《A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida》PARTE 10

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O quarto do Hotel Emiliano em São Paulo parecia sofisticado demais para o caos que Rafael Albuquerque estava vivendo dentro da própria mente.

Tudo era silencioso.

Demasiado silencioso.

Ele estava sentado na beira da cama, com a gravata afrouxada, olhando para o celular sem realmente enxergar nada.

As últimas 72 horas tinham desmontado tudo o que ele acreditava ser sólido.

Sua esposa.

Sua vida.

Sua memória.

Ou talvez… suas memórias.

Ele respirou fundo e desbloqueou o celular novamente.

Uma mensagem antiga apareceu.

Foto dele com Isabela.

Ou… uma das Isabela.

Rafael fechou os olhos por um segundo.

“Isso não pode estar acontecendo comigo…”

Ele levantou e caminhou até a janela.

A cidade de São Paulo continuava viva.

Faria Lima iluminada.

Carros em movimento.

Executivos entrando e saindo de prédios como se o mundo fosse previsível.

Mas dentro dele nada fazia mais sentido.

O celular vibrou.

Mensagem de Helena Duarte:

“Precisamos de você novamente no hospital.”

Rafael ficou imóvel.

Ele não respondeu.

Mas sabia que iria.

Porque agora ele não confiava mais em si mesmo.

Quando chegou ao Hospital Santa Cecília, o corredor parecia mais frio do que antes.

Como se o prédio inteiro tivesse sido reorganizado para observar algo específico.

Rafael entrou na sala de observação.

E parou imediatamente.

As duas Isabela estavam lá.

De novo.

Sentadas separadas.

Sem olhar uma para a outra.

Mas completamente conscientes da presença dele.

Rafael respirou fundo.

“Eu não deveria estar fazendo isso…”

Helena respondeu:

“Mas está.”

Caio Mendonça observava de um canto.

Sem emoção.

Como sempre.

Rafael virou para ele.

“Eu quero respostas claras.”

Caio respondeu:

“Você quer conforto. Não respostas.”

Rafael ignorou.

Ele olhou para as duas mulheres.

E sentiu algo estranho.

Não era mais dúvida abstrata.

Era percepção concreta de diferença.

Pequenas coisas.

Quase imperceptíveis.

A Isabela da esquerda segurava as mãos juntas de forma rígida.

A da direita tocava levemente a mesa com os dedos, repetidamente.

Um padrão.

Rafael franziu a testa.

“Vocês estão diferentes hoje…”

As duas Isabela levantaram o olhar ao mesmo tempo.

“Como assim?” — disseram simultaneamente.

E esse sincronismo perfeito fez Rafael recuar um passo.

“Isso… isso não ajuda.”

Caio se aproximou.

“Ajuda sim.”

Rafael virou para ele.

“Ajuda o quê?”

Caio respondeu:

“Ajuda a quebrar sua ilusão de continuidade singular.”

Rafael respirou fundo.

“Pare de falar como se isso fosse um experimento de laboratório.”

Caio respondeu calmamente:

“É exatamente isso.”

Silêncio.

Rafael olhou novamente para as duas.

“Eu preciso entender uma coisa.”

Ele apontou para a primeira.

“Você.”

Depois para a outra.

“E você.”

As duas olharam diretamente para ele.

Rafael continuou:

“Qual de vocês gosta de café sem açúcar?”

A primeira respondeu imediatamente:

“Eu.”

A segunda também:

“Eu.”

Rafael fechou os olhos.

“Isso não está funcionando…”

Helena interveio:

“Rafael, não são perguntas simples que vão resolver isso.”

Ele virou rapidamente.

“Então o que resolve?”

Silêncio.

Caio respondeu:

“Nada resolve. Só revela níveis de inconsistência.”

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Rafael passou a mão no rosto.

“Eu convivi com uma delas por anos…”

Ele parou.

E olhou novamente.

“Ou com as duas.”

As duas Isabela ficaram imóveis.

Rafael caminhou lentamente até o centro da sala.

E pela primeira vez, falou sem certeza nenhuma.

“Eu lembro de coisas diferentes agora.”

Helena franziu a testa.

“Como assim?”

Rafael respondeu:

“Momentos pequenos.”

Ele olhou para a primeira Isabela.

“Você sempre colocava o café na xícara antes da água quente.”

Depois virou para a outra.

“E você… colocava depois.”

Silêncio.

As duas não reagiram.

Rafael continuou, cada vez mais confuso.

“E os dois parecem reais na minha memória.”

Caio observava atentamente.

Helena ficou mais tensa.

Rafael deu um passo para trás.

“Isso não faz sentido…”

Caio respondeu:

“Faz sim.”

Rafael virou imediatamente.

“Não faz!”

Caio respondeu com calma:

“Porque você está observando duas trajetórias de interação consistentes com você como ponto central.”

Rafael respirou fundo.

“Eu estou começando a duvidar da minha própria mente.”

Caio assentiu.

“Boa.”

Rafael encarou ele.

“Boa?”

Caio respondeu:

“Significa que você está deixando de depender de narrativa única.”

Silêncio.

Rafael virou novamente para as duas Isabela.

E algo nele mudou.

Não era mais raiva.

Era medo cognitivo.

“Vocês duas…”

Ele hesitou.

“Vocês lembram da mesma infância?”

As duas responderam:

“Sim.”

Rafael insistiu:

“O mesmo colégio?”

“Sim.”

“O mesmo acidente na Faria Lima?”

“Sim.”

Ele recuou um passo.

“Tudo igual…”

Helena sussurrou:

“Isso é o que chamamos de consistência duplicada.”

Rafael virou para ela.

“Isso não deveria existir.”

Caio respondeu:

“Mas existe.”

Rafael começou a andar de um lado para o outro.

“Então como eu escolho?”

Caio respondeu imediatamente:

“Você não escolhe.”

Rafael parou.

“Como assim?”

Caio olhou diretamente para ele.

“Você só valida interações recentes.”

Silêncio.

Rafael respirou fundo.

“Isso não é humano.”

Caio respondeu:

“Humanidade não é o critério aqui.”

Rafael voltou a olhar para as duas Isabela.

E agora havia algo diferente no olhar dele.

Não era mais apenas dúvida.

Era colapso de referência.

Ele se aproximou lentamente da primeira.

“Me diga algo que só você saberia.”

Ela respondeu imediatamente:

“Você tem uma cicatriz pequena na costela esquerda.”

Rafael congelou.

Ele virou lentamente para a outra.

Ela falou antes mesmo dele perguntar:

“Você tem uma cicatriz pequena na costela esquerda.”

Rafael ficou imóvel.

E pela primeira vez… não respondeu.

Ele apenas recuou.

“Isso… isso não pode ser coincidência.”

Helena falou:

“Não é.”

Rafael olhou para ela.

“Então o que é?”

Helena hesitou.

“Diferenças de percepção observacional entre instâncias.”

Rafael riu sem humor.

“Você também já não sabe mais o que está dizendo.”

Helena não respondeu.

Silêncio.

Rafael olhou novamente para as duas Isabela.

E agora sua voz saiu mais baixa.

“Se vocês duas são iguais…”

Ele parou.

“Então quem eu amei?”

As duas Isabela não responderam imediatamente.

E esse atraso foi o momento mais pesado de todos.

A primeira disse:

“Eu.”

A segunda disse:

“Eu.”

Rafael fechou os olhos.

E quando abriu, algo nele já não estava mais firme.

“Eu não consigo mais confiar na minha memória…”

Caio respondeu:

“Isso é esperado.”

Rafael virou para ele.

“Não, não é esperado!”

Caio respondeu calmamente:

“É quando múltiplas instâncias cognitivas começam a coexistir no seu ambiente relacional.”

Rafael ficou em silêncio.

Ele olhou para as duas novamente.

E agora não havia mais busca por verdade.

Só tentativa de sobrevivência mental.

“Eu não sei mais quem é real.”

Ninguém respondeu.

E naquele silêncio, algo ainda mais perigoso começou a acontecer dentro dele.

Ele já não estava apenas perdendo a certeza sobre as duas Isabela.

Ele estava começando a perder a certeza sobre a própria história que acreditava ter vivido com qualquer uma delas.

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