A madrugada em São Paulo estava silenciosa demais naquela noite, como se até os sons da cidade tivessem sido abafados por algo invisível dentro da mansão Ribeiro Valente.
As luzes externas projetavam sombras longas nos corredores, e o relógio da sala principal marcava horas que pareciam não avançar.
Maria Aparecida de Souza ainda não dormia.
Ela estava sentada na pequena cama do quarto dos funcionários, com o colar azul entre os dedos, repetindo o mesmo gesto há minutos, como se aquilo fosse a única coisa real que ainda lhe restava.
O objeto frio parecia pesado demais para algo tão pequeno.
Ela o virou lentamente.
E sussurrou:
“De onde você veio…?”
Mas não havia resposta.
Só o silêncio da casa.
No andar de cima, Juliana se mexia na cama.
O rosto dela estava levemente suado, apesar do ar-condicionado ligado. O sono não era profundo. Era fragmentado, inquieto, como se algo dentro dela estivesse tentando empurrar uma porta fechada há muito tempo.
O primeiro som saiu baixo.
Quase imperceptível.
“Não…”
Juliana virou de lado.
A respiração mudou.
E então veio o sonho.
Ela estava novamente naquele lugar simples.
A mesma casa que aparecia em fragmentos nas noites anteriores.
Mas dessa vez estava mais nítida.
Mais viva.
O cheiro de café era forte.
E a luz parecia mais quente.
“Juliana…”
A voz veio de novo.
Suave.
Feminina.
Quase dolorosamente familiar.
Ela caminhou pelo ambiente no sonho, devagar.
“Eu conheço você…”
Mas não conseguia ver o rosto da mulher.
Só uma silhueta de costas, mexendo em algo na cozinha.
“Vem comer antes que esfrie,” a voz disse.
Juliana sentiu o peito apertar.
“Por que eu sinto isso?”
Ela deu mais um passo.
E o chão parecia mais real do que deveria.
“Você sempre foi assim, apressada…”
A mulher riu leve.
Juliana tentou tocar o ombro dela.
Mas a imagem se dissolveu no instante em que os dedos quase encostaram.
E então ela ouviu:
“Minha filha…”
Juliana acordou.
Sentou na cama com um movimento brusco.
A respiração falhando.
“De novo…”
Ela levou a mão à testa.
Mas algo era diferente.
Dessa vez, a palavra não desapareceu tão rápido.
Ficou ecoando.
“Minha filha…”
Ela levantou da cama sem perceber completamente o que estava fazendo.
Os pés descalços tocaram o chão frio.
E ela saiu do quarto.
O corredor estava escuro.
Silencioso.
E mesmo assim ela caminhava como se estivesse sendo guiada por algo.
Passou pela porta do quarto de Renata.
Parou por um segundo.
Mas não entrou.
Continuou andando.
Desceu as escadas devagar.
Como se conhecesse o caminho sem precisar pensar.
Na cozinha, Maria ainda estava acordada.
Ela ouviu o primeiro passo.
Depois outro.
E parou.
O som era diferente.
Não era o andar firme de Juliana durante o dia.
Era mais leve.
Desorganizado.
Maria se levantou lentamente.
“Juliana…?”
Nenhuma resposta.
O corredor escuro mostrou uma sombra descendo as escadas.
Maria ficou imóvel.
Juliana apareceu na porta da cozinha.
Os olhos semiabertos.
O olhar distante.
E então ela falou, com uma voz diferente da habitual.
Mais baixa.
Mais frágil.
“Água…”
Maria deu um passo à frente.
“Juliana, você está bem?”
Mas Juliana não respondeu.
Ela apenas entrou na cozinha.
E ficou parada no meio do espaço, como se não soubesse por que estava ali.
Maria observou com o coração acelerado.
“Você quer sentar?”
Juliana piscou lentamente.
E então murmurou:
“Você está aqui…”
Maria congelou.
“Sim… estou aqui.”
Juliana deu mais um passo.
E repetiu, quase como uma criança:
“Você não foi embora…”
Maria sentiu o ar faltar.
“Do que você está falando?”
Juliana levantou levemente a mão.
E tocou o ar, como se tentasse alcançar algo invisível.
“Você sempre fica aqui à noite…”
Maria engoliu seco.
“Juliana… você está dormindo?”
Mas Juliana não parecia ouvir.
Ela apenas se aproximou.
E então, pela primeira vez, a palavra saiu.
Baixa.
Clara.
Frágil.
“...mãe…”
Maria congelou completamente.
O mundo pareceu parar dentro da cozinha.
O som da geladeira, o relógio, tudo desapareceu por um segundo.
Maria deu um passo para trás.
“Não…”
Juliana repetiu, agora mais baixo.
“Você está aqui, mãe…”
As mãos de Maria começaram a tremer.
“Juliana, olha pra mim…”
Mas Juliana não olhava.
Os olhos estavam perdidos, como se estivessem vendo algo que não estava ali.
E então ela começou a se virar lentamente.
Como se fosse voltar para o corredor.
Maria ficou imóvel.
O corpo inteiro em choque.
“Não fala isso…” Maria sussurrou.
Mas Juliana já estava saindo da cozinha.
E ainda murmurava:
“Você sempre fica aqui…”
Maria ficou sozinha.
O ar pesado.
A respiração curta.
Ela levou a mão à boca.
E fechou os olhos por um segundo.
“Ela não pode… lembrar disso…”
No andar de cima, uma porta se abriu discretamente.
Renata estava no corredor.
Observando de longe.
Sem expressão.
Sem surpresa.
Ela viu Juliana voltar lentamente para o quarto, ainda em estado de sonambulismo.
E não fez nada para impedir.
Apenas falou baixo, para si mesma:
“Não ainda…”
Na manhã seguinte, Juliana acordou na própria cama.
Normal.
Vestida.
Sem lembrar de nada.
Ela olhou para o teto.
E sentiu apenas um desconforto leve.
Sem explicação.
Na cozinha, Maria trabalhava em silêncio absoluto.
Mais lenta que o normal.
Mais rígida.
Juliana desceu as escadas.
“Bom dia,” disse automaticamente.
Maria respondeu sem levantar os olhos.
“Bom dia.”
Juliana hesitou.
Por um segundo, observou Maria com atenção.
“Você está estranha hoje.”
Maria forçou um pequeno sorriso.
“Só pouco sono.”
Juliana assentiu.
Mas não saiu imediatamente.
Ela ficou ali por alguns segundos a mais do que o normal.
Como se algo dentro dela insistisse em permanecer perto.
“Você… estava aqui ontem à noite?” Juliana perguntou de repente.
Maria congelou.
“Sim… como sempre.”
Juliana franziu a testa.
“Eu tive um sonho estranho.”
Maria não respondeu.
Juliana continuou:
“Tinha uma mulher…”
Maria apertou o pano nas mãos.
“E ela me chamava de filha.”
Silêncio.
Maria respirou fundo.
E quase falou.
Quase.
“Eu também ouvi isso…”
Mas não disse.
Apenas abaixou o olhar.
“Sonhos são só sonhos, senhora.”
Juliana pareceu não gostar da resposta.
Mas não insistiu.
E enquanto ela saía da cozinha, Maria ficou parada.
Imóvel.
Com o coração ainda batendo fora do ritmo.
Porque pela primeira vez…
a palavra que Juliana tinha dito dormindo não parecia mais apenas um erro do sono.
E dentro da casa, o silêncio já não soava igual.