O som do monitor cardíaco era o primeiro sinal de que ela ainda estava viva. Um bip constante, frio, mecânico, ecoando pelas paredes brancas do Hospital Santa Cecília, em São Paulo.
Isabela abriu os olhos lentamente, sentindo a cabeça pesada, como se tivesse sido apagada e reiniciada ao mesmo tempo. O cheiro de álcool hospitalar misturado com metal queimado invadia suas narinas, mas nada parecia familiar.
Ela piscou várias vezes.
“Onde… eu estou?” sua voz saiu fraca, quase irreconhecível até para ela mesma.
Uma enfermeira se aproximou imediatamente, sorrindo como se já conhecesse sua história inteira.
“Calma, dona Isabela. A senhora está segura agora. Seu marido já foi avisado.”
Isabela franziu a testa.
“Meu… marido?”
A palavra pareceu errada na boca dela. Estranha. Pesada. Como se alguém tivesse colocado isso nela sem permissão.
A enfermeira ajustou o soro com naturalidade.
“Sim, o senhor Rafael Montenegro vem todos os dias. Ele estava muito preocupado com a senhora.”
Isabela tentou se levantar, mas uma tontura forte a fez cair de volta no leito. Sua respiração acelerou.
“Você está confundindo. Eu não sou casada com ninguém. Eu não tenho marido.”
A enfermeira parou por um segundo. Só um segundo. Mas foi suficiente para Isabela perceber algo errado naquele silêncio.
Depois, um sorriso forçado.
“Dona Isabela, isso pode ser efeito da medicação. A senhora passou por um trauma neurológico.”
Isabela olhou ao redor do quarto. Tudo era branco demais. Limpo demais. Perfeito demais para ser real.
Havia uma televisão desligada no canto, um vaso com flores artificiais e uma janela com vista para o bairro dos Jardins. São Paulo brilhava lá fora, indiferente.
Mas nada fazia sentido dentro da cabeça dela.
Ela levou a mão à própria testa.
“Eu preciso ir embora.”
“Não pode ainda, senhora.”
“Por quê?”
A enfermeira hesitou.
“Porque o seu marido pediu observação completa.”
Isabela sentiu um choque no peito.
“Eu não tenho marido.”
Mas dessa vez ninguém respondeu.
Duas horas depois, Isabela estava sozinha. Ou pelo menos era o que ela achava.
O quarto tinha sido deixado em silêncio absoluto. Apenas o som distante de passos no corredor quebrava o vazio. Ela observava as próprias mãos. Tremiam. Não de fraqueza, mas de confusão.
Ela tentou puxar memórias.
Nada vinha com clareza.
Nome? Sim. Isabela Nogueira Almeida. Idade? 32 anos. Profissão? Arquiteta.
Mas quando tentava ir além disso, era como bater em uma parede.
Ela fechou os olhos.
E então viu algo.
Um vestido branco.
Luzes.
Um homem alto de olhos escuros segurando sua mão.
“Eu aceito…”
A imagem veio como um flash violento e desapareceu no mesmo instante.
Isabela abriu os olhos com um sobressalto.
“Não… isso não é meu.”
Ela começou a respirar rápido.
“Isso não é meu!”
A porta do quarto se abriu.
Um homem entrou.
Elegante. Calmo. Controle absoluto no olhar.
Isabela congelou.
“Quem é você?”
Ele sorriu como se já esperasse essa pergunta.
“Sou o Dr. Henrique Valença. Estou cuidando do seu caso.”
“Meu caso?”
Ele aproximou-se devagar, sem pressa.
“Você sofreu um acidente. Um trauma neurológico severo. Sua memória está fragmentada.”
Isabela negou imediatamente.
“Eu não sofri acidente nenhum. Eu lembro da minha vida.”
O médico inclinou a cabeça.
“E o que exatamente você lembra?”
Ela abriu a boca… e parou.
Porque naquele instante percebeu algo aterrador.
Ela lembrava de coisas soltas.
Um apartamento em São Paulo.
Um celular preto.
Uma assinatura em um contrato.
Mas não lembrava de casamento.
Não lembrava de marido.
Não lembrava de filho.
O médico observava tudo com atenção cirúrgica.
“Está vendo? Isso é normal no seu estado.”
Isabela apertou os lençóis com força.
“Você está mentindo pra mim.”
Ele não respondeu imediatamente.
Apenas colocou um tablet sobre a mesa ao lado dela.
“Talvez isso ajude.”
Ele apertou o play.
A tela acendeu.
E Isabela viu o impossível.
Ela mesma.
Vestida de noiva.
Em uma igreja luxuosa de São Paulo.
Faria Lima ao fundo nos vitrais modernos.
Ela caminhando lentamente até o altar.
Sorrindo.
E segurando a mão de um homem.
Rafael Montenegro Vasconcelos.
Isabela arregalou os olhos.
“Isso… isso não pode ser eu.”
Mas a imagem não parava.
A câmera mostrava convidados.
Família.
Assinaturas.
Beijos.
Aliança no dedo dela.
“Não…” ela sussurrou.
A enfermeira entrou no quarto nesse momento, observando silenciosamente.
Isabela apontou para a tela.
“Isso é falso! Eu nunca me casei!”
O médico manteve a voz baixa.
“Isabela… esse vídeo foi gravado há três anos.”
Ela sentiu o chão sumir.
“Três anos?”
“Sim.”
“Isso não é possível…”
Ela começou a tremer.
“EU NÃO ME LEMBRO DISSO!”
O médico deu um passo mais perto.
“Essa é exatamente a questão.”
Isabela respirava cada vez mais rápido.
“Então onde eu estava nesses três anos?”
Silêncio.
O médico não respondeu.
A enfermeira desviou o olhar.
Isso foi pior que qualquer resposta.
Isabela puxou o tablet com força.
Repetiu o vídeo.
Outra vez.
Outra vez.
Ela tentando encontrar um erro.
Uma falha.
Algo falso.
Mas tudo parecia… real demais.
Até que ela viu algo.
Um detalhe mínimo.
No canto da tela.
A data do casamento.
Ela aproximou o rosto.
Leu devagar.
E o mundo dela desabou completamente.
A data era impossível.
Porque dizia claramente:
“Há 3 anos.”
Isabela soltou o tablet no chão.
E pela primeira vez desde que acordou, ela não gritou.
Ela apenas sussurrou:
“Isso não pode estar acontecendo comigo…”
E nesse exato momento, o monitor cardíaco começou a acelerar sozinho.
Sem explicação.
Sem causa aparente.
Como se algo dentro dela tivesse acabado de lembrar de algo que não deveria existir.
E a tela do vídeo, mesmo quebrada no chão, ainda mostrava o casamento acontecendo… outra vez.