O trânsito de São Paulo estava caótico naquela tarde, como sempre, mas havia algo diferente no ar — uma tensão invisível que parecia se mover entre os carros como eletricidade.
O sol refletia no asfalto quente da Avenida Rebouças quando Juliana pediu ao motorista para acelerar.
Ela não sabia explicar por quê.
Mas sentia uma pressa sem origem.
“Mais rápido, por favor,” Juliana disse, olhando pela janela.
O motorista respondeu:
“Sim, senhora.”
No banco de trás, ela segurava o celular com força. Uma reunião importante estava marcada, mas sua mente não conseguia se concentrar. Havia uma sensação estranha, como se algo estivesse prestes a acontecer antes que ela pudesse chegar a qualquer lugar.
Do outro lado da cidade, Maria estava na mansão, dobrando roupas com precisão mecânica. O silêncio era interrompido apenas pelo som distante de passos no corredor.
Ela parou por um instante.
E sentiu.
Um aperto no peito.
“De novo isso…” ela murmurou.
Na mesma hora, no escritório, Renata observava câmeras da casa pelo tablet. Tudo estava sob controle. Tudo estava dentro do padrão.
Mas seus olhos não estavam calmos.
“Ela saiu mais cedo…” Renata disse baixinho.
Juliana.
Ela ampliou a imagem da câmera da garagem.
Viu o carro saindo.
E então decidiu pegar o telefone.
“Preciso resolver isso pessoalmente,” ela disse.
Minutos depois, Juliana estava na Avenida Faria Lima quando o trânsito parou completamente. Uma mudança de semáforo, uma distração, um segundo errado.
E então o impacto aconteceu.
O som foi seco.
Metálico.
E o mundo virou de lado.
Juliana sentiu o corpo bater com força, o cinto travando seu movimento. O vidro rachou em padrões irregulares, e o tempo pareceu se fragmentar em pedaços pequenos demais para serem compreendidos.
“Não…” ela sussurrou, sem saber se tinha dito em voz alta.
Tudo ficou branco por um instante.
Quando abriu os olhos novamente, o carro estava parado.
O motorista gritando algo distante.
Pessoas na rua correndo em direção ao veículo.
“Senhora! A senhora está me ouvindo?” alguém perguntou.
Juliana tentou responder.
Mas o som não saía corretamente.
Ela levou a mão à cabeça.
E então viu sangue leve nos dedos.
“Estou… bem…” ela disse com dificuldade.
Mas não estava.
Dentro dela, algo havia se deslocado.
Não físico.
Algo mais profundo.
Enquanto era retirada do carro, Juliana sentiu flashes rápidos atravessando sua mente.
Uma cozinha simples.
Um cheiro de café.
Uma mulher de costas.
“Juliana…”
Ela piscou.
“Não… isso de novo…”
Outro flash.
Uma criança correndo.
Rindo.
E uma voz chamando com carinho.
“Minha filha…”
Juliana gritou de repente.
“Pare!”
Os paramédicos olharam assustados.
“Senhora, se acalme!”
Mas ela não conseguia.
As imagens vinham mais rápido.
Sem ordem.
Sem lógica.
Maria.
Um nome que não fazia sentido aparecer ali.
Mas apareceu.
“Quem é você…” Juliana sussurrou.
E então desmaiou.
Na mansão, Maria sentiu o impacto antes de saber o que havia acontecido.
Ela parou no meio do corredor.
O pano caiu da mão.
“Juliana…”
As pernas ficaram fracas.
Ela sentou devagar, sem perceber.
E uma lembrança atravessou sua mente como um raio quebrado.
Um hospital.
Uma cama branca.
E uma mão pequena segurando a dela.
“Não me deixa…”
Maria levou as mãos à cabeça.
“Não… não isso…”
No hospital, horas depois, Juliana acordou.
O quarto era branco.
Neutro.
Asséptico.
Mas ela não se sentia mais a mesma.
Uma enfermeira entrou.
“Boa noite. Você sofreu um acidente leve. Está tudo sob controle.”
Juliana piscou lentamente.
“Leve…” ela repetiu.
A enfermeira assentiu.
“Sim. Você teve sorte.”
Mas Juliana não estava olhando para ela.
Estava olhando para algo além da janela.
Algo que não estava ali.
“Eu vi coisas…” Juliana disse baixo.
“Isso é normal após trauma,” respondeu a enfermeira.
Juliana apertou os dedos.
“Não… não era isso.”
Silêncio.
E então ela perguntou:
“Quem é Maria?”
A enfermeira hesitou.
“Desculpe?”
Juliana franziu a testa.
“Esse nome… eu conheço esse nome.”
Mas não conseguia lembrar de onde.
Na mansão, Renata recebeu a ligação do hospital.
Seu rosto não mudou.
Mas a mão que segurava o telefone ficou mais firme.
“Entendi,” ela disse.
E desligou.
Ela ficou parada por alguns segundos.
Depois abriu o cofre pessoal da sala.
Dentro havia documentos antigos.
E uma pasta marcada como confidencial.
Renata pegou um dos papéis.
E leu em silêncio.
“Reativação de memória parcial após evento traumático pode ocorrer…”
Ela fechou o papel.
“Isso não deveria acontecer agora.”
No hospital, Juliana virou o rosto lentamente para a janela novamente.
E, por um segundo, viu algo que não estava lá.
Uma mulher.
De costas.
No reflexo do vidro.
Juliana congelou.
E sussurrou:
“Eu já te vi antes…”
Mas quando piscou…
a imagem desapareceu completamente.