《A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida》PARTE 11

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O Hospital Santa Cecília não parecia mais um hospital.

Parecia uma sala de decisão.

Isabela estava de um lado da sala.

A outra Isabela estava do outro.

Entre elas, uma mesa vazia.

E ao redor, não apenas médicos.

Mas representantes jurídicos, técnicos de sistema e autoridades externas que Isabela nunca tinha visto antes.

O ambiente estava mais frio do que antes.

Não por temperatura.

Mas por intenção.

Helena Duarte estava visivelmente abalada.

Caio Mendonça permanecia em silêncio absoluto.

Rafael não estava mais do lado de fora.

Dessa vez ele estava dentro da sala.

E isso piorava tudo.

Porque agora ele não era apenas observador.

Ele era variável decisiva.

Um dos representantes jurídicos deu um passo à frente.

“Precisamos encerrar a instabilidade do sistema.”

Isabela franziu a testa imediatamente.

“Instabilidade?”

O homem respondeu sem emoção:

“Dois registros idênticos não podem coexistir no mesmo ambiente social e jurídico.”

A outra Isabela falou calmamente:

“Isso não é instabilidade. É coexistência.”

Isabela virou rapidamente.

“Coexistência de quê?”

A outra respondeu:

“De mim.”

Silêncio.

O representante jurídico continuou:

“O sistema legal não reconhece duplicidade de identidade funcional plena.”

Isabela deu um passo à frente.

“Eu não sou duplicata.”

A outra Isabela respondeu imediatamente:

“Eu também não.”

As duas se olharam.

E pela primeira vez, não havia ataque.

Só espelho.

Rafael levou a mão ao rosto.

“Isso não pode estar acontecendo…”

Helena respondeu baixo:

“Já está acontecendo.”

O representante jurídico abriu um documento.

“Relatório final do comitê técnico.”

Ele leu em voz alta:

“Após análise de sincronização completa entre ISB-01 e ISB-02, conclui-se que ambas instâncias atingiram equivalência funcional superior a 99,9%.”

Silêncio absoluto.

Isabela ficou imóvel.

O homem continuou:

“Portanto, não há critério objetivo de distinção original.”

Isabela sentiu o corpo gelar.

“Então vocês não sabem quem é quem…”

O homem respondeu:

“Não importa mais quem é quem.”

Uma pausa.

“Importa quem deve permanecer.”

Silêncio.

A outra Isabela fechou os olhos por um segundo.

Rafael deu um passo à frente.

“O que isso significa?”

O representante respondeu diretamente:

“Significa que o sistema não suporta duas instâncias simultâneas da mesma identidade social ativa.”

Isabela franziu a testa.

“Sistema?”

O homem continuou:

“Registros civis. Bancos. contratos. redes sociais. estrutura familiar. tudo conflita.”

Helena sussurrou:

“Colapso de identidade sistêmica…”

Isabela virou para ela.

“Isso é uma pessoa.”

Helena não respondeu.

O homem continuou:

“Portanto, uma instância precisa ser desativada.”

Silêncio.

A palavra ficou suspensa no ar.

Desativada.

Isabela deu um passo para trás.

“Você quer dizer… apagada?”

O homem não corrigiu.

E isso foi a resposta.

A outra Isabela respirou lentamente.

“Isso é absurdo.”

O representante respondeu:

“Isso é necessário.”

Rafael levantou a voz:

“Você não pode decidir isso assim!”

O homem virou para ele.

“Senhor Rafael Albuquerque, sua relação com ambas instâncias compromete sua capacidade de decisão.”

Rafael ficou em silêncio.

Porque era verdade.

Ele não conseguia mais decidir nada.

Isabela olhou para ele.

E percebeu isso.

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“Você também não sabe…”

Rafael não respondeu.

A outra Isabela falou baixo:

“Isso não pode ser resolvido com eliminação.”

O representante respondeu:

“Pode e será.”

Helena deu um passo à frente.

“Isso é biologicamente e neurologicamente inaceitável.”

O homem respondeu:

“Mas socialmente inevitável.”

Silêncio.

Caio Mendonça finalmente falou pela primeira vez.

“Não é eliminação.”

Todos olharam para ele.

Caio continuou calmamente:

“É seleção de continuidade dominante.”

Isabela virou rapidamente.

“Você está defendendo isso?”

Caio respondeu:

“Estou descrevendo o sistema.”

Isabela gritou:

“EU SOU UMA PESSOA!”

Silêncio.

O som ecoou pela sala.

A outra Isabela não gritou.

Ela apenas olhou.

E disse:

“Eu também.”

Rafael fechou os olhos.

“Eu não consigo mais…”

O representante jurídico abriu outro arquivo.

“Existe protocolo.”

Isabela congelou.

“Protocolo?”

Ele assentiu.

“Teste de divergência emocional extrema.”

Helena sussurrou:

“Não…”

Isabela virou para ela.

“O que é isso?”

Helena hesitou.

“Uma avaliação final de estabilidade entre instâncias.”

Isabela deu um passo à frente.

“Que tipo de avaliação?”

O homem respondeu:

“Contato direto.”

Silêncio.

Rafael levantou a cabeça.

“Contato?”

O homem confirmou:

“As duas instâncias serão colocadas em confronto direto sem mediação.”

Isabela sentiu o sangue gelar.

“Vocês vão nos colocar uma contra a outra…”

O homem respondeu:

“Para determinar divergência residual.”

A outra Isabela deu um passo à frente.

“Isso não é necessário.”

O representante respondeu:

“É final.”

Silêncio absoluto.

Isabela respirou fundo.

E olhou para a outra versão dela.

Pela primeira vez, sem raiva.

Sem acusação.

Só entendimento forçado.

“Eles vão escolher entre nós.”

A outra Isabela respondeu:

“Sim.”

Rafael ficou imóvel.

“Eu não vou participar disso.”

O representante respondeu:

“Você já participa.”

Helena começou a chorar em silêncio.

“Isso vai destruir tudo…”

Caio respondeu calmamente:

“Não. Vai estabilizar.”

Isabela virou para ele.

“Você chama isso de estabilidade?”

Caio respondeu:

“Sim.”

Uma pausa.

“Um sistema não pode manter duas verdades idênticas conflitantes.”

Silêncio.

Isabela respirou fundo.

E então falou mais baixo:

“Então isso não é sobre quem eu sou.”

Ela olhou para a outra.

“É sobre quem vai continuar existindo.”

A outra Isabela assentiu lentamente.

“Sim.”

Rafael deu um passo para trás.

“Eu não consigo escolher isso…”

O representante respondeu:

“Você não vai escolher.”

Silêncio.

Isabela fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, sua voz estava mais baixa.

“Então quem escolhe?”

O homem respondeu:

“O sistema de validação final.”

Helena levantou a cabeça rapidamente.

“ISB-00…”

Caio não respondeu.

Mas o silêncio dele confirmou tudo.

Isabela sentiu o ar desaparecer da sala.

“O Observador…”

O representante confirmou:

“Já está ativo.”

As luzes da sala piscaram lentamente.

E todas as telas ao redor se acenderam ao mesmo tempo.

Mostrando apenas uma frase:

FINAL RESOLUTION INITIATED

Isabela ficou imóvel.

E pela primeira vez, não havia mais dúvida entre elas.

Apenas um fato inevitável:

Uma delas não sairia daquela sala como pessoa reconhecida pelo mundo.

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