A noite caiu sobre São Paulo com uma lentidão estranha, como se o tempo estivesse hesitando dentro da mansão Ribeiro Valente.
As luzes externas refletiam nas janelas altas, criando sombras que pareciam se mover mesmo quando ninguém estava ali. Dentro do quarto de Juliana, o ar estava frio apesar do clima quente da cidade.
Ela estava deitada, mas não em paz.
O sono vinha em pedaços.
Juliana virou de lado na cama de lençóis brancos, tentando ignorar a sensação de peso no peito. Algo havia mudado naquele dia, mesmo que nada externo tivesse acontecido de forma visível. A reunião, os investidores, as conversas… tudo parecia normal.
Mas o normal não explicava o que ela sentia.
O primeiro sonho começou sem aviso.
Ela estava em uma rua simples, de terra, em algum lugar que não reconhecia completamente. Casas pequenas, roupas no varal, cheiro de café forte no ar. Era um ambiente quente, humano, diferente da mansão onde vivia.
E então ela ouviu a voz.
“Juliana, não corre tanto assim…”
A voz era suave.
Feminina.
Carregada de algo que ela não conseguia nomear.
Juliana olhou ao redor no sonho.
“Quem está falando?”
Mas sua voz não saía forte.
Saía pequena.
Uma mulher estava de costas.
Ela mexia em algo na cozinha simples.
E o cheiro de café ficava mais forte.
“Você vai derrubar tudo assim,” a voz dizia, rindo leve.
Juliana deu um passo à frente.
“Eu te conheço?”
A mulher não respondeu.
Mas a sensação de proximidade era esmagadora.
Ela tentou ver o rosto.
Mas a imagem se desfazia toda vez que se aproximava.
E então a mulher disse:
“Vem cá, minha filha.”
Juliana acordou de repente.
Sentando na cama.
Respiração curta.
O quarto luxuoso parecia diferente por alguns segundos.
Menos real.
Menos sólido.
Ela levou a mão ao peito.
“O que foi isso…”
O silêncio respondeu.
Na manhã seguinte, Juliana desceu para o café ainda inquieta. Renata já estava na mesa, organizando documentos do escritório da família.
“Você está pálida,” disse Renata sem olhar diretamente.
Juliana respondeu:
“Só dormi mal.”
Renata empurrou uma pasta para ela.
“Hoje você precisa revisar contratos do novo projeto no Itaim.”
Juliana pegou a xícara de café.
Mas não bebeu.
“Renata…”
“Sim?”
“Quando eu era criança… existia outra casa?”
Silêncio imediato.
Mas curto demais.
Renata respondeu rápido.
“Não.”
Juliana franziu a testa.
“Tem certeza?”
“Absoluta.”
A resposta foi firme demais.
Controlada demais.
Juliana não insistiu.
Mas algo dentro dela não aceitou.
Na cozinha, Maria estava organizando pratos quando Juliana passou pelo corredor. Por um instante, as duas se viram.
E algo estranho aconteceu.
Juliana parou.
Sem motivo claro.
Maria também parou.
E o mundo pareceu diminuir por meio segundo.
Juliana analisou o rosto dela.
“Você sempre trabalha aqui essa hora?”
Maria respondeu rápido.
“Sim, senhora.”
Juliana franziu o rosto.
“Pare de me chamar assim.”
Maria baixou o olhar.
“Desculpa…”
Mas no momento em que disse isso, Maria hesitou.
E quase falou outra coisa.
Quase.
“Juliana… você…”
A frase morreu antes de nascer.
Juliana inclinou a cabeça.
“O quê?”
Maria respirou fundo.
“Não é nada.”
Juliana a observou por alguns segundos.
“Você é estranha.”
E saiu.
Mas algo ficou no ar.
Mais tarde naquele dia, Maria estava sozinha no corredor superior quando sentiu uma dor leve na cabeça. Não era forte, mas era insistente. Como se algo estivesse tentando empurrar uma imagem para fora dela.
Ela segurou a parede.
Fechou os olhos.
E viu.
Uma criança.
Correndo.
Rindo.
Chamando alguém.
“Volta aqui!”
A voz era dela.
Mas não parecia dela.
Maria abriu os olhos de repente.
Respiração acelerada.
“Não…”
As mãos tremiam.
Naquele mesmo instante, Juliana no escritório sentiu algo parecido.
Um leve aperto na cabeça.
Como uma lembrança que não conseguia se formar.
Ela parou o que estava fazendo.
“Que sensação é essa…”
Renata entrou na sala.
“Você precisa focar.”
Juliana respondeu distraída.
“Estou focada.”
Mas não estava.
Mais tarde, Renata desceu até o depósito da casa.
Abriu uma gaveta antiga.
E retirou uma pasta escondida.
Dentro havia documentos antigos.
E uma foto.
Juliana criança.
E outra mulher ao lado.
Mas o rosto da mulher estava parcialmente apagado pelo tempo.
Renata olhou por alguns segundos.
E guardou novamente.
Como se aquilo não pudesse existir fora daquele momento.
Naquela noite, Maria voltou ao pequeno quarto dos funcionários.
Sentou na cama.
Pegou o colar azul.
E ficou olhando por muito tempo.
“De onde eu conheço isso…”
A pergunta não tinha resposta.
Mas o corpo dela reagia como se tivesse.
Do outro lado da casa, Juliana não conseguia dormir novamente.
Dessa vez, o sonho veio mais rápido.
Ela estava no mesmo lugar simples.
Mas agora a mulher estava mais próxima.
Mais nítida.
“Juliana…”
A voz era mais clara.
Juliana deu um passo à frente.
“Você é minha mãe?”
Silêncio.
A mulher hesitou.
E então o sonho começou a se desfazer rapidamente.
Juliana acordou com o coração disparado.
“Isso não faz sentido…”
Ela olhou para o teto.
Mas pela primeira vez, não confiava totalmente no lugar onde estava.
Na casa silenciosa, Maria também estava acordada.
Segurando o colar com força.
E pela primeira vez em muito tempo…
o passado parecia menos distante do que deveria ser.