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《A Mãe Esquecida》PARTE 9

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A manhã em São Paulo começou com um céu claro demais para o que estava prestes a acontecer dentro da mansão Ribeiro Valente.

A luz atravessava as janelas de vidro do escritório principal, iluminando uma mesa onde nada parecia fora do lugar — e ainda assim tudo estava prestes a mudar.

Renata estava sentada sozinha.

O laptop aberto.

E várias pastas antigas espalhadas como peças de um quebra-cabeça que ninguém deveria montar.

Ela não piscava com frequência.

Os olhos estavam fixos em uma linha de dados na tela.

Um registro antigo.

Quase invisível no sistema corporativo da família.

“Isso não deveria existir…”

A voz dela era baixa.

Controlada.

Mas havia tensão.

Na tela: um nome.

Maria Aparecida de Souza.

E um histórico hospitalar antigo vinculado ao Hospital Santa Cecília.

Renata fechou os dedos lentamente.

“Então você ainda está aqui…”

Ela se levantou.

Caminhou até a janela.

E ficou observando o jardim da mansão como se pudesse ver algo além dele.

No corredor inferior, Maria estava limpando silenciosamente os móveis da sala de estar. Cada movimento era metódico, quase invisível. Ela já tinha aprendido a existir sem chamar atenção.

Mas algo dentro dela estava diferente desde a noite anterior.

O eco da palavra ainda não tinha sumido.

“Mãe…”

Ela parou por um segundo.

O pano na mão ficou imóvel.

“Não…” ela sussurrou para si mesma.

E voltou a limpar.

Na cozinha, Juliana estava tomando café, mas distraída. O olhar dela estava distante, como se parte da mente ainda estivesse presa em um lugar que ela não conseguia nomear.

Renata entrou no ambiente.

Perfeita.

Controlada.

“Você dormiu bem?” Renata perguntou.

Juliana respondeu sem olhar.

“Mais ou menos.”

Renata sentou à mesa.

E observou a sobrinha por alguns segundos.

“Você anda muito cansada ultimamente.”

Juliana suspirou.

“Tenho sonhos estranhos.”

Renata não reagiu de imediato.

Apenas pegou o celular.

“Sobre o quê?”

Juliana hesitou.

“Uma mulher…”

Renata interrompeu imediatamente.

“Você está trabalhando demais. Isso influencia o cérebro.”

Juliana franziu a testa.

“Não é só isso.”

Renata sorriu levemente.

Mas não era um sorriso verdadeiro.

“Juliana, você precisa parar de buscar padrões onde não existem.”

O silêncio caiu por um segundo.

Maria entrou na cozinha naquele momento.

Sem olhar para ninguém.

Apenas deixou uma bandeja e tentou sair.

Mas Renata a observou.

Tempo demais.

“Você.”

Maria parou.

“Sim, senhora?”

Renata levantou o olhar lentamente.

“Você mexeu em algum arquivo da casa recentemente?”

Maria ficou imóvel.

“Não, senhora.”

Renata não desviou os olhos.

“Tem certeza?”

Maria respondeu firme.

“Sim.”

Juliana observava a cena, sem entender completamente.

Renata acenou com a cabeça.

“Pode ir.”

Maria saiu.

Mas o ar tinha mudado.

Assim que ela desapareceu no corredor, Renata abriu novamente o laptop no escritório.

E começou a agir.

Um a um.

Arquivos antigos começaram a desaparecer do sistema interno da família.

Registros médicos.

Contratos antigos.

Fotos digitais.

Históricos de funcionários.

Ela clicava sem hesitar.

Como alguém apagando poeira.

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Não pessoas.

“Se isso vier à superfície…” ela murmurou, “tudo desmorona.”

Na tela, um arquivo apareceu com destaque:

Internação - Maria Aparecida de Souza / Hospital Santa Cecília

Renata pausou.

Olhou fixamente.

E então clicou em:

EXCLUIR DEFINITIVAMENTE

O sistema pediu confirmação.

“Sim.”

O arquivo desapareceu.

Ela respirou fundo.

Mas não parecia alívio.

Era cálculo.

Na mesma hora, no corredor da mansão, Maria sentiu uma leve tontura.

Parou.

Apoiou a mão na parede.

“Que estranho…”

Não era dor.

Era vazio.

Como se algo tivesse sido retirado dela sem aviso.

Ela fechou os olhos por um segundo.

E quase viu algo.

Uma sala branca.

Uma voz chamando seu nome.

Mas a imagem se dissolveu antes de formar sentido.

“Não de novo…”

Ela continuou andando.

No andar superior, Juliana entrou no escritório de Renata sem bater.

“Você viu os arquivos antigos da casa?” Juliana perguntou.

Renata nem levantou a cabeça.

“Por quê?”

Juliana hesitou.

“Eu sinto que tem coisas faltando.”

Renata fechou o laptop lentamente.

“Faltando como?”

Juliana respondeu:

“Como se alguém tivesse apagado partes da minha vida.”

O silêncio ficou pesado.

Renata se levantou.

E caminhou até ela.

“Juliana, escuta bem.”

A voz era mais firme agora.

“Nem tudo que parece vazio foi apagado. Às vezes… nunca existiu.”

Juliana não gostou da resposta.

“Isso não faz sentido.”

Renata colocou a mão no ombro dela.

“Você está segura aqui. Isso é o que importa.”

Mas o olhar dela dizia outra coisa.

Controle.

Não proteção.

Naquela noite, Renata entrou sozinha na sala de arquivos físicos da mansão.

Trancou a porta.

Acendeu a luz fraca.

E abriu uma caixa antiga.

Dentro havia papéis que não tinham sido digitalizados.

Documentos que sobreviveram ao sistema.

Ela pegou um deles.

E leu em silêncio.

“Se Maria Aparecida reaparecer em contato com a família…”

Renata amassou o papel imediatamente.

“Não deveria ter sobrado nada.”

Ela começou a queimar documentos menores dentro de uma bandeja metálica.

Um por um.

Como se estivesse apagando não registros…

mas pessoas.

Do lado de fora, Maria passava pelo corredor e viu luz sob a porta.

Parou.

A mão subiu lentamente.

Quase tocou a maçaneta.

Mas ela recuou.

“Não é da minha conta…”

E foi embora.

Dentro da sala, Renata continuava queimando papéis.

Sem perceber que, pela primeira vez…

o passado não estava mais apenas escondido.

Estava sendo atacado.

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