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《A Voz no Caixão》PARTE 6

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A noite em São Paulo estava pesada, sem vento, como se a cidade tivesse sido coberta por uma camada invisível de tensão.

Em um dos edifícios corporativos da região da Avenida Faria Lima, as luzes ainda estavam acesas no último andar, mesmo depois do horário normal de funcionamento.

Era ali que decisões que nunca chegavam ao público eram tomadas.

Henrique Albuquerque entrou pelo estacionamento privado sem ser anunciado. Estava com o paletó fechado, o rosto controlado, mas os dedos levemente tensos denunciavam o contrário. Ele não olhava para os lados. Sabia exatamente para onde estava indo.

No corredor silencioso, uma porta de vidro fosco se abriu automaticamente.

Dr. Augusto Menezes já o esperava.

Sem cumprimentos.

Sem formalidades.

Apenas silêncio.

A sala era minimalista, com uma mesa de vidro e dois copos de água intocados. Um projetor mostrava gráficos médicos antigos, parcialmente apagados, como se estivessem sendo reconstruídos em tempo real. Henrique parou por um segundo antes de sentar.

“Você demorou,” disse o médico.

Henrique não respondeu imediatamente.

“Eu precisava garantir que ninguém me seguisse.”

Dr. Augusto observou ele com calma.

“Não há mais ninguém interessado nisso além de nós.”

Henrique soltou uma leve respiração pelo nariz.

“Isso não é verdade.”

O médico inclinou levemente a cabeça.

“Você está nervoso.”

Henrique finalmente sentou.

“Estou sendo cauteloso.”

Silêncio.

O projetor mudou de imagem.

Um arquivo hospitalar antigo apareceu na tela.

Isabela Vasconcelos.

Dr. Augusto caminhou até a tela.

“Tudo está dentro do protocolo.”

Henrique cruzou os braços.

“Protocolo que está começando a falhar.”

O médico virou o rosto lentamente.

“Não está falhando.”

Henrique respondeu mais rápido.

“Ela estava viva no caixão.”

A frase caiu na sala como um peso.

Mas Dr. Augusto não reagiu como alguém surpreso.

Ele apenas ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois falou:

“Ela deveria parecer morta por doze horas.”

Henrique desviou o olhar por um instante.

“Doze horas não estavam no acordo original.”

O médico se aproximou da mesa.

“E ainda assim funcionou por sete minutos a mais do que o esperado.”

Henrique franziu a testa.

“Sete minutos foram suficientes para quase destruir tudo.”

O projetor mudou novamente.

Um código apareceu.

PR-07.

Henrique observou a tela com mais atenção agora.

“Esse nome está começando a aparecer em lugares demais.”

Dr. Augusto respondeu sem emoção:

“Porque alguém começou a procurar onde não deveria.”

Henrique respirou fundo.

“E se eles conectarem isso à Isabela?”

O médico finalmente o encarou diretamente.

“Eles não vão.”

“Você não pode ter certeza disso.”

Dr. Augusto caminhou lentamente até a janela.

Lá fora, Faria Lima parecia distante, quase irreal.

“Eu tenho certeza de uma coisa,” ele disse.

Henrique esperou.

O médico continuou:

“Se Isabela estiver viva, ela não está no estado original.”

Silêncio.

Henrique se levantou.

“Isso não foi o que você prometeu.”

Dr. Augusto não virou.

“Eu prometi controle.”

Henrique riu sem humor.

“Controle? Você viu o que aconteceu no hospital?”

O médico finalmente se virou.

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“Eu vi um sistema reagindo fora da curva esperada.”

Henrique deu um passo à frente.

“Ela respondeu dentro do caixão.”

Dr. Augusto permaneceu calmo.

“Reflexo neuromuscular.”

Henrique levantou a voz levemente.

“E a voz?”

Silêncio.

O médico caminhou de volta até a mesa.

Ele abriu uma gaveta e retirou um pen drive.

Colocou sobre a mesa.

“Você não deveria estar aqui para discutir isso,” ele disse.

Henrique olhou para o objeto.

“Então por que eu estou aqui?”

Dr. Augusto respondeu:

“Porque você é a última peça necessária para encerrar isso sem exposição.”

Henrique ficou imóvel.

“O que isso significa?”

O médico empurrou o pen drive para frente.

“Significa que amanhã tudo precisa parecer normal.”

Henrique não pegou o dispositivo imediatamente.

“E se não parecer?”

Dr. Augusto olhou para ele com calma excessiva.

“Então tudo que você construiu não vai sobreviver à manhã seguinte.”

Silêncio.

Henrique finalmente pegou o pen drive.

No hospital Santa Cecília, ao mesmo tempo, o sistema de segurança voltou a registrar atividade anormal. As câmeras do setor antigo começaram a piscar sem comando humano.

No monitor principal da sala de TI, um alerta apareceu:

“ACESSO NÃO AUTORIZADO – PROJETO PR-07”

Bruno Almeida, que estava de plantão, se aproximou rapidamente da tela.

“De novo…” ele murmurou.

Ele clicou para isolar a origem.

O sistema respondeu automaticamente.

ORIGEM: EXTERNA E INTERNA SIMULTÂNEA.

Bruno congelou.

“Isso não existe…”

Na sala da Faria Lima, Henrique observava o pen drive nas mãos.

“Se isso vazar…” ele começou.

Dr. Augusto interrompeu.

“Não vai vazar.”

Henrique levantou os olhos.

“Como você pode garantir?”

O médico respondeu sem hesitar:

“Porque a pessoa que poderia vazar isso não sabe ainda que está conectada a ele.”

Henrique franziu a testa.

“Quem?”

Dr. Augusto ficou em silêncio por um momento longo demais.

Depois disse apenas:

“A funcionária que gritou no funeral.”

Henrique ficou imóvel.

“Ana Clara?”

O médico assentiu levemente.

“Ela não deveria ter lembranças consistentes. Mas algo dentro dela está reagindo de forma diferente.”

Henrique apertou o pen drive com mais força.

“Você está dizendo que ela lembra?”

Dr. Augusto respondeu:

“Eu estou dizendo que o sistema não separou completamente os dois sujeitos.”

Silêncio pesado.

No hospital, Júlia Ribeiro estava sozinha no arquivo digital quando o sistema começou a reativar automaticamente uma pasta antiga.

Sem comando.

Sem autorização.

A tela abriu um documento parcialmente oculto.

Ela leu o título.

“PR-07 – vínculo neural cruzado inicial”

Júlia deu um passo para trás.

“Não…” ela sussurrou.

Na sala da Faria Lima, Henrique finalmente levantou.

“Então amanhã o casamento acontece normalmente.”

Dr. Augusto respondeu:

“Sim.”

Henrique olhou fixamente para ele.

“E Isabela?”

O médico não respondeu imediatamente.

Depois disse:

“Isabela não pode interferir no que ela ainda não entende completamente.”

Silêncio.

Henrique caminhou até a porta.

Antes de sair, parou.

“E se ela entender?”

Dr. Augusto respondeu apenas:

“Então você vai descobrir por que PR-07 nunca foi encerrado de verdade.”

A porta fechou.

E na tela do sistema hospitalar, sem que ninguém percebesse, um novo registro apareceu sozinho.

“SINCRONIZAÇÃO PARCIAL RESTAURADA”

E o nome de dois pacientes começou a piscar novamente, como se algo entre eles estivesse voltando a se reconectar lentamente dentro do sistema que ninguém mais conseguia controlar.

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