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《Filha da Mentira》PARTE 6

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Sofia Vasconcelos Ribeiro sorria para as câmeras como se tivesse nascido para aquilo.

O salão de eventos do Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro, estava cheio de jornalistas, influenciadores e convidados selecionados. Tudo era luz, flash e perfeição calculada. No centro, Sofia vestia um vestido claro, elegante, com postura impecável e olhar treinado.

“Ela é o retrato da nova geração Vasconcelos”, dizia a apresentadora da TV Atlântica ao vivo. “Jovem, forte e emocionalmente estável após os recentes acontecimentos familiares.”

Sofia inclinou levemente a cabeça e respondeu com calma ensaiada:

“Eu só quero seguir em frente e honrar minha família.”

A plateia aplaudiu.

As câmeras captaram o sorriso certo.

O ângulo certo.

A narrativa certa.

Mas fora das câmeras, quando ela atravessou o corredor interno do palácio, o sorriso desapareceu como maquiagem lavada pela chuva.

Ela entrou no banheiro feminino e fechou a porta com força.

Silêncio.

E então o corpo cedeu.

Sofia se apoiou na pia, respirando rápido demais.

“Eu estou bem… eu estou bem…”, ela repetiu para si mesma.

Mas suas mãos tremiam.

No espelho, o reflexo não parecia confiável.

Parecia outra pessoa.

Em São Paulo, Patrícia observava tudo por vídeo ao vivo em seu celular.

“Perfeito”, ela disse baixinho.

Ao lado dela, o advogado Caio Menezes folheava relatórios.

“Ela está sustentando bem a imagem pública”, comentou ele.

Patrícia não tirava os olhos da tela.

“Ela não pode falhar.”

“E se ela começar a questionar?”, perguntou Caio.

Patrícia sorriu de forma mínima.

“Ela não vai.”

Naquela mesma noite, no quarto luxuoso do hotel onde Sofia estava hospedada, o ambiente era silencioso demais.

Luxo sem conforto.

Elegância sem paz.

Sofia estava deitada na cama, olhando para o teto.

O celular vibrava constantemente.

Mensagens.

Notificações.

Entrevistas.

Menções.

“Filha exemplar supera crise familiar…”

“Nova herdeira do império Vasconcelos…”

“Modelo de maturidade emocional…”

Ela desligou o celular.

O silêncio ficou mais pesado.

Mas então veio o primeiro sinal.

Um som baixo.

Quase imperceptível.

“Helena…”

Sofia abriu os olhos.

Sentou-se.

Olhou ao redor.

Nada.

“Helena…”

Ela levantou rapidamente.

“Quem está aí?”, ela perguntou.

Silêncio.

O ar parecia normal.

Mas não era.

Na manhã seguinte, Sofia apareceu novamente em público.

Sorriso perfeito.

Postura impecável.

“Eu acredito que cada família passa por momentos difíceis”, ela disse para a imprensa. “O importante é seguir com maturidade.”

Flashs.

Aplausos.

Controle total da imagem.

Mas seus olhos estavam mais cansados.

Na cobertura de Patrícia, em São Paulo, o ambiente era diferente.

Não havia jornalistas.

Só estratégia.

“Ela está começando a mostrar sinais de exaustão”, disse Caio.

Patrícia respondeu sem emoção:

“Exaustão é útil. Fragilidade controlada é mais fácil de guiar.”

Caio hesitou.

“Você está pressionando demais.”

Patrícia finalmente olhou para ele.

“Não. Eu estou mantendo tudo funcionando.”

Naquela noite, Sofia voltou ao hotel sozinha.

Dessa vez, o silêncio parecia mais agressivo.

Ela trancou a porta.

Encostou nela.

E ficou parada.

Por alguns segundos, tudo parecia normal.

Até que o espelho do corredor refletiu algo errado.

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Uma sombra atrás dela.

Ela virou rápido.

Nada.

“Para…”, ela sussurrou. “Isso não está acontecendo…”

Mas estava.

Os dias começaram a se repetir.

Eventos.

Entrevistas.

Sorrisos.

Postagens.

“Filha do ano”, diziam.

“Exemplo de força”, repetiam.

Mas à noite, Sofia não dormia mais.

Ela apenas fechava os olhos e esperava.

Porque agora os sonhos vinham acordados.

Helena aparecia.

Não como notícia.

Não como imagem de TV.

Mas como voz.

Como presença.

“Você não me esqueceu…”, a voz dizia.

Sofia apertava os lençóis.

“Você não existe aqui…”, ela respondia em voz baixa.

Mas a resposta vinha sempre igual:

“Você me deixou existir do jeito errado.”

No limite da terceira noite sem sono, Sofia caiu no chão do quarto.

Respirando forte.

“Chega… chega…”, ela repetia.

Mas a voz continuava.

“Você lembra de mim, Sofia?”

Ela cobriu os ouvidos.

“Para!”

Mas não adiantava.

A voz não vinha de fora.

Na manhã seguinte, Patrícia recebeu um relatório.

“Ela está apresentando sinais de desorganização emocional leve”, disse Caio.

Patrícia passou os olhos rapidamente.

“Normal.”

“Isso pode evoluir”, ele alertou.

Patrícia fechou o documento.

“Então vamos acelerar o controle de rotina dela.”

Caio franziu a testa.

“Controle mais rígido?”

“Controle total.”

Sofia foi colocada em uma agenda ainda mais apertada.

Sem espaços vazios.

Sem tempo para silêncio.

Sem tempo para pensar.

E ainda assim… a voz não parava.

Naquela noite, no hotel, Sofia finalmente quebrou o padrão.

Ela não ligou a TV.

Não olhou o celular.

Apenas ficou sentada no chão do quarto.

Respirando.

Tentando se manter real.

“Isso não é minha mãe…”, ela disse para si mesma.

“Isso não é real…”

Mas então.

O telefone fixo do quarto tocou.

Um som antigo.

Inesperado.

Ela hesitou.

E atendeu.

Silêncio do outro lado.

Até que uma respiração suave apareceu.

E uma voz, quase impossível de ouvir, sussurrou:

“Sofia…”

Ela congelou.

Os olhos se arregalaram lentamente.

Porque aquela voz…

não era da mídia.

Não era de lembrança.

Era dela.

Da mãe.

E vinha de dentro da linha.

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