A chuva fina caía sobre São Paulo naquela noite, mas Isabela não sentia o frio.
Desde que saiu do hospital, tudo dentro dela parecia suspenso, como se o mundo tivesse perdido a capacidade de confirmar qualquer coisa como real.
Ela caminhava sem direção pela Avenida Paulista.
As luzes dos prédios se distorciam levemente em seus olhos.
E cada passo parecia menos seu.
Mais automático.
Mais distante.
Marcos não estava mais com ela.
Henrique havia desaparecido do seu campo de visão após o colapso no hospital.
Mas algo tinha ficado.
Uma frase.
“DOIS ESTADOS ATIVOS.”
Ela repetia isso mentalmente sem parar.
“Dois estados…”
“Dois estados…”
O celular vibrou.
Mensagem desconhecida.
Sem número.
“VOCÊ PRECISA VER O QUE FOI RECUPERADO.”
Isabela parou.
Respirou fundo.
“Quem está me mandando isso…”
Outra mensagem.
“EU SOU O TÉCNICO DO BACKUP DO SISTEMA.”
Isabela hesitou.
“Backup…”
Ela abriu o link.
Tela preta.
Depois carregamento lento.
E então…
imagens.
Arquivos antigos.
Fotos borradas.
Registros parcialmente corrompidos.
Isabela franziu a testa.
“Isso não é do hospital…”
Mas continuou olhando.
E então viu.
Um nome.
LORENZO ALMEIDA MONTENEGRO
O coração dela parou por meio segundo.
“Não…”
Ela abriu o arquivo.
Vídeo.
Granulado.
Baixa qualidade.
Mas real.
Muito real.
Uma sala hospitalar antiga.
Não a atual.
Outra versão do Santa Cecília.
Mais velha.
Mais caótica.
Uma criança estava no centro da imagem.
Um menino.
Lorenzo.
Isabela começou a tremer.
“Isso… isso não é possível…”
No vídeo, uma enfermeira segurava o menino.
Ele chorava.
Chamando alguém.
“Mamãe…”
Isabela levou a mão à boca.
“Não…”
A câmera tremia.
Alguém ao fundo falava:
“PROCEDIMENTO DE ISOLAMENTO DA AMOSTRA 07.”
Isabela congelou.
“Amostra?”
De repente, outra imagem apareceu.
Relatório médico.
CLASSIFICAÇÃO: VARIANTE NEURAL SECUNDÁRIA
Isabela leu rapidamente.
“Paciente pediátrico derivado de instabilidade cognitiva da mãe.”
Ela parou.
“Derivado…”
Mais linhas surgiram.
“Manifestação de memória emocional projetada.”
Isabela começou a respirar rápido.
“Isso não pode ser meu filho…”
Mas então o vídeo continuou.
O menino olhou diretamente para a câmera.
E disse:
“Mãe, não me deixa aqui.”
Isabela caiu de joelhos na rua.
“Não…”
O telefone tocou.
Marcos.
Ela atendeu imediatamente.
“VOCÊ VIU ISSO?”
Ele respirava rápido.
“Sim.”
Isabela gritava:
“ELE EXISTE!”
Marcos hesitou.
“Existe… mas não da forma que você pensa.”
Isabela ficou imóvel.
“O que isso quer dizer?”
Marcos respondeu:
“Ele não foi registrado como nascimento normal.”
Isabela apertou o celular.
“Então o quê ele é?”
Silêncio.
Depois:
“Um evento colateral do processo de reconstrução.”
Isabela levantou a voz.
“ELE É MEU FILHO!”
Marcos respondeu mais baixo:
“Ele é uma projeção estabilizada de memória emocional.”
Isabela começou a chorar.
“Não…”
Ela correu.
Sem direção.
Até chegar ao laboratório de dados que Marcos tinha mencionado antes.
Um prédio discreto na região da Bela Vista.
Ela entrou sem autorização.
Ninguém a parou.
Como se já soubessem que ela viria.
Lá dentro, Tiago “Byte” Ribeiro a esperava.
Olheiras profundas.
Computadores ligados.
Linhas de código na tela.
Ele olhou para ela.
“Você viu o arquivo.”
Isabela respirava pesado.
“Eu vi ele.”
Tiago assentiu.
“Sim.”
Isabela gritou:
“ELE É REAL!”
Tiago hesitou.
“Ele é funcional.”
Isabela ficou confusa.
“O quê?”
Ele virou a tela.
“Lorenzo não é uma pessoa biológica completa.”
Isabela avançou.
“Para de falar isso!”
Tiago continuou:
“Ele é um módulo de estabilização emocional gerado pelo seu primeiro colapso cognitivo.”
Isabela gritou:
“EU NÃO CRIEI UM FILHO!”
Tiago respondeu:
“Seu cérebro criou para sobreviver.”
Ela caiu em uma cadeira.
“Isso não é verdade…”
Tiago mostrou mais dados.
GRÁFICO DE INTERFERÊNCIA NEURAL
Isabela se viu lá.
Atividade cerebral em pico.
E uma formação paralela.
“PROCESSO DE COMPENSAÇÃO AFETIVA”
Isabela sussurrou:
“Ele nasceu da minha mente…”
Tiago respondeu:
“Ele nasceu do seu trauma.”
De repente, a tela travou.
E um novo arquivo começou a ser reconstruído sozinho.
Vídeo novamente.
Mas diferente.
Agora mais claro.
Mais estável.
Lorenzo estava correndo.
E chamando:
“Mamãe Isabela!”
Isabela levantou abruptamente.
“Isso está acontecendo agora?”
Tiago ficou tenso.
“Isso não deveria estar ativo…”
Isabela deu um passo à frente.
“O que você quer dizer?”
Tiago olhou para a tela.
“Esse arquivo não é passado.”
Isabela congelou.
“O que é então?”
Ele respondeu lentamente:
“É transmissão ativa.”
Isabela arregalou os olhos.
“De onde?”
Tiago não respondeu.
Mas o vídeo continuava.
E agora o menino olhava diretamente para ela.
Como se a estivesse vendo.
Mesmo através de tudo.
E disse novamente:
“Mamãe… por que você não vem me buscar?”
Isabela começou a tremer violentamente.
“Ele está… me vendo?”
Tiago respondeu em voz baixa:
“Não deveria ser possível.”
A tela começou a distorcer.
Os dados ficaram instáveis.
E uma nova linha apareceu sozinha:
“CONEXÃO ESTABELECIDA ENTRE LORENZO E INSTÂNCIA ISABELA ATIVA”
Isabela levou a mão ao rosto.
“Ele está vivo…”
Tiago respondeu:
“Ele está conectado.”
Isabela sussurrou:
“Conectado a quê?”
Tiago olhou para ela com medo real agora.
“À sua versão original.”
E então, o vídeo mudou de novo.
O menino parou de correr.
Olhou diretamente para a câmera.
E disse claramente:
“Mamãe… eu estou aqui dentro.”
Isabela ficou paralisada.
E a tela do sistema começou a mostrar algo impossível:
BATIMENTO CARDÍACO DUPLO DETECTADO
SINCRONIZAÇÃO PARCIAL EM ANDAMENTO
Isabela não conseguiu mais respirar direito.
E no fundo da tela…
o rosto de Lorenzo começou a sorrir lentamente…
como se tivesse finalmente sido ouvido.