O carro alugado descia a Rodovia dos Imigrantes em silêncio absoluto.
Isabela Monteiro Vasconcelos não dizia uma palavra.
O rádio estava desligado.
O celular, virado para baixo no painel, parecia mais pesado do que qualquer objeto físico deveria ser.
Rafael Albuquerque dirigia com as duas mãos firmes no volante, mas o olhar dele não estava totalmente focado na estrada. Havia algo de inquietação constante, como se ele estivesse ouvindo uma frequência que ninguém mais podia perceber.
Isabela finalmente quebrou o silêncio.
“Você sabia desde o começo…”
Rafael não respondeu imediatamente.
A estrada se estendia em curvas descendentes, levando o carro em direção ao litoral.
“Guarujá é o único lugar com interferência mínima do sistema”, ele disse por fim.
Isabela riu sem humor.
“Sistema…”
Ela virou o rosto para a janela.
O verde da Serra do Mar parecia bonito demais para um dia como aquele.
“Você não respondeu minha pergunta”, ela disse.
Rafael respirou fundo.
“Sim.”
Isabela virou bruscamente.
“Sim o quê?”
Ele manteve os olhos na estrada.
“Sim, eu sabia que você já tinha passado por isso antes.”
O silêncio voltou a cair dentro do carro.
Mais pesado.
Mais sufocante.
Isabela apertou o cinto de segurança como se isso pudesse estabilizar algo dentro dela.
“Então todas aquelas mensagens… todos aqueles avisos…”
Rafael interrompeu.
“Não são apenas avisos.”
Ela franziu a testa.
“Então o quê são?”
Ele hesitou.
“Resíduos.”
Isabela sentiu um frio subir pelo corpo.
“Resíduos de quê?”
Rafael não respondeu imediatamente.
E isso já era resposta suficiente.
O carro entrou no túnel da rodovia.
A luz mudou.
O som também.
E por um segundo, o mundo pareceu artificialmente suspenso.
Foi então que o celular vibrou no painel.
Isabela congelou.
“Não… não…”, ela murmurou.
Rafael não olhou para o aparelho.
“Não pegue ainda”, ele disse baixo.
Mas já era tarde.
Isabela pegou o celular.
A tela acendeu.
Sem desbloqueio.
Mensagem nova.
“VOCÊ ESTÁ SE AFASTANDO DO PONTO DE ESTABILIDADE.”
Isabela sentiu a respiração falhar.
“Ponto de estabilidade…?”, ela repetiu.
Rafael apertou o volante com mais força.
“Não responda”, ele disse.
Mas outra mensagem apareceu imediatamente.
“ISABELA MONTEIRO VASCONCELOS — MOVIMENTO REGISTRADO.”
Isabela largou o celular no painel.
“Isso está nos seguindo…”
Rafael acelerou levemente.
“Não está nos seguindo”, ele disse. “Está te acompanhando.”
Isabela virou para ele.
“Qual a diferença?!”
Ele não respondeu.
O carro saiu do túnel.
E a luz do litoral começou a aparecer no horizonte.
Guarujá.
Mar.
Horizonte aberto.
Mas nada disso trouxe alívio.
Pelo contrário.
Isabela sentia que o mundo estava grande demais.
Aberto demais.
Como se não houvesse mais lugares para se esconder.
Quando chegaram à cidade, o trânsito diminuiu.
Prédios baixos.
Praia visível entre ruas.
O som do mar ao longe.
Eles estacionaram próximo à Praia de Pitangueiras.
Isabela saiu do carro imediatamente.
Respirou fundo.
O ar salgado entrou forte nos pulmões.
Por um segundo, ela quase acreditou que poderia ser normal.
Quase.
Rafael se aproximou.
“Esse lugar reduz interferência do Chronos.”
Isabela olhou para o mar.
“Chronos de novo…”
Ela virou para ele.
“Você nunca me contou tudo.”
Rafael ficou em silêncio.
O vento veio forte do oceano.
E naquele instante, o celular vibrou novamente.
Mas não no carro.
No bolso de Isabela.
Ela olhou.
Mensagem nova.
Mas o que apareceu fez o corpo dela congelar completamente.
Remetente:
“ISABELA (FUTURO)”
Ela deu um passo para trás.
“Não… isso não…”
Rafael percebeu imediatamente.
“Mostra.”
Isabela abriu a mensagem lentamente.
“VOCÊ ACREDITOU QUE O LITORAL TE PROTEGERIA.”
Isabela começou a tremer.
“Isso não é possível…”
Rafael franziu a testa.
“Abra a próxima linha.”
Ela deslizou a tela.
Outra mensagem apareceu sozinha:
“MAS VOCÊ JÁ ESTÁ AQUI ANTES.”
Isabela levantou o olhar imediatamente.
“Isso é impossível! Eu nunca estive aqui!”
Rafael ficou imóvel por um segundo.
E então disse algo baixo:
“Você não lembra porque não foi esse ciclo.”
Isabela gritou:
“O QUÊ?!”
O som do mar parecia mais distante agora.
Mais artificial.
Como se estivesse sendo reproduzido.
O celular vibrou novamente.
“MEMÓRIA PARCIAL BLOQUEADA PARA PROTEÇÃO DO CICLO ATUAL.”
Isabela jogou o celular na areia.
“Eu não quero isso! Eu não quero nada disso!”
Rafael se agachou rapidamente e pegou o aparelho.
“Não faz isso.”
Mas Isabela estava em colapso.
“Você mentiu pra mim desde o começo!”
Rafael respirou fundo.
“Eu não menti sobre tudo.”
Ela riu desesperada.
“Só sobre o fato de que eu já morri antes?!”
Silêncio.
Essa foi a resposta.
Isabela deu um passo para trás.
“Você está confirmando isso…”
Rafael não negou.
O vento ficou mais forte.
E o celular, mesmo na mão dele, acendeu sozinho.
Nova mensagem:
“RECONEXÃO DE CAMADA TEMPORAL INICIADA.”
Rafael ficou pálido pela primeira vez.
“Isso não deveria acontecer aqui…”
Isabela viu a reação dele.
E isso foi pior do que qualquer mensagem.
“Rafael… o que está acontecendo?”
Ele olhou para o mar.
Depois para ela.
E disse:
“O sistema não deveria conseguir te alcançar aqui.”
Isabela sentiu o corpo inteiro congelar.
“Mas está alcançando…”
Rafael assentiu lentamente.
E então o celular vibrou mais uma vez.
Mais forte.
Mais contínuo.
Como se estivesse perdendo controle.
Isabela olhou para a tela novamente.
E viu algo que não estava lá antes.
A imagem dela mesma.
Mas não era foto.
Era vídeo.
Ela estava na praia.
Mas não era agora.
Era outra versão.
E ela estava olhando diretamente para a câmera.
E dizendo algo sem áudio.
A boca formando palavras claras:
“EU JÁ TE AVISEI NESTE LUGAR.”
Isabela caiu de joelhos na areia.
“Não… não… isso não pode estar acontecendo…”
Rafael se aproximou rapidamente.
“Isabela, levanta.”
Mas ela não conseguia.
Porque atrás dele, na beira do mar, uma outra pessoa estava parada.
Imóvel.
Olhando diretamente para ela.
E Isabela percebeu, com terror absoluto, que aquela pessoa tinha o seu próprio rosto.