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《Filha da Mentira》PARTE 5

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A chuva em São Paulo não cai — ela desaba.

E naquela noite, parecia que a cidade inteira tinha decidido esquecer de ser gentil.

Helena Vasconcelos Ribeiro estava sentada na entrada de uma loja fechada em Vila Madalena, com o cabelo colado no rosto, o vestido do dia do casamento agora amassado, sujo e irreconhecível. O tecido caro tinha perdido qualquer significado. Não era mais luxo. Era apenas pano molhado.

Ela não sabia exatamente quantas horas tinha caminhado desde o Rio.

Só sabia que, em algum momento, parou de ser “Helena Vasconcelos”.

E virou apenas alguém na rua.

Um homem passou por ela e diminuiu o passo.

“Moça… tá tudo bem?”

Helena levantou o olhar devagar.

“Eu… eu estou só descansando.”

O homem olhou para ela de cima a baixo.

Não com maldade.

Mas com dúvida.

E isso foi pior.

Ele hesitou, colocou uma nota pequena no chão e saiu rápido.

Helena ficou olhando o dinheiro sem entender.

“Ele achou que eu…”, ela sussurrou. “Não… não pode ser isso.”

Mas era.

A poucos quilômetros dali, a cidade seguia viva.

Bares cheios.

Risos altos.

Música saindo das portas abertas.

Em Vila Madalena, ninguém olhava duas vezes para ninguém. Era um lugar onde todos queriam ser vistos — menos ela.

Helena tentou se levantar.

As pernas estavam fracas.

Ela apoiou na parede.

“Eu não sou isso… eu não sou isso…”

Mas ninguém respondeu.

Naquela mesma noite, em sua mente, o passado começou a voltar sem pedir permissão.

Não como lembrança suave.

Mas como ataque.

Sofia criança correndo pela sala.

“Mamãe, olha!”

Helena sorrindo, ajoelhada no chão.

“Devagar, meu amor, você vai cair!”

A pequena Sofia caindo mesmo assim e rindo.

Helena lembrando do cheiro do cabelo dela.

Do jeito que segurava sua mão com força demais para uma criança.

“Não solta, mamãe.”

Helena fechou os olhos.

“Eu nunca soltei…”

Uma buzina alta a trouxe de volta.

Ela estava ainda na rua.

Sozinha.

Molhada.

Respirando rápido demais.

Um casal passou por ela e desviou automaticamente, como se ela fosse parte da paisagem urbana que ninguém queria notar.

“Desculpa…”, Helena disse sem motivo.

Ninguém respondeu.

Ela andou de novo.

Sem direção.

Sem mapa.

Sem nome.

Até chegar perto de uma padaria aberta.

O vidro estava embaçado pela chuva e pelo vapor quente de dentro.

Ela parou.

Observou.

Crianças comendo pão quente.

Casais rindo.

Um mundo normal.

Um mundo que ainda funcionava.

Ela entrou.

O sino da porta tocou.

Todos olharam por um segundo.

E depois desviaram o olhar.

Como se ela não fosse interessante o suficiente para continuar sendo vista.

“Senhora, precisa de alguma coisa?”, perguntou o atendente.

Helena demorou para responder.

“Eu… só água.”

Ele hesitou.

Depois entregou um copo descartável.

Ela segurou com as duas mãos.

Como se aquilo fosse a única coisa sólida no mundo.

“Obrigado…”

Ela bebeu devagar.

E percebeu que suas mãos tremiam.

Na TV da padaria, o jornal da noite começava.

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Helena congelou.

Ela não queria olhar.

Mas olhou.

E lá estava ela.

Outra vez.

Imagens do casamento.

Imagens da rua.

Imagens dela caída.

O narrador dizia:

“Novas informações indicam que Helena Vasconcelos pode estar em surto contínuo após perda de controle emocional e familiar.”

Helena deu um passo para trás.

“Não… não… não…”

A voz do telejornal continuava como se fosse natural.

“Fontes próximas afirmam que a família já iniciou processo de afastamento definitivo.”

Helena apertou o copo com força demais.

Ele amassou.

A água caiu na mesa.

Ela saiu da padaria quase sem perceber.

A chuva tinha aumentado.

Agora era mais pesada.

Mais fria.

Mais cruel.

Ela caminhou até a esquina e parou.

Respirando rápido.

“Eles estão falando de mim como se eu não existisse…”

Ela riu de forma quebrada.

“Mas eu existo…”

E então o passado voltou de novo.

Mais forte.

Mais nítido.

Sofia pequena sentada no chão da cozinha.

Helena cozinhando.

“Mamãe, posso ajudar?”

“Pode sim.”

Farinha na mesa.

Mãos pequenas tentando misturar.

“Tá errado?”, Sofia perguntava.

“Tá perfeito.”

Sofia sorrindo.

“Eu quero ser como você.”

Helena fechou os olhos.

“Não… não diga isso agora…”

A chuva ficou mais intensa.

Helena atravessou a rua sem olhar.

Um carro freou bruscamente.

Buzina.

Grito.

“Tá louca?!”

Ela nem respondeu.

Continuou andando.

Ela chegou perto de um muro coberto de grafites em Vila Madalena.

Encostou.

Escorregou lentamente até o chão.

Agora não era mais queda de desmaio.

Era rendição.

“Eu perdi tudo…”, ela disse.

A voz saiu baixa.

Sem força.

Sem defesa.

“Eu perdi até ela…”

O vento trouxe um som distante de música de bar.

Vida acontecendo.

Sem pausa.

Sem saber dela.

Helena abriu os olhos devagar.

E então viu.

Do outro lado da rua.

Uma figura.

Pequena.

De costas.

Cabelo preso.

Movimento familiar demais para ser coincidência.

Sofia.

Helena tentou levantar de imediato.

“Não… espera…”, ela disse.

Mas a rua estava cheia.

Carros passando.

Pessoas entre elas.

Quando ela finalmente conseguiu dar um passo…

a figura já estava indo embora.

Virando a esquina.

Sumindo na chuva.

Helena começou a andar mais rápido.

“SOFIA!”

Mas a cidade engoliu a voz dela.

E o último que ficou foi apenas o som da chuva batendo no vazio.

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