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《A Voz no Caixão》PARTE 2

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O silêncio que seguiu o primeiro “TOC” parecia mais pesado do que qualquer som dentro daquela capela no Morumbi.

Era como se o ar tivesse sido drenado da sala inteira, deixando apenas o vazio e a sensação incômoda de que algo impossível havia acabado de acontecer.

As pessoas não se moviam. Ninguém respirava direito. Até o padre parecia congelado com a cruz levantada no meio do gesto.

Ana Clara Nascimento ainda estava ajoelhada ao lado do caixão rachado. As mãos dela tremiam tanto que mal conseguiam tocar a madeira. Seus olhos estavam fixos na abertura, como se qualquer piscada pudesse fazer tudo desaparecer.

E então veio de novo.

TOC… TOC…

Desta vez, mais claro.

Mais definido.

Como se algo dentro estivesse tentando responder.

Um murmúrio percorreu a sala.

“Meu Deus…” alguém sussurrou.

Outro recuou dois passos, derrubando uma cadeira.

Ricardo Vasconcelos sentiu o corpo endurecer.

Ele não sabia exatamente quando tinha começado a perder o controle da situação, mas naquele momento percebeu que algo dentro dele estava rachando também — não o caixão, não a madeira, mas a própria certeza que ele carregava desde o hospital.

O padre baixou lentamente a mão.

“Isso não faz parte do rito…” ele disse, quase sem voz.

Mas ninguém respondeu.

Ana Clara levantou o rosto, lágrimas escorrendo sem controle.

“Ela está viva!” ela gritou com uma força desesperada. “Eu disse! Eu disse!!”

Do outro lado da sala, Henrique Albuquerque finalmente deu um passo à frente. Seu rosto estava pálido, mas seus olhos não mostravam surpresa. Mostravam cálculo. Algo frio, controlado demais para aquele momento.

“Isso é impossível,” ele disse baixo, mais para si mesmo do que para os outros.

Mas foi o médico quem rompeu o caos com a frieza mais cortante de todas.

Dr. Augusto Menezes caminhou lentamente até o centro, ajeitando o terno preto como se estivesse em uma reunião qualquer.

“Isso é uma reação muscular pós-morte,” ele disse com voz firme. “Não há vida aí dentro.”

Ana Clara virou-se para ele com ódio imediato.

“Você ouviu isso!” ela gritou. “Você está surdo?!”

O médico nem olhou para ela.

“Corpos podem emitir sons residuais por gases ou reflexos nervosos. Não significa nada.”

A palavra “nada” caiu como uma sentença.

Mas antes que alguém pudesse aceitar aquilo como explicação, o caixão respondeu novamente.

Desta vez não foi batida.

Foi algo diferente.

Um som mais baixo.

Mais humano.

“…pai…”

O mundo parou.

Não foi apenas silêncio.

Foi ausência.

Como se até o tempo tivesse sido interrompido.

Ricardo Vasconcelos sentiu o ar travar na garganta. Seus olhos se arregalaram lentamente, como se o cérebro recusasse processar o que tinha acabado de ouvir.

“Não…” ele sussurrou primeiro, quase sem voz.

Então deu um passo para trás.

Depois outro.

“Não pode ser…”

Sua mão encontrou o encosto de uma cadeira para não cair.

Ana Clara levou as mãos à boca, chorando de forma descontrolada.

“Eu disse…” ela repetia, quase em transe. “Eu disse que ela estava viva…”

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Um dos seguranças deixou cair o rádio no chão.

O som plástico ecoou na capela como um tiro.

Henrique ficou imóvel, mas seu maxilar se contraiu levemente. Algo nele não era medo. Era outra coisa. Irritação. Pressa.

Dr. Augusto finalmente franziu a testa.

Desta vez, ele não falou imediatamente.

Ele olhou para o caixão.

Longo demais.

Como se estivesse avaliando não um corpo, mas um problema.

“Isso não deveria ser possível…” ele murmurou.

Ricardo deu mais um passo, agora sem controle nenhum.

“Abra,” ele disse de repente.

A voz saiu quebrada.

“Abra agora.”

Um segurança hesitou.

“Senhor Ricardo, isso é—”

“EU DISSE ABRA!”

O grito ecoou pela capela inteira.

O padre recuou dois passos, fazendo o sinal da cruz repetidamente.

Ana Clara se levantou rapidamente.

“Não toquem nela!” ela gritou. “Vocês vão machucá-la!”

“Ela já está morta!” alguém respondeu do fundo.

Mas ninguém tinha certeza mais de nada.

Do lado de fora, um trovão distante começou a rolar sobre São Paulo, como se a cidade estivesse reagindo ao que acontecia dentro da capela.

Ricardo caminhou até o caixão.

Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Ele olhou para a madeira quebrada.

Para a rachadura aberta por Ana Clara.

E então, com as mãos tremendo, ele tocou a borda.

Um silêncio absoluto tomou conta.

Ele fechou os olhos por um segundo.

E empurrou.

A tampa cedeu parcialmente.

Um rangido profundo ecoou pelo salão.

“Pare!” Dr. Augusto gritou de repente, pela primeira vez perdendo a frieza.

Mas já era tarde.

Ricardo forçou mais.

A madeira abriu mais alguns centímetros.

Um cheiro estranho escapou de dentro — não de morte, mas de algo abafado, preso, como ar que não circulava há muito tempo.

Ana Clara deu um passo para frente.

“Ela está aqui…” ela sussurrou.

Henrique recuou lentamente, como se aquilo finalmente estivesse saindo do controle dele.

“Isso não devia estar acontecendo…” ele murmurou.

Ricardo respirava forte agora, suor na testa.

“Isabela…” ele disse, quase sem voz.

Nenhuma resposta imediata.

Só o silêncio dentro do caixão aberto parcialmente.

Então—

TOC.

Mais fraco desta vez.

Mas vindo de dentro.

Mais perto.

Mais vivo.

Ricardo congelou completamente.

E, pela primeira vez desde o início do funeral, sua expressão não era de autoridade.

Era de medo.

Um medo absoluto, irreversível, como se ele estivesse diante de algo que nunca deveria ter sido aberto.

Atrás dele, Ana Clara sussurrou novamente, chorando:

“Ela respondeu de novo…”

E dentro do caixão, algo pareceu se mover lentamente, como se a própria escuridão estivesse acordando.

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