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《Você Vai Morrer às 15:10》PARTE 4

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Isabela Monteiro Vasconcelos não dormiu naquela noite.

Ela ficou sentada no sofá do apartamento em Vila Mariana, encarando o celular como se ele pudesse explodir a qualquer momento. Cada vibração distante de notificação no prédio fazia seu corpo reagir antes da mente.

Rafael Albuquerque ainda tinha dito:

“Isso não veio da internet.”

Essa frase agora parecia menos uma explicação e mais uma abertura de algo que não deveria existir.

O relógio marcava 02:18 da manhã.

E pela primeira vez desde que tudo começou, Isabela não tentou fugir. Ela tentou entender.

Mas entender era impossível.

Porque o celular não parava de existir como uma ameaça viva sobre a mesa.

Ela abriu novamente as mensagens.

“Você vai morrer hoje às 15:10.”

Ainda lá.

Fixada.

Como uma sentença que não precisava de julgamento.

Isabela respirou fundo.

“Se isso é um padrão… então tem lógica”, ela disse para si mesma.

Ela pegou papel e caneta.

Começou a escrever.

Ana Rosa — evitado.

Rua Vergueiro — ativado.

Estação — mudança de comportamento = resposta nova.

Ela parou.

“Isso está reagindo a mim…”

A ideia fez seu estômago apertar.

Ela tentou outro caminho.

E se o objetivo não fosse evitar?

E se fosse… testar?

Na manhã seguinte, São Paulo acordou cinza como sempre. O céu parecia mais baixo do que o normal. Isabela saiu do apartamento cedo, sem avisar ninguém.

Camila Ribeiro.

Sua melhor amiga.

Ela precisava vê-la.

Precisava de uma âncora humana.

Camila trabalhava em uma clínica odontológica na região da Liberdade. Sempre pontual, sempre previsível. O tipo de pessoa que fazia o mundo parecer estável.

Isabela entrou no metrô às 09:43.

O mesmo sistema.

O mesmo som metálico.

Mas agora tudo parecia diferente.

Cada pessoa no vagão parecia levemente suspeita.

Como se qualquer uma delas pudesse estar conectada àquilo.

O celular vibrou.

Ela hesitou.

Abriu.

“Você decidiu testar o sistema. Isso é novo.”

Isabela fechou os olhos.

“Para de me observar…”, ela sussurrou.

Mas ninguém respondeu.

Ela chegou à estação São Joaquim e caminhou rápido até a clínica.

Camila estava na recepção, organizando papéis.

Quando viu Isabela, sorriu.

“Você sumiu ontem o dia inteiro! Tá tudo bem?”

Isabela forçou um sorriso.

“Preciso falar com você.”

Camila percebeu o tom.

“Ok… entra aqui.”

Elas foram para uma sala pequena nos fundos.

Isabela fechou a porta.

“Eu estou recebendo mensagens.”

Camila riu nervosamente.

“Tipo spam?”

“Não. Mensagens que dizem quando eu vou morrer.”

O sorriso de Camila desapareceu lentamente.

“Isso não é engraçado, Isa.”

“Eu não estou brincando.”

Silêncio.

Camila cruzou os braços.

“Você está dormindo direito?”

Isabela bateu na mesa.

“Camila, olha pra mim. Isso aconteceu hoje no metrô. Eu quase morri porque eu saí da estação um minuto antes de…”

O celular vibrou.

Isabela congelou.

Ela olhou.

Mensagem nova.

Mas não era para ela.

Era para Camila.

Isabela mostrou a tela lentamente.

Camila franziu a testa.

“Isso não é meu número.”

Isabela abriu.

A mensagem dizia:

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“12:17 — ela vai estar com você.”

Camila ficou imóvel.

“Isso é algum tipo de golpe?”

Isabela não respondeu.

Porque outra mensagem apareceu.

“Você mudou o alvo.”

Isabela sentiu o corpo gelar.

“Não… não, não, não…”

Camila começou a rir nervosamente.

“Isabela, isso não faz sentido. Você está me assustando.”

Isabela pegou o celular da amiga.

“Não sai daqui agora.”

Camila recuou um passo.

“Você tá me assustando de verdade.”

Isabela tentou ligar para Rafael.

Sem resposta.

Mais uma mensagem.

“Agora o sistema escolheu uma alternativa.”

O ar ficou pesado.

Isabela olhou para Camila.

“Fica comigo hoje.”

“Isabela…”

“FICA COMIGO.”

Camila hesitou.

E então concordou.

“Tá… tá bom.”

Elas saíram da clínica juntas.

13:40.

Isabela não tirava os olhos do relógio.

Cada minuto parecia mais curto.

Cada som parecia mais alto.

O celular vibrou de novo.

“Você está tentando salvar alguém que não estava no cálculo original.”

Isabela sentiu náusea.

“Cálculo…?”, ela murmurou.

Camila percebeu.

“O que foi?”

Isabela não respondeu.

Elas estavam na Rua da Liberdade agora.

Movimento normal.

Turistas.

Trânsito.

Vida.

Mas Isabela não conseguia ver nada disso como normal.

E então aconteceu.

Um ônibus perdeu o controle levemente ao fazer a curva.

Não foi um acidente grande.

Foi pequeno.

Quase invisível.

Mas suficiente.

Camila deu um passo para o lado para evitar uma colisão leve com um pedestre.

E naquele exato movimento…

Um carro subiu meio meio-fio.

Isabela viu antes de entender.

“CAMILA!”

Ela empurrou a amiga.

O impacto não atingiu Camila.

Atingiu Isabela no ombro.

Ela caiu no chão.

O som foi seco.

Camila gritou.

“ISABELA!”

Pessoas correram.

O motorista desceu desesperado.

Isabela sentia dor, mas não era isso que dominava.

Era confusão.

Porque o acidente não tinha sido grande o suficiente para aquilo.

Mas o celular vibrou no bolso dela, no chão.

Mesmo caída.

Ela pegou.

Mensagem nova.

“Você não deveria ter sobrevivido ao ajuste anterior.”

Isabela tremia.

“Aj… ajuste…?”, ela sussurrou.

Camila estava ao lado dela, em choque.

“Você tá sangrando… a gente precisa de ajuda!”

Mas Isabela não conseguia olhar para Camila.

Porque outra mensagem apareceu imediatamente.

“Você viveu.”

“Ela não.”

Isabela congelou.

“Não…”

Ela virou lentamente a cabeça.

Camila ainda estava ali.

Viva.

Mas então o celular vibrou de novo.

“Correção: o sistema compensou em outro ponto.”

Isabela sentiu o sangue esfriar completamente.

“Não… não… para…”

Camila segurou o rosto dela.

“Isabela, olha pra mim!”

Isabela abriu a boca.

Mas não conseguiu falar.

Porque ao longe, na rua lateral, sirenes começaram a soar.

E uma pessoa desconhecida estava sendo coberta por uma lona no chão.

Alguém que Isabela nunca tinha visto.

Mas a mensagem no celular dizia:

“Você viveu porque alguém que não estava no seu lugar morreu.”

Isabela arregalou os olhos.

E pela primeira vez entendeu.

Não era sobre ela escapar.

Era sobre o sistema manter o resultado.

Camila começou a chorar.

“Isabela… o que tá acontecendo?”

Isabela olhou para o celular.

A última mensagem apareceu sozinha:

“Você está viva porque o sistema decidiu que a morte não pode ser evitada.”

Ela respirou fundo.

E percebeu algo pior do que tudo até agora.

A morte não tinha falhado.

Ela tinha sido transferida.

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