Ricardo ficou imediatamente desesperado; ele queria ansiosamente ajudar a defendê-la.
“Não é isso, não foi Clara quem fez, ela não é esse tipo de pessoa! Por que você não a escuta? Escute a explicação dela!”
Ele tentou estender a mão para segurar Ricardo, mas sua palma atravessou o corpo dele.
O Ricardo do sonho abotoou o casaco, vestiu-se impecavelmente e então lançou um novo olhar para Clara: “Se quer se casar, então nos casaremos. Mas vou avisar: além do título de nora da família He, você não receberá nada.”
Dito isso, ele saiu do quarto.
Restou apenas Clara, enrolada no cobertor, encolhida na cama, soluçando impotente.
Ricardo queria consolá-la, mas nem sequer conseguia cobri-la com um casaco.
Ele não pôde evitar se culpar: por que até mesmo em seus sonhos ele mantinha um preconceito tão grande contra Clara? Por que se recusava a acreditar nela?
Ele sentou-se ao lado dela e deixou escapar um sorriso amargo.
“Ricardo, se continuar tratando-a assim, você vai se arrepender mais cedo ou mais tarde.”
Gradualmente, o soluço baixo de Clara transformou-se em um choro convulso. Ela chorava desolada, mas repetia uma e outra vez: “Irmão He, eu, eu realmente gosto de você, eu não, não tentei, subir na vida...”
“Por que não acredita em mim... por que...”
Ricardo abriu levemente os olhos, seu olhar tremia e seu coração batia descompassado.
Ele olhava para os ombros trêmulos de Clara e mal podia acreditar no que ouvia. Clara tinha dito que gostava dele? Como era possível? Ela só queria se distanciar dele.
Provavelmente, a essa altura, ela deve estar pensando em como quitar a dívida por ter sido salva por ele.
Ricardo balançou a cabeça, esforçando-se para acalmar seus sentimentos.
“O que está pensando? Isso é apenas um sonho seu. Você quer que ela goste de você, então, naturalmente, ela vai gostar.”
Seu olhar terno pousou sobre Clara, e Ricardo baixou os cílios, escondendo a melancolia em seus olhos.
A cena mudou para o dia do casamento.
Sem parentes ou amigos, sem convidados, nem mesmo os pais de ambos compareceram.
“Meus pais foram viajar a trabalho para outra província. No futuro, morarei na base militar, e Sabrina também foi estudar. Cuide desta casa você mesma.”
A voz de Ricardo era quase indiferente, enquanto Clara apenas mantinha a cabeça baixa, apertando a bainha da roupa.
A roupa nova já estava gasta após dois anos, mas era a mais apresentável que ela tinha. Ricardo nunca soube que ela, ouvindo o conselho das tias do complexo residencial, usou o pouco dinheiro que tinha para comprar um lençol novo.
Ao vê-la daquele jeito, as sobrancelhas de Ricardo se franziram ainda mais.
“Viemos todos da mesma aldeia, por que você não pode aprender um pouco com Sabrina? Ela conseguiu entrar na Universidade da Capital com seu próprio esforço, e você? Só quer encontrar um homem para se casar?”
Clara levantou a cabeça, com lágrimas brilhando nos olhos, e sua voz embargou: “Irmão He, não é verdade. Eu também me esforcei para estudar, eu...”
O que a interrompeu foi a risada fria de Ricardo.
“Então eu realmente não sei o que você tem estudado. De agora em diante... cuide-se.”
Após dizer isso, ele saiu de casa.
Restou apenas Clara, todos os dias, naquela casa vazia, cozinhando, limpando e ficando perdida em pensamentos.
No início, ela ainda saía para caminhar, mas depois, de tanto ser ridicularizada, parou de sair. Tornou-se o motivo de piada no complexo residencial, o assunto das conversas após as refeições, e até mesmo seu pai foi difamado.
“Você acha que se Gu Anguo ainda estivesse vivo, que cargo ele teria?”
“Certamente maior que o do Chefe He, ele era seu antigo superior.”
“Cargo alto ou baixo, de que adianta? Morreu, e ainda por cima deixou uma filha estúpida e boboca. Eu pedi para ela comprar um lençol e ela comprou; que moça digna faria um serviço desses? Que falta de vergonha!”
“Pois é, depois de tantos anos lutando na guerra, quem sabe se ela é mesmo filha do Gu Anguo!”
Clara ouvia essas palavras, seu corpo franzino tremia de raiva, mas ela não ousou dar um passo sequer à frente.
Capítulo 34
Não era que ela não quisesse se defender, mas, não importava o que ela dissesse, aquelas pessoas jamais acreditariam.
A acusação já pesava sobre seus ombros e ninguém se importava se aquilo era verdade ou não.
No começo, Clara ainda conseguia manter a casa limpa e suas três refeições diárias, mas, gradualmente, ela parou de sair, parou de comer e parou de esperar pelo retorno de Ricardo.
A maior parte do tempo, ela apenas ficava deitada na cama, em silêncio, sem comer nem beber, imóvel.
Ricardo apenas assistia, impotente, enquanto ela murchava dia após dia.
Ele dizia a si mesmo que Clara não deveria ser assim; mesmo em seus sonhos, ela deveria ser linda e radiante, como as flores em sua varanda que floresciam sem parar, cheias de vida infinita.
E não como estava agora, sem brilho.
Ricardo começou a entrar em pânico. Ele tentava acordá-la, mas suas mãos atravessavam o corpo dela uma e outra vez.
“Acorde, Clara? Acorde!”
Não sei se ela ouviu a voz dele, mas ela lutou para se levantar da cama, apenas para cair bruscamente assim que seus pés tocaram o chão.
Ricardo tentou segurá-la, mas ela despencou diretamente contra o piso.
Felizmente, o Ricardo do sonho retornou.
Já se passaram três anos; esta era a primeira vez que ele voltava àquela casa. Antes, mesmo para enviar a pensão, ele sempre pedia aos guardas do portão que a entregassem.
Mas ele não percebeu a situação de Clara de imediato, ficando surpreso, isso sim, com a espessa camada de poeira na casa.
“Clara? Onde você está? Você não costuma arrumar a casa?”
“Clara?”
Ninguém respondia. Ricardo franziu a testa, irritado.
“O que você está fazendo agora? Não pode dizer simplesmente o que quer? Se não fosse pelos outros do complexo perguntando por que não te viam há mais de meio ano, eu nem saberia que você vive assim!”
As críticas severas do Ricardo do sonho ficavam cada vez mais altas, enquanto o Ricardo real, dentro do sonho, sentia um arrepio percorrer sua espinha até o topo da cabeça.
Tudo ali era real demais.
Se ele não soubesse que Clara não era aquele tipo de pessoa, se não tivesse visto tudo o que ela passou, ele teria agido exatamente da mesma forma que o outro Ricardo.
Ele de repente começou a sentir medo — medo de que aquelas coisas tivessem realmente acontecido.
Finalmente, ele encontrou Clara caída no chão. Seus olhos brilharam com pânico; ele correu até ela e a amparou, com um tremor quase imperceptível na voz.
“Clara? Clara, o que houve? Acorde?”
As bochechas de Clara estavam encovadas, seus olhos fechados com força, seu corpo tão magro que parecia feito apenas de ossos.
Mas, quando ele a levou ao hospital e passou por uma série de exames, nenhuma doença foi detectada; apenas desnutrição severa.
Não sei o que ele pensou, mas as sobrancelhas de Ricardo se franziram ainda mais, revelando uma irritação crescente.
Clara abriu os olhos lentamente e, ao ver Ricardo ao lado da cama, um brilho de alegria incontrolável surgiu em seus olhos. Mas, no segundo seguinte, ela o ouviu dizer:
“Clara, vamos nos divorciar.”
A luz em seus olhos se apagou.
Ricardo, mantendo a cabeça baixa, não a olhou nos olhos nenhuma vez.
Clara tremia os lábios, mas não conseguiu perguntar o porquê. Ela apenas conteve os soluços e disse: “Tudo bem.”
Houve um longo silêncio no quarto.
A voz de Ricardo soou novamente: “Você... não precisa se mudar. Nós não voltaremos. Mandarei o dinheiro da pensão pontualmente; faça o que quiser.”
Dito isso, ele se virou e saiu.
Ricardo olhava para tudo aquilo sem conseguir acreditar. Ele não entendia por que ele, no sonho, se divorciaria dela. Sua preocupação e atenção eram reais, mas por que... por que se divorciar?
Ele olhou para Clara e viu suas mãos retorcendo os lençóis, enquanto lágrimas grandes como feijões rolavam por seu rosto, caindo silenciosamente sobre o cobertor branco. Ela chorava com tanto cuidado que não emitia um som sequer.
Ricardo tentou, desesperado, enxugar suas lágrimas, mas suas mãos atravessavam o corpo dela repetidas vezes.
Contudo, nenhum dos dois sabia:
Aquela foi a última vez que Clara viu Ricardo na vida passada.
Capítulo 35
Ao voltar do hospital, Clara sentia-se desolada, como uma alma errante sem lugar para onde ir.
Mas, na verdade, Ricardo sentia que ele era o verdadeiro espectro. Ele seguia Clara e não conseguia oferecer nem o consolo mais simples.
“Clang.”
A porta da frente abriu e fechou. Havia uma visita inesperada sentada no sofá.
Sabrina usava sapatos de verniz e uma calça boca de sino estilosa. O tecido na altura do busto de sua blusa criava camadas volumosas; sua franja estava impecavelmente alisada com uma curvatura, seu cabelo preso em um rabo de cavalo baixo e ela usava óculos sobre a ponte do nariz.
A sala estava impregnada pelo aroma amargo do café.