua voz não estava firme.

Patrícia percebeu.

Sempre percebia.

Do lado de fora, Helena permaneceu parada.

O vidro refletia seu próprio rosto agora — cansado, marcado, irreconhecível até para si mesma.

Ela deu um sorriso fraco.

“Ela me viu… ela me viu…”

Mas o sorriso morreu rápido.

Porque a porta do colégio se fechou completamente.

E o portão travou.

Sofia, lá dentro, caminhava agora com Patrícia ao lado.

Mas seus passos não eram mais os mesmos.

Algo tinha quebrado.

Pequeno.

Quase invisível.

Mas suficiente.

Ela parou no meio do corredor.

“Eu vi uma coisa lá fora…”, ela disse.

Patrícia não virou o rosto.

“Você viu muitas coisas ultimamente.”

Sofia ficou em silêncio.

Helena ainda estava do outro lado da rua quando o fluxo de carros começou a aumentar.

Ela tentou atravessar de novo.

Mas hesitou.

Porque agora já não tinha certeza se tinha acontecido de verdade.

Se tinha sido vista.

Se tinha existido.

Dentro da escola, Sofia voltou a caminhar.

Mas sua respiração estava mais curta.

Mais irregular.

E pela primeira vez em dias, ela sussurrou algo que não deveria:

“Ela estava lá…”

Patrícia parou.

Finalmente olhou para Sofia.

“Quem?”

Sofia abriu a boca.

Mas não respondeu.

Porque naquele exato instante, a imagem de Helena já começava a se desfazer na sua memória, como tinta na chuva.

Do lado de fora, Helena recuou.

Devagar.

Como quem entende algo sem precisar que seja explicado.

“Ela não me reconheceu…”, ela disse para si mesma.

Mas não era só isso.

Era pior.

E então, quando Helena virou para ir embora, um último detalhe aconteceu.

Sofia, do outro lado do vidro, parou novamente.

Olhou.

Diretamente na direção onde Helena estava antes.

E disse, com voz baixa, quase automática, como se alguém tivesse ensaiado aquela frase dentro dela:

“Eu não conheço essa mulher.”

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